Washington, 15/08/2007 – Ao elogiar uma operação contra a rede terrorista Al Qaeda no Iraque como uma vitória de sua nova estratégia militar, o general norte-americano David Petraeus fez uma interpretação muito favorável de um fato que desafia a lógica da ocupação militar nesse país. É provável que a drástica mudança na província iraquiana de Anbar, onde os sunitas substituíram as forças norte-americanas e as tropas em sua maioria xiitas na tarefa de dar segurança contra a Al Qaeda, seja um tema central no informe que Petraeus, comandante norte-americano das forças multinacionais no Iraque, apresentará no próximo mês. Também se converteu no tema favorito dos que apóiam a guerra, desde o colunista de direita Charles Krauthammer até a dupla de analistas Michael O’Hanlon e Kenneth Pollack.
Mas, a nova situação em Anbar não pode ser atribuída a operações militares nos Estados Unidos ou à presença na província. Após cinco anos sem resultados de operações militares dos Estados Unidos em Anbar, os acordos do exército norte-americano com líderes tribais sunitas nessa província representam um reconhecimento de que essa força dependia dos próprios insurgentes, os quais uma vez considerou inimigos, para reduzir a influência da Al Qaeda nesse território. Os sunitas “podem entender quem é Al Qaeda muito melhor do que nos”, admitiu Petraeus em uma entrevista à ABC News no dia 30 de maio.
O aparente êxito da mudança de estratégia de Petraeus, apesar de depender dos efetivos sunitas para encarregar-se da Al Qaeda, poderia ser usado como argumento contra a continuação da presença militar dos Estados Unidos em Anbar. O reconhecimento de que há uma alternativa muito mais efetiva para as operações militares norte-americanas para reduzir a influência da rede terrorista serviria para atacar o argumento de George W. Bush que se opõe a fixar um calendário para a retirada das tropas, o que depende cada vez mais da ameaça de um abrigo para a Al Qaeda no Iraque.
Isso também seria uma contradição à lógica das tentativas do opositor Partido Democrata por incluir em uma legislação a retirada de tropas que combatem o terrorismo no Iraque, uma referencia à Al Qaeda na província de Anbar. Em várias entrevistas de imprensa feitas nos últimos meses, Petraeus descreveu os novos acordos de segurança como o resultado de uma mudança na idéia que se tinha dos líderes tribais sunitas. Em entrevista, dia 8 de junho, na rede de notícias CNN, o militar disse que em poucos meses “as tribos que faziam vista grossa para a atuação da Al Qaeda nessa província agora se opõem muito vigorosamente” a essa rede.
Mas, o pano de fundo dos acordos em Anbar indica que foi o governo Bush que se viu forçado a ajustar sua política. Várias importantes organizações armadas sunitas, na maioria árabes nacionalistas, começaram a lutar contra a Al Qaeda, uma rede dominada por estrangeiros no Iraque já em 2005. No começo de 2006 os sunitas estavam em guerra com a Al Qaeda em boa parte da província de Anbar. Os líderes de organizações armadas sunitas contrários a essa rede fizeram reiteradas propostas de cooperação aos Estados Unidos contra a rede islâmica, bem como contra milícias xiitas.
Em dezembro de 2005, um representantes dos rebeldes sunitas em Anbar pediu ao máximo comandante norte-americano no Iraque, general George Casey, que os ex-soldados iraquianos da área substituíssem as forças dos Estados Unidos para dar segurança à cidade de Ramadi, segundo informou o jornal Sunday Times, de Londres. Mas Casey negou-se, alegando que isso permitiria aos rebeldes sunitas se apoderar da cidade. O londrino The Times informou em setembro de 2006 que os líderes sunitas em Anbar se queixavam de que as operações militares norte-americanas fortaleciam a Al Qaeda ao desarmar suas forças. A razão pela qual os militares dos Estados Unidos se negaram a permitir que os sunitas controlassem a segurança em suas próprias províncias é que antes soldados e policiais sunitas haviam colaborado com os insurgentes dessa facção. Em abril de 2004, quando rebeldes sunitas continuaram a ofensiva, a quantidade de efetivos do Corpo da Defesa civil nas três províncias sunitas caiu 82%, de 5.600 para cerca de mil, segundo o Escritório de Auditoria Geral dos Estados Unidos, porque unidades inteiras se passaram para o lado dos rebeldes. Assim, foram Petraeus e o comando dos Estados Unidos, não a direção sunita, os que mudaram de estratégia.
Sob os acordos negociados com líderes tribais, deu-se às forças sunitas uma autoridade de fato sobre a segurança local, sem nenhum status oficial. Os mesmos acordos agora foram estendidos a outras províncias sunitas e bairros sunitas de Bagdá. O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, negou no domingo que Washington forneça armas às milícias sunitas, mas confirmou que dá treinamento e apoio financeiro. Funcionários norte-americanos disseram que os recrutas sunitas para estas milícias são cuidadosamente investigados e devem assinar uma declaração se comprometendo a apoiar o governo.
Mas um informe publicado no dia 27 de julho no The Washington Post revelou como funciona realmente o processo de investigação de sunitas em Bagdá. O comandante dos Estados Unidos no distrito de Rasheed, na capital, Ricky D. Gibbs, se reuniu com “meia dúzia de influentes líderes sunitas” para discutir a formação de “grupos de proteção de bairros”, segundo a notícia, e recebeu uma lista de 250 nomes de moradores sunitas dispostos a servir na força. Rick Lynch, comandante da Terceira Divisão de Infantaria, garantiu aos jornalistas em junho que não seria dado apoio a nenhum grupo sunita que tenha atacado as forças norte-americanas.
Mas o comandante norte-americano tem muito pouca informação sobre os rebeldes sunitas para saber se as guerrilhas entraram no programa. Rebeldes sunitas que continuam dispostos a expulsar as forças de ocupação participam das milícias patrocinadas pelos Estados Unidos. Leila Fadel, da rede de jornais McClatchy, informou no dia 7 de junho que membros do antinorte-americano Exército Islâmico do Iraque colaboram com soldados dos Estados Unidos no bairro sunita de Amriyah, em Bagdá, para expulsar a Al Qaeda. Os rebeldes sunitas não reconhecem sua afiliação às forças norte-americanas, que recorreram a eles porque, como explicou o comandante, encontrar os atacantes da Al Qaeda era “como lutar contra fantasmas”.
Mas Amariyah Abu Bilal, líder da célula do Exército Islâmico, disse a Fadel que continua comprometido em expulsar as forças de ocupação uma vez que a rede de Osama bin Laden tenha sido derrotada. Fadel e Nancy A. Youssef informaram no dia 17 de junho que alguns oficiais do exército vêem a nova estratégia como um revés perigoso da anterior política norte-americana de se negar a permitir que aqueles que têm vínculos com os rebeldes consigam acesso a órgãos da segurança local. Os que se opõem ao programa alegam, segundo Youssef e Fadel, que apoiar as milicias sunitas “fortalece a idéia de que as forças iraquianas treinadas pelos Estados Unidos não podem controlar seu país”.
As jornalistas de McClatchy entrevistaram seis oficiais norte-americanos que cumpriram funções no Iraque. Todos “balançaram a cabeça quando eram perguntados sobre a idéia de armar os sunitas” e expressaram desconfiança nessa comunidade, que combateram há questão de meses. Em dezembro passado, o governo Bush se mostrou aterrado diante da idéia de que a Arábia Saudita realmente forneceriam dinheiro a armas às milícias sunitas no Iraque caso os Estados Unidos se retirassem deixando os xiitas no poder, como advertiu o rei saudita Abdullah ao vice-presidente norte-americano, Dick Cheney, durante uma visita a Riad.
* Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. “Perigo de domínio: Desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã”, seu último livro, foi publicado em junho de 2005.

