Washington, 17/08/2007 – Caso qualifique de organização terrorista a Guarda Revolucionária, corpo militar de elite do Irã, o governo dos Estados Unidos poderá desferir um duro golpe aos esforços diplomáticos com Teerã para estabilizar o Iraque. A atitude de Washington coloca em risco o limitado, mas ainda assim significativo, em seu diálogo com Teerã sobre o Iraque. Além disso, pode limitar a margem de manobra do próximo presidente norte-americano para buscar uma via diplomática com Teerã, ao consolidar um paradigma de inimizade entre os dois países.
Os jornais The Washington Post e The New York Times informaram na quarta-feira que o governo do presidente George W. Bush se prepara para incluir a Guarda Revolucionária na Ordem Executiva (decreto) 13.224, assinada duas semanas após os atentados que tiraram as vidas de três mil pessoas em Nova York e Washington em 11 de setembro de 2001. Esse corpo militar, composto por 125 mil homens, será caracterizado como organização “terrorista mundial especialmente designada” por suas supostas atividades de desestabilização no Iraque e em outras zonas do Oriente Médio.
A Ordem Executiva 13.224, destinada a obstruir o financiamento de organizações terroristas, habilita o governo a qualificar dessa maneira indivíduos, empresas, instituições de caridade e grupos políticos e bloquear seus bens. A Guarda Revolucionária iraniana seria o primeiro corpo militar a integrar a lista. Criada pela Revolução Islâmica triunfante no Irã em 1979 como um exército paralelo, para impedir que as forças armadas regulares orquestrassem um golpe de Estado, constitui uma poderosa força política estreitamente ligada às facções mais conservadoras.
A Guarda Revolucionária inseriu-se profundamente na economia iraniana e inclusive em algumas de suas indústrias-chave. Foi com freqüência acusada de atuar como máfia patrocinada pelo Estado, com uma influência corruptora sobre a polícia, as empresas, a mídia, o poder Judicial e o governo. Muitos iranianos consideram que o poder deste corpo paramilitar constitui um grave problema. Alguns ativistas alertam que qualquer mudança súbita no Irã beneficiaria a Guarda e não os grupos pró-democracia, justamente por causa de seu alto grau de organização e equipamento.
A decisão do governo Bush de qualificá-la de organização terrorista internacional foi apresentada como um passo para intensificar a pressão sobre o Irã e isolá-lo financeiramente. Mas não está claro que esta medida seja imprescindível para exercer pressão econômica sobre a Guarda Revolucionária. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos já embarcou em uma extensa campanha para “secar” as fontes de financiamento do Irã. A Guarda Revolucionária ser identificada como uma organização terrorista terá pouco impacto marginal nas ações que já estão se desenvolvendo. A medida tampouco afetará de maneira decisiva os nebulosos negócios desse corpo paramilitar.
Teerã se em contra sob sanções por parte dos Estados Unidos desde meados da década de 90. Embora tenham sido efetivas para impor maiores custos à economia iraniana, estas foram um fracasso quanto a forçar uma mudança na política externa do país. A imposição de mais sanções e uma renovada pressão financeira muito provavelmente terão o mesmo efeito: ficará mais caro ao governo iraniano levar adiante suas políticas, mas não conseguirão detê-las ou modificá-las. O maior impacto da decisão de Washington será no campo político. Pode conspirar contra o incipiente diálogo entre Estados Unidos e Irã em Bagdá que visa a estabilização da situação no Iraque.
Embora as conversações tenham sido consideradas sem precedentes, até o momento não mostraram nenhum avanço concreto, com exceção de que ambas as partes estão conversando pela primeira vez em 28 anos. Não está claro como Washington espera alcançar algum êxito nessas negociações se qualificar de terroristas as mesmas pessoas às quais pede colaboração. Paradoxalmente, alguns dos diplomatas iranianos que participam do diálogo em Bagdá ainda são membros da Guarda Revolucionária. É o caso de Mohammad Jafari, que se sentou na mesma mesa com a secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, na cúpula realizada este ano na cidade egípcia de Sharm El Sheik.
A decisão do governo Bush coloca em perigo esse canal de comunicação, sendo a conseqüência de seu total colapso ou enviado um sinal hostil que poderia convencer Teerã de que Washington não leva a sério a via diplomática. Muitos analistas em Washington se mostram céticos sobre as intenções do governo nessas negociações. Legisladores do governante Partido Republicano que apóiam as políticas do Poder Executivo apontam o diálogo em Bagdá como evidência de que estão sendo colocadas em prática as recomendações do Grupo de Estudo sobre o Iraque, um painel de ex-funcionários e especialistas criado pelo Congresso que desenhou um plano de ação.
Por outro lado, pediram aos legisladores do opositor Partido Democrata que apoiassem a escalada militar no Iraque adotada por Bush há alguns meses. Embora as negociações em Bagdá não tenham produzido nenhum resultado tangível, elas têm para o governo a vantagem de dar-lhe cobertura política no Congresso. As conseqüências de longo prazo de catalogar a Guarda Revolucionária como organização terrorista são mais significativas. É mais fácil incluir alguém nesta lista do que retirar. Futuros presidentes dos Estados Unidos enfrentarão problemas para resolver as disputas com o Irã ou para modificar a conduta de Teerã.
Um futuro presidente terá limites legais para tratar com pessoas associadas a uma organização qualificada de terrorista, sem mencionar que o passo do governo Bush cimentará ainda mais o paradigma de inimizade nas relações bilaterais. Esta decisão reforçará a atual linha de argumentação dominante de que a estabilidade no Oriente Médio só poderá ser alcançada através da contensão e derrota do Irã. Considera-se que os dois países embarcaram em um jogo de resultado zero, no qual o compromisso e o diálogo equivalem à capitulação.
A diplomacia não é vista como ferramenta para conseguir uma solução que beneficie ambos, mas sim como outra variante do enfrentamento. Não é surpresa que esta linha de pensamento seja comum entre os extremistas de Teerã, que no passado não pouparam esforços para sabotar os avanços diplomáticos em direção a Washington. Se esta visão não for neutralizada, o paradigma de inimizade entre Estados Unidos e Irã se muito provavelmente se converterá em uma profecia auto-cumprida. (IPS/Envolverde)
(*) Trita Parsi é autor de “Treacherous Triangle – The Secret Dealings of Iran, Israel and the Unitede States” (Triangulo traiçoeiro – As relações secretas de Irã, Israel e Estados Unidos”, Yale University Press, 2007). Também é presidente do Conselho Nacional Iraniano Norte-americano.

