México, 03/08/2007 – Auriestela Cerna levantou a mão direita para indicar o local escolhido pela prefeitura da capital mexicana para construir, apesar da oposição dos moradores, o prédio mais alto da América Latina. Não é bom para a cidade nem para nós. Nos afeta muito”, disse à IPS Cerna, professora aposentada que vive há quatro décadas na zona noroeste da Cidade do México, onde foi dada autorização para uma firma nacional e outra espanhola construírem a Torre Bicentenário. O prefeito Marcelo Ebrard lançou a obra de 300 metros de altura no último dia 23 para comemorar o aniversário do início da Guerra de Independência com a Espanha em 1810, mas a iniciativa encontrou uma decidida oposição por parte dos moradores das zonas próximas ao projeto, no bairro de Lomas de Chapultepec, um reduto da classe alta desta cidade.
A prefeitura defende o arranha-céu falando dos benefícios que supõem sua construção: um investimento privado de US$ 600 milhões, geração de 4.400 empregos e impulso à economia da região depois de sua conclusão em 2010. Porém, os moradores apresentam outros argumentos. Estudos feitos por três comitês de moradores indicam que a Torre Bicentenário terá um impacto negativo num raio de 25 quarteirões, implicará uma circulação adicional de cinco mil automóveis diários e 20 mil pessoas a mais que precisarão de 100 ônibus urbanos adicionais, em uma via caracterizada por seu intenso tráfego. O anúncio da obra colocou dois trens em rota de colisão.
Ebrard, que assumiu em dezembro, anunciou com festas o projeto. Horas depois, Gabriela Cuevas, responsável pela Delegação Miguel Hidalgo, uma das 16 zonas em que se divide a capital mexicana, disse que o edifício viola as leis de urbanização por não contar com estudos de impacto ambiental. Em resposta, o prefeito, do esquerdista Partido da Revolução Democrática (PRD), garantiu que se modificará a legislação vigente para abrir caminho ao que seria a marca de sua administração. A disputa entre Ebrard e Cuevas, do conservador Partido Ação Nacional (PAN), poderia situar-se dentro da disputa que mantêm a esquerda mexicana e o presidente Felipe Calderón.
O PRD se nega a reconhecer a vitória de Calderón, do PAN, nas eleições de julho de 2006, que venceu por apenas 0,58% dos votos, derrotando seu candidato, Andrés Manuel López Obrador, por considerar que houve fraude. Cuevas rechaça que a polêmica pelo edifício faça parte desse enfrentamento. “Não é uma disputa entre Ebrard e Cuevas. O projeto viola a lei. O movimento cidadão vai derrubá-lo”, assegurou à IPS. A obra violaria a Lei de Desenvolvimento Urbano do Distrito Federal e o Programa Parcial de Desenvolvimento da demarcação territorial, afirmam os críticos do projeto. A Delegação Manuel Hidalgo, liderada por Cuevas, verificou no dia 8 de junho a situação da obra e duas semanas depois decretou a suspensão dos trabalhos de construção.
Os moradores estão em pé-de-guerra. Na sexta-feira se reuniram em assembléia e também sugeriram uma consulta cidadã, a ser desenvolvida esta semana, junto com a formação de três comitês para assuntos ambientais, arquitetônicos e legais. “O edifício vai nos prejudicar. Há 40 anos vendemos aqui, e seguramente irão nos transferir”, queixou-se uma vendedora de doces, que trabalha na rua onde se pretende erguer a Torre. É uma are perto do Bosque de Chapultepec, um dos principais pulmões verdes da capital, onde se misturam comércio e residências e escasseiam os edifícios altos. Os comitês de moradores abriram uma página na Internet para receber comentários sobre a obra. Já foram recebidas dezenas de mensagens.
“A edificação mais imponente das últimas décadas na capital não provém de uma idéia de reocupação urbana? É um baú que cai do céu. Não se constrói em uma zona apropriada para sua dimensão, quebra as regras de ordenamento urbano e agride a vizinhança”, escreveu Jesús Silva-Herzog Márquez, colunista do jornal Reforma. A obra enfrenta mais obstáculos. Para erguer o arranha-céu é preciso demolir um edifício construído em 1948 que figura entre os sítios protegidos pelo Instituto Nacional de Belas Artes por seu valor arquitetônico e histórico. A Torre terá área de 387 metros quadrados, com três auditorios, um salão de festas, três restaurantes e um museu. Seu projeto é do holandês Rem Koolhass e de três escritórios de arquitetura mexicanos.
Koolhass ganhou o Prêmio Pritzker de Arquitetura em 2000, equivalente o Prêmio Nobel nessa disciplina. Este “monumento” para comemorar o bicentenário da independência foi inspirado na pirâmide de Kukulcán, no sitio maya de Chichén Itzá, no Estado de Quintana Rôo. A pirâmide foi eleita há pouco tempo uma das novas sete maravilhas do mundo através de votação via Internet patrocinada por um empresário suíço, que gerou polemicas. Entre as obras do urbanista holandês estão a Biblioteca Pública de Seattle, nos Estados Unidos; a torre da Televisão Central de Pequim e a Casa da Musica do Porto, em Portugal. “Um edifício pretende suprir a ausência de um projeto de cidade. Que o governo do Distrito Federal o adote como símbolo de sua modernidade é, na realidade uma confissão. A Torre do Bicentenário é o ícone de uma cidade à deriva”, ressaltou Silva-Herzog Márquez. (IPS/Envolverde)

