Iraque: Rebelião republicana no senado dos EUA

Washington, 29/06/2007 – Três senadores chave do governante Partido Republicano pediram esta semana ao governo dos Estados Unidos que revise antes de setembro a estratégia de aumentar a presença militar no Iraque. As deserções aconteceram após um discurso feito na segunda-feira no Senado pelo republicano Richard Lugar, membro do Comitê de Relações Exteriores dessa casa do Congresso norte-americano. Suas críticas e as de seus colegas George Voinovich e John Warner sugerem que os legisladores republicanos estão ficando rapidamente sem paciência diante da política do presidente George W. Bush no Iraque.

Ao mesmo tempo, uma pesquisa divulgada esta semana pela revista Newsweek indicou que apenas 23% dos entrevistados aprovam a gestão de Bush no Iraque, um nível sem precedentes. A pesquisa revelou, ainda, que a aprovação do presidente, em geral, também alcançou uma baixa histórica de 26% dos entrevistados, próximo dos valores de Richard Nixon pouco depois de sua renúncia em 1974. A Casa Branca solicitou aos legisladores que se abstenham de pressionar por mudanças na política para o Iraque antes de setembro.

Até essa data, o general David Petraeus e o embaixador dos EUA em Bagdá, Ryan Crocker, prevêem apresentar uma avaliação do aumento das tropas no Iraque. Washington enviou desde fevereiro mais 30 mil soldados para juntarem-se aos 135 mil que se encontravam com o objetivo de combater a insurgência, reduzir a violência entre comunidades religiosas e incentivar a reconciliação nacional. Porém, nas últimas semanas o Departamento de Defesa e a Casa Branca alegaram que setembro seria uma data prematura para a avaliação, porque a atual estratégia precisa de mais tempo.

Essas sugestões parecem precipitar uma revolta republicana. Em seu discurso de segunda-feira, o senador Lugar rejeitou uma “retirada total”, mas defendeu uma “redução tática” da presença militar no Iraque e um esforço muito maior na diplomacia no Oriente Médio, incluídas gestões confiáveis para resolver o conflito árabe-israelense. Esta redução, segundo o senador, é uma necessidade urgente à luz do minguante apoio público à contínua atividade bélica norte-americana no Iraque. Esta iniciativa foi aplaudida pelos senadores Voinovich e Warner, legislador-chave no tratamento de questões de segurança nacional.

Na terça-feira, Warner expressou sua confiança em que outros republicanos apoiarão Lugar no debate sobre o orçamento de defesa para 2008, que acontecerá em julho. Desde o gabinete de Lugar informou-se que o senador possivelmente proponha uma emenda detalhada ao projeto do Poder Executivo, que levaria implícita uma mudança de estratégia. Depois do recesso legislativo do 4 de Julho, outros senadores republicanos seguirão seus passos, afirmou. Apesar de seus persistentes questionamentos da política do governo no Iraque, Lugar, Warner e Voinovich sempre votaram de acordo com seu partido contra iniciativas democratas para estabelecer prazos de retirada das forças de combate dos Estados Unidos.

Inclusive, Lugar teve de liderar a resistência do oficialismo à pressão do Partido Democrata desde a presidência do Comitê de Relações Exteriores do Senado, já que precisou abandonar quando a oposição arrasou nas eleições legislativas de novembro passado. Em seu discurso de segunda-feira, o senador disse ser contrário a qualquer tentativa por parte de Bush de aumentar as tropas no Iraque até o final do mandato presidencial. Uma política nesse sentido, em sua opinião, “encerra riscos extremos para a segurança nacional norte-americana, pois aumentaria muito as possibilidades de uma retirada mal planejada do Iraque ou, talvez, do Oriente Médio em geral, que prejudicaria os interesses dos Estados Unidos durante décadas”.

“É certo que a pressão interna para a retirada continua intensa. Deveria haver uma mudança de direção agora, enquanto ainda há alguma possibilidade, ou criar uma estratégia bipartidária sustentável no Iraque”, acrescentou Lugar, para quem uma mudança de estratégia deverá impor-se “muito em breve”. O senador apoiou as conclusões do Grupo de Estudos sobre o Iraque, designado pelo Congresso e integrado por personalidades dos dois partidos, sob a co-presidência do ex-secretário de Estado James Baker (republicano) e o ex-representante democrata Lee Hamilton.

O Grupo divulgou em dezembro um detalhe do informe que recomenda a retirada das forças de combate dos Estados Unidos até abril de 2008, bem como estender pontes diplomáticas com todos os vizinhos do Iraque, entre eles Irã e Síria. Essas gestões implicariam, também, intensificar os esforços para um acordo de paz árabe-israelense. Lugar qualificou o informe do Grupo de “padrão para a cooperação bipartidária em nossa estratégia para o Iraque”. Também citou três fatores pelos quais chegou à conclusão de que “os custos e riscos de continuar pelo caminho atual são maiores do que os potenciais benefícios”.

Primeiro, mesmo que as forças dos EUA consigam reduzir a violência, “é muito duvidoso que os líderes das facções iraquianas sejam capazes de implementar um acordo político no curto prazo”, disse. “Uma estratégia norte-americana deve ajustar-se à realidade de que as facções não se aplacarão rapidamente, e provavelmente não poderão ser controladas desde cima”, acrescentou. O segundo fator “é a fadiga de nosso exército”, afirmou o Grupo citando reduções nos padrões de recrutamento que resultaram na guerra no Iraque.

Por fim, a paciência do público em relação ao compromisso militar de Washington está se esgotando rapidamente. “O presidente e sua equipe devem assumir que estão reduzindo os tempos políticos neste país para as operações militares no Iraque”, acrescentou. Além disso, prosseguiu, a fixação do governo nas “noções artificiais de conseguir a vitória ou evitar a derrota” no Iraque coloca em risco os interesses mais amplos dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Lugar exigiu que Washington se concentre em cumprir quatro “objetivos principais”: impedir que o Iraque ou parte do seu território seja usado como um abrigo seguro para terroristas; que a violência nesse país desestabilize o Oriente Médio e que o Irã domine a região, bem como limitar a perda de credibilidade dos Estados Unidos na área. Ao mesmo tempo, uma retirada total tampouco seria funcional para os interesses norte-americanos, embora não seja pelo simples fato de que potenciará a probabilidade de um conflito regional mais amplo e prejudicará a credibilidade do país norte-americano perante seus aliados na região, disse.

Por outro lado, reclamou uma “redução e recolocação de forças militares norte-americanas para uma posição mais sustentável no Iraque ou no Oriente Médio”, possivelmente no Curdistão ou em Estados próximos a partir dos quais se poderia responder a “ameaças terroristas, proteger fluxos petrolíferos e ajudar a dissuadir uma guerra regional”. Os democratas aplaudiram o discurso de Lugar, que consideraram um possível ponto de inflexão no confronto entre oficialismo e oposição.

“Tenha a Casa Branca ouvido ou não, a declaração do senador Lugar já causou ondas expansivas através do Capitólio”, a sede do Congresso, disse Jim Cason, analista do Comitê de Amigos sobre Legislação Nacional, um grupo de pressão antibélica. “Sua declaração cria um espaço político para que outros republicanos exijam em público uma mudança na política no Iraque com base nas recomendações do Grupo de Estudos sobre o Iraque”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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