Estocolmo, 17/08/2007 – Mais de 2,6 bilhões de pessoas, cerca de 42% da população mundial, vivem sem serviços de saneamento, segundo a Organização das Nações Unidas. Nessas áreas “não há banheiros privados nem públicos em parte alguma”, assegurou, por sua vez, a organização não-governamental End Water Poverty (Acabar com a Pobreza Hídrica), com sede em Londres, após realizar uma pesquisa em alguns dos países mais pobres da Ásia, África, América Latina e do Caribe. A ONG, que exige em sua campanha mundial “água e saneamento para todos”, considera que “o esforço internacional nessa área está em uma situação caótica”. Para a organização, “uma falta de vontade política para impulsionar mudanças que beneficiem os mais pobres e vulneráveis do mundo” é o que faz com que saneamento e água continuem tendo pouca prioridade.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância calcula que mais de um bilhão de pessoas no mundo conseguiram acesso a saneamento nos últimos 14 anos. Mas, cerca de 2,6 bilhões, incluindo 980 milhões de crianças, ainda não têm esse acesso. “As crianças são especialmente vulneráveis a doenças causadas pela falta de saneamento adequado”, disse a diretora-executiva do Unicef, Ann Veneman. “A cada ano, o mau saneamento e a má higiene e a água insegura tiram a vida de aproximadamente 1,5 menores de 5 anos”, acrescentou. A metade dos leitos hospitalares do mundo está constantemente ocupada por pacientes que sofrem doenças causadas pela má qualidade da água, segundo a Organização Mundial da Saúde. E na África subsaariana um bebê tem quase 520 vezes mais possibilidade de morrer de diarréia do que um bebê nascido na Europa ou nos Estados Unidos.
Na Semana Mundial da Água, que começou domingo na capital sueca e termina amanhã, Anders Berntell, dirtetor-executivo do Instituto Internacional da Água, de Estocolmo, citou estatísticas da OMS segundo as quais em 38 de 46 países africanos analisados morrem mais crianças menores de 5 anos por diarréia do que de aids. “O HIV/aids atrai muito mais a atenção internacional do que a diarréia, causada por saneamento inadequado e falta de higiene”, acrescentou. “Ainda não conseguimos fazer com que essa mensagem seja entendida. Precisamos analisar criticamente como conseguiremos fazer com que estes fatos comprovados sejam aceitos”, afirmou Berntell.
Em uma publicação intitulada “Década da água para a vida 2005-2015”, a ONU, que se prepara para lançar em novembro o Ano Mundial do Saneamento, corroborou fatos e estatísticas desanimadoras. “A falta de água segura e de saneamento adequado é a maior causa de doenças no mundo. Pode propagar diarréia, cólera, disenteria, febre tifóide, hepatite, pólio, tracoma e solitária, muitas das quais podem ser fatais para pessoas do mundo em desenvolvimento”, diz o informe. Outras enfermidades associadas com a água, como malária e filariose, afetam vastas populações em todo o mundo. Somente a malária mata mais de um milhão de pessoas a cada ano.
A ONU alertou que o aumento da urbanização também origina uma enorme tensão sobre a infra-estrutura da água e do saneamento existentes. “Os centros urbanos de países em desenvolvimento cresceram rapidamente sem um adequado planejamento de infra-estrutura, por isso um milhão de imigrantes têm escasso acesso a saneamento ou fornecimentos hídricos seguros. Isto coloca em risco toda a população e causa sérios danos ambientais”, segundo as Nações Unidas. A ONU também pede a participação de mulheres no planejamento e desenho de instalações de água e saneamento, para garantir que seja considerada a perspectiva de gênero nos dois assuntos.
Outras recomendações incluem programas sobre água, saneamento e educação para a higiene em todas as escolas, uma defesa efetiva e sustentada da água, o saneamento e a higiene em todos os níveis, e colocar estas questões entre as prioridades no planejamento da resposta a desastres. Antecipando uma crise, em 2006 a Assembléia Geral da ONU, de 192 membros, decidiu designar 2008 “Ano Internacional do Saneamento”. Coincidindo com este lançamento, a Associação Mundial de Banheiros realizará em Seul uma conferência internacional, entre 21 e 25 de novembro, que se concentrará na escassez global de instalações sanitárias.
“Terríveis 40% da população mundial vivem sem banheiros ou saneamento adequado, o que causa enormes perdas de vidas pela propagação de doenças”, disse à IPS Sim Jae-Duck, membro da Assembléia Nacional Sul-Coreana e presidente do comitê organizador da conferência de Seul. É uma lástima nenhuma organização internacional ter ainda consagrado especificamente o saneamento, afirmou. “Propomos criar uma organização desse tipo”, acrescentou. Sim confia em contar para isso com a colaboração de vários países que participarão da conferência, como Brasil, China, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Japão, Rússia, África do Sul e Turquia.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, acredita que o Ano Internacional do Saneamento trará à luz este assunto, que considera um dos problemas de saúde que recebe menos atenção hoje em dia. “Deixem-nos fazer deste um ano destacado de êxitos no saneamento global, que gere mudanças reais e positivas para os milhões, ou mesmo milhares de milhões, de pessoas que ainda não desfrutam deste ingrediente básico do bem-estar humano”, afirmou Ban em uma reunião preparatória realizada em maio. “O acesso ao saneamento é um assunto fundamental da dignidade humana e dos direitos humanos, e também do desenvolvimento econômico e da proteção ambiental”, acrescentou. No mundo, “cerca de dois em cada cinco seres humanos carecem de acesso a serviços sanitários. Isto é simplesmente inaceitável”, ressaltou. (IPS/Envolverde)

