Teerã, 26/06/2007 – O título de cavaleiro entregue ao escritor de origem indiana Salman Rushdie, a comemoração do aniversário da rainha Elizabeth II da Grã-Bretanha organizada pela embaixada desse país no Irã, e a disputa por um parque na capital iraniana aumentaram a tensão entre Londres e Teerã. A Grã-Bretanha, aliada dos Estados Unidos em sua campanha contra o Irã, acusa este país de ajudar e armar grupos terroristas no Afeganistão e Iraque. Por sua vez, Teerã acusa Londres de interferir em seus assuntos internos e incentivar as pretensões separatistas da província árabe do Cuzistão.
A notícia da entrega do título de cavaleiro a Rushdie, no último dia 16, por seu trabalho literário, provocou reações negativas de grupos iranianos conservadores e causou mal-estar na Malásia e no Paquistão. O parlamento paquistanês condenou o fato dois dias depois. O mesmo fizeram no dia 20 os 201 legisladores iranianos, assinalando que a Grã-Bretanha mostrou sua “animosidade histórica em relação ao Islã e aos muçulmanos”, e pediram aos governos islâmicos que reduzissem seus vínculos com Londres. Ao informar sobre o protesto apresentado pelo embaixador iraniano na Grã-Bretanha, a Agência de Notícias da República do Irã (Irna) disse que o título foi dado a “um autor apóstata e esquecido”.
“O fato vai avivar o choque de culturas e civilizações”, alertou o enviado iraniano, Rasoul Movahedian. O embaixador britânico em Teerã, Geoffrey Adams, foi chamado no dia 19 passado à chancelaria iraniana para receber um protesto formal sobre o que um funcionário qualificou de “medida insultante, suspeita e irresponsável do governo britânico”, informou a agência de notícias Mehr. Por sua vez, o alto comissário britânico no Paquistão, Robert Brinkley, respondeu aos protestos. “É simplesmente falso que se pretenda insultar o Islã e o profeta Maomé com a entrega do título de cavaleiro”, afirmou. De fato, a rainha também homenageou outros dois muçulmanos, acrescentou.
O aiatolá Ruholá Khomeini, máxima autoridade religiosa do regime xiita iraniano, já falecido, emitiu em 1989 uma fatwa (decreto religioso) pedindo a execução de Rushdie e de seu editor por considerar seu livro “Os versos satânicos” um insulto ao Islã. Segundo a fatwa, todo muçulmano que se encontre com alguém acusado de blasfêmia tem a obrigação de matá-lo. O escritor britânico precisou viver quase uma década na clandestinidade. Em 1998, o governo iraniano argumentou que se tratava de um assunto religioso e se dissociou do decreto. Porém, os conservadores ainda o consideram vigente.
De fato, no último dia 18 uma organização de linha dura aumentou o prêmio pela cabeça de Rushdie, de US$ 100 mil para US$ 150 mil, segundo a agência de notícias Aftab. “A entrega do título a Rushdie foi um ato irresponsável dos britânicos. Isso enfureceu os muçulmanos de todo o mundo, mas é mais significativo ainda para nós porque deteriorou mais as já pouco amistosas relações entre os dois países”, afirmou um analista de Teerã que pediu para não ter o nome revelado. “Os britânicos têm maus antecedentes aqui, e é grande o descontentamento com eles por seu apoio às ditaduras neste país. Muita gente os culpas por todos os vícios, inclusive de levar vários clérigos ao poder”, acrescentou.
A comemoração do aniversário da rainha Elizabeth II, organizada pela embaixada britânica na capital do Irã, no último dia 14, provocou vários protestos estudantis. Cerca de 50 estudantes pediram a expulsão do embaixador britânico e o fechamento da embaixada. Além disso, deixaram bem claro que apenas aguardam um sinal do aiatolá ali Khamenei, sucessor de Khomeini, para empreendê-la contra a “guarida da velha raposa’, como os iranianos antibritânicos chamam a sede diplomática. Os estudantes atiraram pedras, ovos, garrafas de água e globos de pintura contra o prédio.
Além disso, filmaram e fotografaram os convidados que se atreveram a “aceitar a comida do aniversário da rainha” e atacaram seus automóveis, incluindo os dos diplomatas. Os manifestantes já haviam advertido às centenas de funcionários e políticos, artistas, jornalistas e empresários iranianos convidados para a cerimônia anual que não comparecessem. Os que se atreveram a ir até a embaixada foram intimidados pelos manifestantes e chamados de traidores. Depois, houve confronto com a política e várias pessoas foram detidas.
“Sabe-se que a ínfima quantidade de estudantes pertencem a um grupo títere que os governantes de linha dura utilizam para exercer pressão”, afirmou um observador de Teerã que preferiu não dar seu nome. Por outro lado, organizações e personalidades iranianas ultraconservadoras pediram o confisco de uma área propriedade da embaixada britânica, que fica ao norte de Teerã. O parque, entregue pelo outrora rei do Irã aos britânicos no século XIX é objeto de várias disputas. Após assumir o cargo, o presidente Mahmoud Ahmadinejad criou um comitê para analisar formas de recuperar essa zona.
Dentro do parque estão enterrados os cadáveres de vários soldados britânicos mortos durante a Primeira e Segunda Guerra Mundial. Ali também se encontram as residências de alguns diplomatas, o Conselho Britânico e os centros de ensino de francês e alemão. “Com essas atitudes só conseguem justificar o extremismo da política externa iraniana”, concluiu o analista de Teerã. (IPS/Envolverde)

