Havana, 15/08/2007 – Um ano depois que o presidente cubano, Fidel Castro, anunciou sua retirada temporária por motivo de saúde, a população parece ter se acostumado a uma situação na qual o líder cubano se mantém “a par de tudo”, enquanto seu irmão Raúl governa. Vários prazos manejados para seu possível retorno ficaram para trás e as expectativas diminuíram, especialmente depois de 26 de julho, Dia da Rebeldia Nacional, festejado sem a sua presença. “Talvez se a comemoração fosse em Havana ele estivesse presente”, disse à IPS a professora aposentada Josefa Martinez.
Mas a sede dos festejos foi Camagüey, 534 quilômetros a sudeste de Havana, e o discurso ficou a cargo da Raúl Castro, presidente em exercício desde 31 de julho do ano passado, que explicou que “nem nos momentos mais graves de sua doença” o mandatário “deixou de contribuir com sua sabedoria e experiência diante de cada problema e decisão importante”. Para alguns não passou despercebido que outra das referências de Raúl ao seu irmão mais velhos foi para recordar que nessa mesma cidade, em 26 de julho de 1989, o governante advertiu que no caso de desintegração da União Soviética (que acabou ocorrendo em 1991), Cuba seguiria adiante com sua revolução.
“Raúl foi mais critico nesse discurso, mas em um contexto de continuidade. Por isso também citou essas palavras de Fidel em 1º de Maio de 2000, quando, entre outras coisas, disse que “Revolução é sentido do momento histórico, é mudar tudo o que precisa ser mudado”, disse um sociólogo que pediu para ficar no anonimato. Em 26 de julho se comemora o ataque aos quartéis Moncada, em Santiago de Cuba, e Carlos Manuel de Céspedes, em Bayamoi, no extremo sudeste do país, dirigido por castro à frente de um grupo de jovens entre os quais estava Raúl, hoje com 76 anos.
“Agora me assediam com perguntas sobre o momento em que voltarei a ocupar o que alguns chamam de poder”, escreveu Fidel no dia 31 de julho, sem dar prazos nem mostras de pressa para voltar à vida pública. “O próprio Raúl cuidou de responder a cada decisão importante na medida em que ia me recuperando era consultada comigo”, acrescentou em uma de suas “Reflexões” (coluna que pública na imprensa estatal) destinada a recordar seu primeiro ano de afastamento, desde que delegou suas funções ao primeiro vice-presidente e ministro da Defesa.
Para Martinez, que trabalhou quase três décadas na docência, “o melhor que poderia acontecer é ter Fidel e Raúl governando juntos”. Em sua opinião, as pessoas se acostumaram a essa nova situação e se sentem tranqüilas. “Sei que no estrangeiro se fala muito de mudanças para Cuba. Nós queremos que nossas vidas melhorem, que nossas aposentadorias sejam suficientes, mas tudo isso sem perder progressos sociais com os saúde e educação gratuitas, porque seria retroceder”, afirmou. Castro completou na segunda-feira 81 anos ainda convalescendo dos graves problemas de saúde que, segundo suas próprias palavras, o deixaram à beira da morte.
A comemoração foi precedida de uma semana de carnavais que terminaram no domingo à noite com fogos de artifício sobre a baía de Havana. O jornal oficial Granma optou por publicar na primeira pagina, sob o título “Venceremos!”, as mensagens de saudação de cinco cubanos condenados nos Estados Unidos a severas penas de prisão sob acusação de espionagem. Castro deu a esse caso uma atenção semelhante à dada ao menino “balsero” Elián González, cuja repatriação em junho de 2000, se deu graças ao forte movimento de opinião pública nos Estados Unidos em apoio à decisão do pai, Juan Miguel González, de trazê-lo de volta para casa.
Elián perdeu a mãe em um naufrágio e foi resgatado por pescadores em novembro de 1999. alguns de seus familiares em Miami, Meca do exílio cubano nos Estados Unidos, tentaram obter a custódia definitiva do garoto, hoje com 13 anos vivendo com seu pai na província de Matanzas. Mas, com “os cinco” as coisas foram diferentes. Antonio Gerrero, Gerardo Hernández, Fernando González, Ramón Labañino e René González foram detidos no dia 12 de setembro de 1998 e cumpre duras penas de prisão, de 15 anos de reclusão até prisão perpetua, por vigiarem grupos anticubanos baseados em Miami.
Os cubanos faziam parte de uma rede que se infiltrava em organizações de exilados para evitar ataques terroristas contra Cuba, segundo alega Havana em sua defesa. No julgamento não se pode provar o crime de espionagem, mas o de agente “não registrado” junto ao governo dos Estados Unidos, dizia a apelação. “Libertá-los e trazê-los de volta para casa, como feito com o menino Elián, é para ele (Fidel Castro) quase uma obsessao”, disse um diplomata europeu. (IPS/Envolverde)

