Nova Délhi, 16/02/2005 – Simpatizantes do insurgente Partido Comunista do Nepal (maoísta) exilados na índia apóiam a greve armada decidida por seus camaradas dentro do país, contra o golpe de Estado liderado pelo rei Gyanendra no último dia 1º. "O governo nepalês fracassou e não conseguiu tirar as pessoas de pobreza. Nos vimos obrigados a vir para a índia para sobreviver", disse Tika Shrish, de 28 anos e natural de Bardia, uma localidade do oeste do Nepal. Shirish participou no domingo passado, junto com milhares de nepaleses, da comemoração dos 10 anos do início da guerrilha maoísta, cujo objetivo é estabelecer uma república comunista. A organização está inspirada no grupo peruano Sendero Luminoso. "Nossa última esperança é este partido. Esperamos que uma república possa fazer frente aos problemas que enfrentamos", disse a mulher, enquanto secava o suor do rosto de seu filho de 7 anos.
A insurgência começou em fevereiro de 1996 nos remotos distritos montanhosos do meio-oeste do Nepal, na forma de protestos contra o aprofundamento da brecha entre ricos e pobres e a marginalização das castas inferiores determinadas pela religião hindu. As manifestações se converteram, pouco a pouco, e uma "guerra popular" que já está no seu décimo ano. Hoje, os rebeldes têm importante presença em todos os distritos do Nepal. O saldo da guerra civil é de 10.500 mortos desde 1996. No dia 1º deste mês, Gyanendra assumiu o poder absoluto pela segunda vez em dois anos ao dissolver o governo do centrista Partido do Congresso, declarar o estado de emergência e impor uma forte censura aos meios de comunicação e restrição ao serviço de telefonia.
O rei do único reino hindu do mundo questionou a capacidade do governo encabeçado por Sher Bahadur Deuba para restaurar a paz neste país assolado pela guerra civil. "Tradicionalmente, a coroa é responsável por proteger a soberania nacional, a democracia e o direito do povo de viver em paz", advertiu Gyanendra ao informar sobre o golpe de Estado em rede de televisão. Desde seu esconderijo, o presidente do partido maoísta, camarada Prachanda – cujo nome real é Puspa Kamal Dahal – reiterou em mensagem através do rádio, a primeira desde 1996, que a meta da insurgência é a abolição da monarquia. "Esta é nossa última batalha contra a autocracia feudal. Não importa o quanto é difícil esta batalha, o triunfo é certo. Unamo-nos", enfatizou. Um milhar de dirigentes políticos, sindicais e estudantis foram detidos em todo o país em razão do golpe. O Real Exército Nepalês anunciou que as detenções podem durar até três meses sem que o Judiciário seja informado.
Os 10 Anos de insurgência maoísta foram comemorados não somente nas ruas de Nova Délhi, mas, também, nas de Chandigarh, Mumbai (ex-Bombaim) e Chennai, nas quais vivem milhares de nepaleses. No próprio Nepal houve os bastidores maoístas do oeste, centro e oriente do país, disse Laxman Pant, presidente da organização pró-maoísta Jandhikar Suraskhya Samiti, radicada na índia. O ministro da Informação e Comunicações do Nepal, Tanka Dhankal, anunciou que o governo não voltará chamar os maoístas para o diálogo. "O que o rei disse é suficiente se eles querem resolver o problema amigavelmente", afirmou. Os meios de comunicação controlados pelo Estado informaram que a greve teve pouco ou nenhum impacto no país, pois as forças de segurança escoltaram os caminhões com carga pelas rodovias do país. "As pessoas começaram a desafiar essas convocações. O efeito do bloqueio é mínimo", assegurou Dhankal.
Por sua vez, o dirigente do Partido do Congresso Nepalês, Pradip Giri, hoje exilado na índia, exortou os maoístas, comunistas e centristas a se unirem em um programa comum para restaurar a democracia, pelo bem "dos escravos explorados pelos senhores feudais e pelas mulheres exploradas nos bordéis da índia". Os combates entre as forças maoístas e o Real Exército Nepalês continuam, segundo Sujata Koirala, filha do ex-primeiro-ministro Girija Prasad Koirala, de 81 anos, em prisão domiciliar desde o golpe comandando por Gyanendra.
Em sua fuga para o sul, rumo à índia, Koirala presenciou batalhas em áreas remotas do distrito de Chitwan, perto da fronteira. "Poderia ter sido morta tanto pelos rebeldes quanto pelo exército", disse. Mas, para ela, a vitória dos maoístas é apenas questão de tempo, pois contam com 300 mil combatentes contra um exército de aproximadamente 78 mil homens. "Com a censura da imprensa, as atrocidades do Exército Rela Nepalês podem ser facilmente atribuídas aos maoístas", advertiu Koirala. Segundo ela, a coroa perdeu a confiança do povo e sobrevive com a ajuda dos militares. "Os pilares gêmeos do sistema nepalês – monarquia constitucional e democracia parlamentar – nunca funcionou neste país. O regime no Nepal é feudal e ditatorial. (IPS/Envolverde)

