Israel: O muro da vergonha

Biliin, 15/08/2007 – Toda sexta-feira, há dois anos, centenas de ativistas palestinos, israelenses e estrangeiros se reúnem nesta aldeia agrícola para protestar contra o “muro do apartheid” que o Estado Judeu constrói ao redor da Cisjordânia. Entre as oliveiras, os soldados israelenses que guardam a barreira costumam reprimir a multidão com gás lacrimogêneo, bomba de fumaça, granadas e balas de borracha. No último protesto, sexta-feira passada, oito manifestantes, entre eles cinco menores palestinos e um paramédico, ficaram feridos e três foram presos. A população local organizada decidiu realizar estas manifestações semanais em fevereiro de 2005, quando as forças israelenses começaram a arrancar árvores e preparar o terreno para a construção a barreira.

O muro, uma estrutura eletrificada e com arame farpado, dividiu terras de agricultores de Bili'in que somam centenas de hectares. A cerca deixou do lado israelense os arredores do assentamento de Modi'in Illit, o maior do território ocupado da Cisjordânia, onde vivem cerca de 33 mil colonos judeus. Os manifestantes desceram pelas ladeiras até o muro onde os esperavam quase uma dúzia de soldados israelenses atrás das oliveiras, diante de veículos blindados, que lançaram granadas e gás lacrimogêneo.

A multidão correu em busca de abrigo enquanto os soldados disparavam gás lacrimogêneo para as árvores próximas. Alguns manifestantes ficaram para trás, incluindo menores que atiraram pedras. Nesse momento os soldados começaram a usar balas de borracha que costumam perfurar e queimar a pele, mas quando disparadas de perto podem ser fatais. “Venho todas as semanas”, disse um jovem palestino de 19 anos, que pediu para não revelar seu nome. “Os soldados nos detêm e utilizam gases, bombas e bala de borracha. Laçam mão de todo tipo de armas para nos deter. O gás provoca doenças. Muitos ficaram com graves problemas de saúde. Os colonos israelenses atiram contra a gente e nos golpeiam quando tentamos chegar até nossas terras, do outro lado do muro”, acrescentou o rapaz.

O Tribunal Internacional de Justiça, com sede na cidade holandesa de Haia, declarou em junho de 2004 que “a construção e seus sistemas associados são contrários ao direito internacional” e que “Israel tem a obrigação de interromper as obras e destruir o muro”. De acordo com o tribunal, “Israel deve indenizar os proprietários das terras confiscadas para construir o muro e os prejudicados pelo mesmo. Os Estados têm a obrigação de não reconhecer a situação e garantir que esse país atue de acordo com o direito internacional”. Por sua vez, Israel não aceitou esse veredito, que carecia de caráter obrigatório, e prosseguiu com a construção do muro que, uma vez terminado, se estenderá por 703 quilômetros em volta da Cisjordânia. Muitas vezes, o muro ultrapassa a Linha Verde, espécie de fronteira demarcada no armistício árabe-isrtaelense de 1949 entre esse país, Egito, Jordânia e Síria.

Israel argumenta que o propósito da muralha é evitar atentados suicidas, mas os críticos dizem que sua intenção real é anexar tanto território quanto possível para as crescentes colônias judaicas da Cisjordânia. Muitas aldeias agrícolas de Bili’in, que dependem do que vendem a comunidades próximas, ficarão em uma situação muito vulnerável após a construção dessa barreira. “O muro, que confisca alguns dos principais recursos das aldeias, como terras férteis e reservas hídricas, propiciou mudanças muito rápidas na estrutura econômica e social de áreas palestinas”, disse à IPS Jamal Jumaa, coordenador da Campanha contra o Muro do Apartheid, com sede em Ramalá.

“Cinqüenta e uma aldeias ficaram isoladas, o que obrigou os agricultores que por gerações cultivaram essas terras a buscar emprego em cidades próximas, ou outras”, disse Jumaa. “Isso mudou a configuração social: de uma estrutura social baseada na agricultura passou a outra, baseada na indústria”, disse. “Do outro lado do muro, Israel cria zonas industriais. Os palestinos perdem suas terras para o muro e se vêem obrigados a buscar trabalho convertendo-se em mão-de-obra barata para a indústria israelense”, acrescentou Jumaa.

As manifestações não-violentas contra o muro se tornaram regulares e ocorrem diariamente na Cisjordânia. Mas em Bili'in, numerosos ativistas internacionais mantêm uma presença visível nos protestos semanais. “Os israelenses pressionam para ver até onde podem chegar”, disse à IPS um homem de origem britânica que participou da manifestação. “è preciso dizer a eles que já foram longe demais. É necessário protestar. Eles esperam que o mundo se cale. Mas os que vêm de todas as partes demonstram que não ficaremos quietos”, disse o homem. “Sou inglês, mas vivo nos Estados Unidos e meus impostos pagam o gás lacrimogêneo que acabam de atirar contra mim. Quer dizer, pago por isto. É um escândalo”, afirmou indignado. O exército israelense “espera que deixemos de protestar e nos mudemos”, disse o palestino de 19 anos. “Com as manifestações demonstramos que vamos ficar em nossas aldeias”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Nora Barrows-Friedman

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