Dili, 17/08/2007 – O professor Filipe de Carvalhos, de 35 anos, mantém um estado de silenciosa atenção na aula, em uma escola secundária perto da capital de Timor Leste. Carvalhos é muito tímido, mas garante que o treinamento para tratamento do trauma psicológico pós-conflito que recebeu o ajudou a ganhar confiança em si mesmo e a se relacionar melhor com seus alunos. “Sou uma pessoa nervosa, mas graças a este treinamento já aceito que alguns de meus alunos me contem suas preocupações”, disse.
Carvalhos é professor de educação física em uma escola secundária do distrito de Manatuto, a leste da capital. Também é um dos escolhidos desse centro de estudos para participar de um curso de terapia pós-traumática da organização não-governamental Timor Aid, que proporciona alívio e assistência para a reconstrução e o desenvolvimento de Timor Leste, pequeno país entre Indonésia e Austrália que passou por grandes conflitos. O treinamento oferecido por esta ONG permite ajudar os timorenses a enfrentar os traumas psicológicos que a população sofreu em razão dos enfrentamentos de 1999 contra o exercido indonésio e da guerra civil que se insinuou no ano passado.
Em 1999, os timorenses decidiram em referendo, por maioria esmagadora, ficar independente da Indonésia, que invadira o país em 1975. Mas a consulta popular, patrocinada pela Organização das Nações Unidas, foi sucedida por uma onda de violência. O exército da Indonésia e as milícias civis pró-indonesias deixaram um espesso rastro de sangue em sua retirada. Calcula-se que cerca de 1.500 pessoas perderam a vida e que 70% da infra-estrutura do país ficou destruída. A dor e o terror continuam vivos nas mentes dos timorenses. No ano passado, Timor Leste esteve à beira da guerra civil.
Os 24 anos de resistência à ocupação Indonésia – ocorrida no dia seguinte após a metrópole colônia, Portugal, abandonar o território em 1975 – representou uma divisão das milícias por zonas geográficas, entre os ocidentais “loromonu” e os orientais “lorosae”. Os lorosae acusam os loromonu de falta de compromisso durante a guerra de resistência. Os choques, em razão de divergências dentro das forças de segurança, foram mal manejados pelo governo e derivaram em desordens civis e políticas. Cerca de 130 pessoas morreram desde então e outras 150 mil foram obrigadas a abandonar suas casas.
Carvalhos é um dos quase 60 representantes de oito dos 13 distritos do país que participam dos painéis para tratar traumas psicológicos. Além de educadores, o grupo inclui policiais, bombeiros, freiras e parteiras. Dilly Barek Daten, de 25 anos, coordenadora dos cursos para tratamento do trauma de Timor Aid, assegurou que o projeto gradualmente ganhou a confiança das pessoas desde seu início, em 1999. Mas a falta de fundos limita seu potencial para beneficiar os cidadãos, ressaltou.
“Quando propusemos pela primeira vez esta aula de treinamento, nos diziam que a cura do trauma não era sua prioridade, que precisava de casa e comida. Mas pouco a pouco os voluntários treinados começaram a sentir os benefícios deste projeto”, contou Daten. “Muitos deles dizem que podem controlar melhor suas emoções e estão dispostos a ajudar outros que enfrentam dificuldades semelhantes. Hoje os candidatos passam por um processo de seleção porque temos muita demanda e o orçamento é muito pequeno”, afirmou.
Entre os patrocinadores do projeto figuram a Comissão Européia, ramo executivo da União Européia, e a Agência Austríaca de Desenvolvimento. Nos últimos sete anos foram capacitados 48 voluntários. Daten explicou que o projeto de tratamento do trauma pretende abrir uma “via de duas mãos”, pela qual os voluntários treinados se convertem em treinadores para difundir esses conhecimentos em seus distritos, criando uma reação em cadeia. “Isto levará algum tempo. Acreditamos que os resultados deste projeto sejam evidentes no bem-estar da população a longo prazo”, disse a voluntária.
Joan Condon, nascida na Califórnia e treinadora da organização Capacitar International, ajuda a implementar os cursos em Timor Leste. A metodologia da entidade, que permite às vítimas falar sobre as situações que sofreram para as vincular com os sintomas a fim de superá-las, “é usada em todo o mundo para enfrentar traumas mentais e físicos em situações pós-conflito”, disse Condon. “Nos últimos anos, Capacitar ajudou comunidades afetadas pela violência nos quatro continentes, em países como Ruanda, Venezuela, Haiti ou Bolívia. Demonstrou sua eficiência em uma variedade de situações e contextos”, acrescentou Condon, que passou os últimos oito anos trabalhando com diferentes comunidades da América Central.
Carolina dos Santos, uma policial de 35 anos do distrito de Liquiça, garante que o treinamento dá resultado. “Aprendi muito aqui, e agora procuro usar o que sei para ajudar outras pessoas. Como oficial de polícia, costumo lidar com vítimas de traumas, como mulheres que sofrem abuso sexual ou crianças que viram coisas horrorosas durante os acontecimentos de 1999 e 2006. Este treinamento me ajuda a lidar melhor com elas”, afirmou. (IPS/Envolverde)

