Jerusalém, 25/07/2007 – Foram 255 prisioneiros palestinos que na sexta-feira entraram em um ônibus de vidros escuros na prisão de Ketziot, no sul de Israel, para iniciar a viagem rumo à cidade de Ramalá, na Cisjordânia, e para a liberdade. Na sede da presidência da Autoridade Nacional Palestina nessa cidade, milhares de pessoas saudaram os recém-libertados e pouco depois dirigiram-se a uma enorme barraca de campanha para pronunciarem as orações islâmicas vespertinas. “Este é o começo”, disse o presidente palestino, Mahmoud Abbas. “Devemos continuar até que todos prisioneiros regressem às suas casas”, acrescentou. Abbas se referia aos quase 10 mil palestinos que estão em prisões israelenses.
A grande maioria dos libertados pertencia ao partido secular Fatah, liderado por Abbas. Sua liberdade é um na série de gestos israelenses para apoiar a figura do presidente palestino, prejudicada após a tomada do controle de Gaza por parte do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) no mês passado. Nas últimas semanas, Israel, com apoio do Ocidente, acertou outras medidas para fortalecer Abbas, como o fim da temporada de caça na Cisjordânia a 178 combatentes do Fatah incluídos em sua lista de “mais procurados”.
As milícias deste partido, por sua vez, entregaram suas armas à Autoridade Nacional Palestina e assinaram um compromisso para por fim aos ataques contra Israel. O primeiro-ministro israelense, Ehud Olmer, por seu lado, começou a transferir para Abbas parte das centenas de milhões de dólares em impostos aduaneiros que seu país cobra em nome da ANP, congelados quando o Hamas, que se recusa a reconhecer o Estado judeu, obteve a maioria do parlamento em 2006. Funcionários israelenses consideram que estes gestos ajudarão a reiniciar as bloqueadas conversações de paz.
“Acreditamos que os passos combinados dados pelos governos israelense e palestino abrirão um novo período de cooperação e diálogo, e que reverteremos a dinâmica negativa’, disse o porta-voz do Ministro das Relações Exteriores, Mark Regev. É pouco provável, entretanto, que as medidas de Israel reavivam um diálogo sério, pois a brecha de expectativas entre Olmert e Abbas é muito profunda. “A política de vocês e de pequenas mudanças. Fazem um pouco aqui, um pouco ali. Israel, um país forte e grande, por se permitir ser mais audaz”, disse ao jornal israelense Yediot Ahrronot na sexta-feirta o primeiro-ministro palestino designado por Abbas após o desmantelamento do governo do Hamas, Salam Fayyad.
Os palestinos pretendem começar a discutir as questões-chave do conflito com Israel, como o futuro de Jerusalém, as fronteiras do novo Estado e o destino dos exilados. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, propôs uma cúpula regional para renovar o diálogo. “O melhor que poderíamos fazer em uma reunião assim é nos concentramos nos substancial”, disse Saeb Erekat, ex-chefe dos negociadores palestinos e atual assessor de abbas. “Necesitamos desta para nos concentrarmos na implementação” dos acordos já alcançados, “na transformação das palavras em fatos. Isso vai restaurar a credibilidade do processo de paz”, afirmou Erekat.
Entretanto, Olmert, disposto a dar sinais para consolidar a confiança entre as partes, não tem intenção de discutir questões de envergadura como as fronteiras do futuro Estado palestino e a situação dos refugiados. A porta-voz do primeiro-ministro, Miri Eisen, explicou: “Estamos dispostos a falar sobre assuntos de cunho político e sobre como alcançar a visão de dois Estados para dois povos. Mas, somos muito claros em não discutirmos, nesta etapa, os três assuntos-chave: fronteiras, refugiados e Jerusalém”.
Não causou nenhuma surpresa o Hamas rejeitar a proposta da cúpula e criticar o acordo de anistia entre Israel e Abbas, que inclui apenas combatentes do Fatah. O movimento islâmico considera que se trata de uma tentativa de dividir os palestinos. “Condenamos esta cúpula norte-americana, que tem a intenção de servir aos interesses do inimigo sionista”, disse o porta-voz do Hamas, Ismail Radwan. O primeiro-ministro palestino destituído por Abbas e que se considera à frente do governo, Ismail Haniyeh, alertou que a libertação dos prisioneiros palestinos é um “suborno político”.
Abbas exortou Israel e avançar nas conversações para um acordo final e criar rapidamente um Estado palestino dentro de fronteiras provisórias. Circulam em Israel versões insistentes sobre a intenção de Olmert e Abbas a respeito de uma retirada unilateral da Cisjordânia. Mas, com o Hamas controlando Gaza e Abbas procurando recupera a credibilidade entre os palestinos, o primeiro-ministro israelense, que também luta por sua sobrevivência política, não tem muita margem de concessões significativas além dos gestos realizados nas últimas semanas. (IPS/Envolverde)

