Palestina: Tratores israelenses abrem caminho para o muro

Palestina, 17/08/2007 – Forças israelenses começaram a derrubar centenas de árvores em terras que pertencem a um convento católico nas proximidades da cidade de Beit Jala, próxima de Belém, na Cisjordânia. Segundo os planos de Israel, essa parte do bosque será arrasada para dar continuidade à construção do muro de separação que está construindo na Cisjordânia para isolar os palestinos dos colonos judeus. Perto do convento, os assentamentos israelenses de Gilo e Har Gilo continuam se expandindo por trás da muralha sobre as rochosas ladeiras das colinas, em terras palestinas. Quando esta seção do muro estiver pronta, várias vilas ficarão isoladas entre si e da área da Grande Belém. Atualmente, não se trata de um acontecimento isolado aqui na Cisjordânia.

Há poucos quilômetros a leste do convento de Cremisan e da cidade de Belém, a pequena vila palestina de Wadi Rahaal enfrenta a extinção como conseqüência da expansão da política de assentamentos israelenses e do avanço do muro. “Agora estamos cercados pelo assentamento de Efrat”, disse à IPS Suha Ziyada, de 22 anos, uma das 750 pessoas que habitam Wadi Rahaal. “Eles começaram a construí ro muro há vários meses e a colônia está crescendo dia após dia”, acrescentou. Efrat, parte do assentamento de Gush Etzion, abriga atualmente cerca de nove mil colonos, entre os quais há israelenses e imigrantes judeus do Canadá, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Rússia e África do Sul.

O site da colônia informa que “uma cidade-jardim floresceu nas colinas da Judéia”. Mas é possível ver que grandes áreas de bosque e zonas virgens foram destruídas no ritmo do crescimento do assentamento, enquanto estradas de uso exclusivo dos colonos cortam as ladeiras das colinas ao meio. “Isto alguma vez foi um belo bosque, onde fazíamos piquenique”, lembrou Zivada, enquanto apontava para uma colina perto de sua casa. “Mas agora, tudo foi cortado. O pico da colina desapareceu. Costumava haver vida selvagem ali, diferentes animais que viviam na floresta. Mas tudo acabou”, acrescentou a jovem.

“Não nos permitem mais construir casas na vila. Os militares israelenses proíbem aumentar as casas e construir na terra. Há alguns meses, o exército destruiu três casas no limite da aldeia por queixas de um colono, que disse que não queria ver casas árabes desde sua janela. Então, vieram os militares e demoliram as casas”, contou Zivada. Os colonos – acrescentou – praticam várias formas de castigos coletivos para expulsar os palestinos de suas terras. “A água vem dos assentamentos. Eles a controlam. No mês passado não tivemos água corrente por três semanas. A cortaram alegando que havia um problema nos encanamentos, embora soubéssemos que isso era mentira”, disse a jovem.

No ano passado, o exército de Israel bloqueou todas as estradas que permitiam entrar ou sair de Wadi Rahaal, menos uma. Na que permaneceu aberta os militares instalaram uma barreira metálica que todas as tardes servia para transformar os habitantes em prisioneiros. Os soldados “colocavam cadeado” na barreira de maneira arbitrária, não havia um horário determinado. Muitos moradores se viram impossibilitados de entrar ou sair de sua aldeia em horários regulares. “Os colonos vêm a Wadi Rahaal, dão voltas para intimidar e atemorizar os habitantes. Nos jogam pedras na cabeça e estão armados. Os helicópteros israelenses sobrevoam a aldeia numa altitude bastante baixa. Há postos de controle em toda a vila”, disse Ziyada.

Há duas semanas nasceu Mayar, filha de Ziyada. “Morria de medo de pensar que fosse nascer durante o bloqueio. Quando entrei em trabalho de parto a barreira estava fechada e com cadeado. Procuramos outro caminho, mas foi impossível. Então, minha mãe foi discutir com os soldados no assentamento. Não temos hospital nem sala de primeiros socorros na aldeia. Contamos apenas com o hospital de Belém”, contou. Depois de esperar durante horas, um soldado abriu a barreira, o que lhe permitiu, finalmente, ir ao hospital.

A ansiedade enquanto esperava que alguém desbloqueasse o caminho foi pior do que a dor do parto, disse a jovem palestina. “É um sentimento que te destrói, não estar em condições de controlar sua vida ou dar à luz em condições seguras. Esta é a situação de todas as mulheres palestinas aqui. Todas as grávidas temem pelo que possa ocorrer quando chegar o momento”, disse Ziyada. O Ministério do Interior de Israel divulgou um informe indicando que o crescimento no número de colonos duplica o da população civil que vive dentro dos limites originais do Estado, tal como foram fixados ao ser criado em 1948.

Atualmente há 275.156 colonos habitando assentamentos ilegais na Cisjordânia, com aumento de 5,45% em relação aos 260.932 registrados no censo do ano passado. A colonização da Cisjordânia é uma violação direta da lei internacional. O artigo 49 da Quarta Convenção de Genebra estabelece que “a potência ocupante não deportará ou transferirá parte de sua própria população civil aos territórios que ocupa”. Mustafa Barghouti considera que Israel não tem a menor intenção de abandonar os territórios palestinos. Ele é líder da Iniciativa Nacional Palestina (PNI) uma agrupação que se diferencia do Fatah, secular e moderado, e do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas).

Em um comentário que enviou à IPS via correio eletrônico, Barghouti disse que Israel segue adiante com seus projetos de expansão na Cisjordânia, algo que “nega qualquer possibilidade de contar com um Estado palestino com continuidade territorial. Esta política confirma a posição do PNI a respeito de Israel não pretender terminar com a ocupação ou respeitar a lei internacional. O governo de Telavive se mantém mais apegado ao seu objetivo de continuar as expropriações ilegais de terras palestinas”, acrescentou.

Ziyada teme pelo futuro de sua filha. “Ser mãe é algo maravilhoso, mas nesta situação os sonhos tendem a desaparecer. Todos querem ter um filho, dar-lhe a melhor vida possível, mas eu não sou livre de levar meu bebê a um hospital quando estiver doente. Simplesmente penso. O que acontecerá se adoecer à noite, quando já colocaram cadeado na porta? O que vou fazer?”. (IPS/Envolverde)

Nora Barrows-Friedman

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