Israel-Síria: Verão de nuvens pesadas

Washington, 12/07/2007 – Quase um ano se passou desde que o movimento xiita Hezbolá (Partido de Deus) enfrentou forças de Israel em uma guerra de 34 dias que matou mais de 1.200 libaneses e 160 israelenses, destruindo, ainda, grande parte da infra-estrutura do Líbano. No próximo dia 16, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas revisará a implementação da resolução 1701, que pôs fim à guerra. Mas como indica um recente informe da ONU, esta não conseguiu deter o fluxo de armas pesadas ao longo da fronteira entre Síria e Líbano, que chegam às mãos do Hezbolá.

Como na investigação do assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafiq Hariri, cometido em fevereiro de 2005, analistas políticas em Washington apontam Damasco como principal instigador da instabilidade do Líbano. Na semana passada surgiram temores de uma guerra entre Israel e Síria, um dois principais patrocinadores do Hezbolá. “A Síria rearmou esse movimento até os dentes. Deve haver um preço a ser pago por isso”, disse Dennis Ross, ex-negociador de paz dos Estados Unidos para o Oriente Médio, ao serviço israelense por Internet Ynetnews.com. “Ninguém tomou uma decisão (sobre ir à guerra), mas os sírios se preparam para um conflito”, acrescentou.

Enquanto Israel fazia um grande exercício militar nas Colinas de Golan, na semana passada circularam pela Internet informações não confirmadas de que Damasco havia exortado os cidadãos sírios a abandonarem o Líbano antes do próximo dia 15, um dia antes de o Conselho de Segurança discutir a resolução 1701 e o envio de especialistas à fronteira sírio-libanesa para constatar se continua o tráfico de armas para o Hezbolá. Isto foi negado por funcionários públicos sírios no domingo, segundo o jornal israelense The Jerusalem Post.

Embora alguns analistas falem em um verão boreal intenso no Oriente Médio e um pior cenário envolvendo Síria, Irã, Hezbolá e o palestino Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) em um grande conflito regional com Israel e os Estados Unidos, outros inclinam por diferentes interpretações. “Nem Israel nem Estados Unidos estão preparados para uma guerra. Os norte-americanos e os iranianos mantiveram uma reunião preliminar em Bagdá que poderia derivar em mais intercâmbios”, escreveu o analista Patrick Seale, especialista em assuntos sírios, para o jornal The Gul News, dos Emirados Árabes Unidos.

Além disso, “meios de comunicação de Israel informaram que o primeiro-ministro, Olmert, enviou mensagens secretas a Bashar (Al Assad) respondendo positivamente aos repetidos chamados do presidente sírio para reiniciar as negociações”, acrescentou Seale. Inclusive, Olmert foi mais explícito quando assegurou ao canal de televisão árabe Al Arabiya, na terça-feira, estar disposto a manter conversações diretas com Al Assad. “Você disse que quer manter negociações através dos norte-americanos, mas eles não querem sentar com você. E eu estou disposto a me sentar e falar sobre a paz, não sobre guerra”, disse o primeiro-ministro israelense ao mandatário sírio. “Ficaria feliz se pudéssemos fazer a paz com a Síria. Não quero uma guerra com a Síria”, acrescentou.

Em uma série de reuniões secretas realizadas entre setembro de 2004 e julho de 2006, israelenses, liderados pelo ex-conselheiro governamental em política externa Alon Liel, e os sírios, liderados pelo empresário Ibrahim Soliman, concordaram em recomendar uma retirada de Israel das Colinas de Golan em troca de Damasco deixar de apoiar o Hamas e o Hezbolá, se afastar do Irã e fazer esforços para estabilizar o Iraque. Mas, qualquer negociação entre Israel e Síria está sujeita à vontade de Washington em manter um contato direto com Damasco, o que descarta logo de saída o governo de George W. Bush, que acusa o governo sírio de patrocinar o terrorismo.

Os Estados Unidos retiraram seu embaixador em Damasco em 2005, em resposta ao assassinato de Hariri em Beirute. Em maio, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, alertou Israel sobre o perigo de negociar com a Síria em lugar se dispor a conversar com as facções palestinas. “Entendo que é a visão dos israelenses, e a nossa também, os sírios terem adotado um comportamento que está desestabilizando a região”, afirmou Rice a jornalistas em Berlim durante uma viagem destinada a reativar o processo de paz entre Israel e Palestina.

Um mês depois, o Hamas expulsou de Gaza o partido secular palestino Al Fatah, obrigando o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, a formar um novo governo na Cisjordânia. O interesse de Rice em resolver o conflito israelense-palestino foi tardio e contradisse o discurso do Departamento de Estado, que reduzia o problema a uma batalha entre palestinos “moderados” e “extremistas”.

O centro acadêmico independente Grupo Internacional de Crise alertou para altos custos na região se a Síria foi excluída do processo. “Damasco possui múltiplas formas para solapar as conversações entre palestinos e israelenses, seja estimulando o Hamas ou a Jihad Islâmica para que reinicie a violência, criticando as concessões ou obstruindo, diante de um eventual acordo, a realização de um referendo entre os refugiados palestinos na Síria”, afirmou o Grupo. (IPS/Envolverde)

Khody Akhavi

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