Peshawar, 24/07/2007 – A onda de atentados suicidas que deixou mais de 130 mortos em todo o Paquistão desmoralizou as forças de segurança presentes nas zonas tribais do noroeste do país, paraíso de grupos radicais islâmicos na fronteira com o Afeganistão. A maioria dos ataques desta semana foi na Província da Fronteira Noroeste, e 70 das 110 pessoas mortas nessa província eram soldados ou policiais. Supõe-se que os ataques contra a polícia e o exército foram em represália à violenta tomada da Lal Masjid (Mesquita Vermelha) em Islamabad, na semana passada, na qual morreram 75 combatentes simpatizantes do movimento islâmico afegão Talibã.
Também acredita-se que os atentados expressam a oposição dos radicais ao apoio do presidente paquistanês, general Pervez Musharraf, à chamada “guerra contra o terrorismo” liderada pelos Estados Unidos e pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no Afeganistão. Esta é a primeira vez que as forças de segurança do Paquistão têm um grande número de vítimas em tempo de paz. Por isso, muitos soldados pediram e licença e também autorização para trabalhar sem uniforme.
“Temos medo de usar a farda. Os combatentes estão melhor equipados do que nós e não há como parar os atentados suicidas”, disse à IPS um agente policial do distrito de Swat, na Província da Fronteira Noroeste, principal entrada para o Afeganistão. A ameaça é suficientemente seria para que as autoridades permitirem os agentes trabalharem vestidos à paisana, acrescentou. A Província da Fronteira Noroeste tem cerca de 35 mil efetivos para uma população de 22 milhões de habitantes, e a setentrional Área Tribal Sob Administração Federal tem sete mil khasadar (policiais locais) para cerca de quatro milhões de pessoas.
Considera-se que essas forças são insuficientes, e a região pode recorrer aos serviços da Polícia de Fronteira, com aproximadamente 17 mil efetivos. Além disso, também há uma força regular com cerca de 80 mil soldados ao longo da porosa fronteira co o Afeganistão para checar os movimentos de grupos armados na zona limítrofe. Mas, o exército não pode agir por causa de um acordo de cessar-fogo acertado com líderes tribais em setembro e que o governo pretende respeitar.
“nossas forças não estão bem capacitadas, carecem de equipamentos, veículos e armamento adequados”, disse à IPS um oficial da polícia, que também confirmou que centenas de oficiais solicitaram licença por medo da insegurança. “É, sobretudo, nos arredores de Swat, Tank e Dera Ismail Khan que nossos homens devem evitar o uniforme”, disse um oficial. No ataque de quinta-feira, um carro-bomba explodiu em Hub, cerca de 30 quilômetros a oeste da cidade de Carachi, matou 26 pessoas, sete delas policiais. Outros seis morreram em um centro de treinamento da polícia na cidade de Hangu, nesta mesma província, segundo fontes oficiais.
Os atentados suicidas são o desafio mais serio que enfrenta o governo do ditatorial Musharraf, que chegou ao poder há oito anos após um golpe de Estado militar e conseguiu evitar as reclamações para restaurar a democracia exibindo sua utilidade na campanha antiterrorista do Afeganistão. Os ataques contra as forças de segurança na região noroeste aconteceram após o abandono unilateral dos líderes tribais do acordo de paz de setembro, pelo qual o exército paquistanês se retirava de suas zonas e eles evitariam que os talibãs e militantes da rede terrorista Al Qaeda, de Osama bin Laden, cometessem ataques no Afeganistão.
Este ano houve 21 atentados suicidas no Paquistão que mataram 225 pessoas e que, com bastante precisão, atingiram objetivos militares, policiais e paramilitares. O presidente afegão, Hamid Karzai, acusou reiteradas vezes o Paquistão de envolvimento no treinamento e envio de atacantes suicidas ao seu país de forma encoberta, embora cada vez mais busquem objetivos neste país. Há pouco, a Organização das Nações Unidas pediu aos seus efetivos nas áreas tribais e na Província da Fronteira Noroeste que evitem aproximar-se de dependências policias e militares.
Todas as agências da ONU restringiram seus movimentos e suspenderam suas atividades. Em março, o ministro do Interior do Paquistão, Aftab Sheropao, salvou-se por pouco quando um atacante suicida imolou-se enquanto ele estava em uma reunião em Charsadda, nesta província. Também no começo do ano, altos funcionários policiais foram assassinados em dois incidentes distintos em Peshawar, capital provincial. “Os grupos radicais queriam intimidar policias e militares, e conseguiram”, disse Ashraf Ali, que pesquisa o movimento Talibã para sua tese de doutorado no Centro de Estudo da Área, da Universidade de Peshawar.
Na opinião de Ali, o presidente paquistanês sente-se isolado politicamente e procura desesperadamente agradar os Estados Unidos. “A única forma de Musharraf agradar Washington é combatendo os radicais”, afirmou o especialista. O Partido Nacional Awami, favorável à etnia “pashtún” (patán) majoritária no norte do Paquistão e Afeganistão, pediu na semana passada aos radicais e ao Talibã que detenham os ataques suicidas contra pessoas inocentes e oficiais das forças de segurança. “Esta situação é obra dos serviços secretos do Paquistão. Colocaram os militantes islâmicos do Talibã contra o exército russo no Afeganistão e agora combatem esse movimento em nome da guerra contra o terrorismo”, disse Ghulam Ahmad Bilour, vice-presidente do Partido Nacional Awami.
O especialista em assuntos afegãos Afrasiab Khattak, disse à IPS que o ideal seria o governo estabelecer uma relação de confiança com a população local por meio de um diálogo direto, se realmente quer acabar com a atividade rebelde. “Todas as decisões sobre a guerra contra o terror dependem de algumas poucas pessoas em Islamabad e não há confiança por parte da população da Província da Fronteira Noroeste e da Área Tribal, por isso as coisas chegaram a esta situação lamentável”, acrescentou. (IPS

