Iraque: Governo em xeque por laços com o Irã

Bagdá, 14/08/2007 – Os crescentes laços do primeiro-ministro iraquiano Nouri Al-Maliki com o Irã racharam seu governo, que tem o apoio dos Estados Unidos. Vários grupos sunitas e xiitas abandonaram a administração, seguindo os passos do bloco al-Tawafuq (Frente do Acordo Iraquiano, sunita). Maliki, porém, se recusa a fazer as concessões necessárias para recompor seu governo de “unidade”. Iyad Jamaliddin, porta-voz da Lista Nacional Iraquiana liderada pelo ex-primeiro-ministro interino Iyad Allawi, informou que os ministros desse setor boicotarão as reuniões de gabinete. Representantes de forças xiitas e sunitas fariam o mesmo, disse. “Informaremos ao presidente e ao primeiro-ministro dos fatos e das necessidades essenciais dos iraquianos quando for necessário”, disse Jamaliddin à IPS.

Isto significa que o bloco sunita em seu conjunto se nega a tratar com Maliki. Na Assembléia Nacional legislativa de 275 membros, o grupo de al-Tawafuq tem 44 cadeiras e os seguidores de Allawi 25. Embora não se encontrem em condições de desestabilizar a majoritária xiita Aliança Unida Iraquiana, que conta com 128 legisladores e governa com apoio de grupos menores, a decisão vai minar a legitimidade da administração, que deve favorecer frente à estendida percepção de que aplica políticas sectárias para favorecer a população seguidora do ramo xiita da fé muçulmana.

Maliki está sob crescente pressão e é acusado de adotar medidas que respondem aos desejos do governo xiita do Irã. Depois de sua visita a Teerã, na semana passada, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, o advertiu severamente de que não se aproximasse muito dos iranianos. Bush disse que a mensagem dessa visita é a de que o Irã “pode ter um papel construtivo, e por isso terei de manter uma conversação muito franca com meu amigo, o primeiro-ministro, porque não creio que eles tenham algo construtivo. Minha mensagem para ele é: se o surpreendermos em uma atitude que não seja construtiva, terá de pagar um preço por isso”, afirmou Bush.

Em sua visita a Teerã, no último dia 8, Maliki agradeceu ao Irã por sua colaboração “positiva e construtiva” para “dar segurança e combater o terrorismo no Iraque”. Teerã lhe ofereceu total apoio para restaurar a segurança, mas disse que a retirada das tropas norte-americanas é a única forma de por fim à violência. Maliki continua perdendo apoio no Iraque. Inclusive integrantes curdos de seu governo começaram a questionar sua debilitada liderança. Mahmood Othman, membro curdo da Assembléia Nacional, disse que “a situação é muito delicada para deixá-la como está” e reclamou mudanças. “Não representa a totalidade do bloco curdo, mas como um legislador que representa a si mesmo e aqueles que votaram nele, digo que este governo enfrenta muitos problemas com todos, incluídos os curdos”, afirmou Othman à IPS.

Os setores políticos que representam a maioria xiita da população iraquiana adquiriram considerável poder nas eleições realizadas desde que os Estados Unidos invadiram e ocuparam este país, em março de 2003, deslocando a minoria sunita, que havia dominado os cargos públicos durante o regime de Saddam Hussein (1979-2003). Mas, o governo de Maliki, que surgiu de acordos entre só grupos que dizem representar os três principais setores étnicos e religiosos do país, os muçulmanos xiitas e sunitas e a minoria curda, é desacreditado por vozes de todos os setores. Maliki visitou Teerã no aniversário do dia em que Saddam declarou a vitória na guerra contra o Irã (1980-1988).

“Se a visita foi programada para coincidir com essa data, estaremos frente a um tremendo erro de Maliki”, disse à IPS Nadim al-Jaburi, secretário-geral do partido xiita al-Fadhila, que integrou a coalizão de governo até março passado. “Estou certo de que os iranianos não teriam visitado o Iraque nessa data. Se foi uma coincidência, então mostra que a pouca consideração que Maliki tem para com nosso país”, acrescentou. “Maliki é iraniano e foi a Teerã para mostrar sua solidariedade com sua própria gente. Não tem auto estima nem consideração pela história de seu país, que esteve em guerra com o Irã”, disse à IPS um advogado de Bagdá, Majid Hamid.

Maliki é secretário-geral do Partido Dawa e esteve exilado no Irã depois de liderar grupos rebeldes contra Saddam. “Foi uma última tentativa de obter apoio de seus amos no Irã”, disse à IPS Abdul-Hussien Ali, um professor no distrido de Kadhmiya na zona norte de Bagdá, predominantemente xiita. “O Irã matou quase um milhão de iraquianos no conflito e agora nosso chamado primeiro-ministro os apóia no mesmo dia em que perderam a guerra”, acrescentou. Muitos iraquianos se perguntam por que os Estados Unidos continuam apoiando o governo. “Por que este governo fracassado agrada tanto a Bush?”, disse Yassin Jassim, comerciante em Bagdá. “Está acabado, por sua incapacidade de nos oferecer segurança e todas as demais necessidades cotidianas. Isto significa que Bush também fracassou”.

Ali al-Fadhily, correspondente em Bagdá, trabalhou nesta matéria em colaboração com Dahr Jamail, o especialista da IPS em Iraque, que vive nos Estados Unidos e viaja freqüentemente pela região.

Ali al-Fadhily

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *