Turquia: A um passo do atoleiro iraquiano

Istambul, 26/06/2007 – A Turquia reforça sua preparação militar contra os rebeldes curdos do Iraque com prelúdio de uma possível incursão trans-fronteiriça à qual se opõem Estados Unidos, União Européia e o governo iraquiano. Três províncias turcas que fazem limite com o Iraque já foram declaradas zonas de “segurança especial”, restringindo o acesso civil devido a um aumento dos atentados com bomba em cidades, incluindo Ancara e Istambul, e dos ataques contra militares. Embora ninguém tenha assumido os atentados, a condenação oficial e pública se dirige aos rebeldes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) que entraram clandestinamente procedentes do Iraque. Enquanto isso, soldados e equipamentos militares vão sendo reunidos no escarpado e empobrecido sudeste do país, povoado pelos curdos.

O jornal Milliyt também informou no sábado que efetivos turcos já bombardeavam rebeldes do PKK em áreas de fronteira dentro do Iraque. Até agora, apesar dos pedidos para que sejam tomadas medidas decisivas contra cerca de três mil rebeldes separatistas desse partido refugiados no Iraque, não houve maiores incursões. Mas isso não está descartado e, se ocorrer, pode ter sérias conseqüências para Turquia, Iraque e o restante da região. Em abril, o general Yasar Büyükanit, chefe do Estado Maior Conjunto do poderoso exército turco, anunciou publicamente que uma operação trans-fronteiriça era possível se o governo desse sua autorização.

A administração do primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, que se prepara para as eleições nacionais no dia 22 de julho, adotou uma postura mais moderada e disse que é preciso uma ação decisiva contra os rebeldes curdos dentro da Turquia antes de se aventurar contra os que buscam abrigo no Iraque. Entretanto, não excluiu uma eventual expedição militar dentro do norte iraquiano. Mas o governo do Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), de raízes islâmicas, pode ter dificuldades para ordenar uma operação militar, apesar de contar com 353 dos 550 parlamentares.

O poder “extraparlamentar” – particularmente o exército e a opinião pública – também têm sua posição tomada, como ficou evidente há pouco. Erdogan, antes um fervoroso islâmico, retirou sua possível candidatura à presidência do país após os protestos maciços contra a campanha organizada pelo sistema secular. Depois, quando o governante AKP nomeou o ministro das Relações Exteriores, Abdullah Gul, também ex-islâmico, o exército interveio com um repentino anúncio de meia-noite que foi visto como sendo contrário à indicação de Gul. Os militares advertiram para o cerceamento dos valores islâmicos em uma república secular.

A candidatura de Gul não conseguiu a maioria parlamentar necessária, e uma emenda constitucional está pendente para fazer com que o povo eleja diretamente o presidente, e não mais através do parlamento. Desta vez, apesar da moderação do primeiro-ministro, generais da reserva e partidos da oposição aparecem em programas jornalísticos de televisão pedindo com urgência uma severa ação militar contra os rebeldes do PKK, incluída uma incursão em território iraquiano. Os funerais dos soldados mortos freqüentemente se transformam em motivos de protestos contra o governo por sua posição, vista como fraca.

Em outra medida independente do governo, o exército pediu urgência para uma “reação maciça” por parte do público contra o terrorismo do PKK. Uma série de manifestações públicas está prevista para os próximos dias. Embora uma incursão no Iraque para perseguir os rebeldes do PKK certamente acalmasse a opinião pública turca, também poderia sair mal e qualquer êxito aparente poderia ser mais prejudicial no longo prazo, segundo alguns analistas. O professor Sedat Laciner, presidente da Organização Internacional de Investigações Estratégicas, grupo turco de especialistas independentes, questionou a idéia de uma campanha de grande escala no Iraque em um informe que se transformou em objeto de debate nacional.

“Pode afastar de maneira irreversível a Turquia de seus objetivos internos e externos (crescimento econômico e entrar para a União Européia), e os acontecimentos poderiam fugir das mãos logo de início”, disse Laciner à IPS. Uma operação transfronteiriça poderia resultar na morte de “algumas centenas de terroristas”, mas também poderia preparar o caminho para o recrutamento de muitos mais insurgentes, acrescentou. O especialista não descarta a possibilidade de efetivos turcos que perseguirem os rebeldes do PKK possam encontrar a oposição de curdos iraquianos e, inclusive, de militares norte-americanos.

Os curdos no Iraque são os principais aliados dos Estados Unidos em um país dividido: alinharam-se com a invasão norte-americana de 20 de março de 2003, enquanto o parlamento turco se negou a deixar que Washington abrisse uma frente a partir de seu território na guerra contra Saddam Hussein, que governou o Iraque entre 1979 e 2003. Desagrada a Turquia o fato de os Estados Unidos e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) – que foi sua aliada durante 50 anos e agora tem uma voz dominante no Iraque – não sejam suficientemente firmes na hora de pressionar o governo central iraquiano ou o governo local curdo para agirem contra os rebeldes do PKK.

O professor Ilter Turan, ex-reitor da Universidade Bilgi, em Istambul, e vice-presidente da Associação internacional de Ciência Política, disse à IPS que Turquia e Estados Unidos buscarão um caminho que possa satisfazer as duas partes, com uma limitada operação turca. Para Laciner, é improvável que aconteça uma ação militar turca em grande escala no Iraque antes das eleições de 22 d julho, mas espera que Ancara intervenha para estabelecer uma “zona de exclusão” antes que acabe o verão, apesar de Washington se opor. (IPS/Envolverde)

Hilmi Toros

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