Atenas, 31/08/2007 – A Grécia deverá pagar um enorme custo após sofrer um inferno durante uma semana. Alguns incêndios ainda estão fora de controle. A área afetada pelo desastre se estende desde a prefeitura de Evia, 90 quilômetros ao norte de Atenas, até os arredores da capital grega e através da zona central e sudoeste do Peloponeso, a península do sul da Grécia continental. Segundo o Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais, 185 mil hectares de florestas e campos de cultivo foram destruídos nos primeiros três dias de fogo, que começou no dia 24 passado.
Os moradores afetados fizeram todo tipo de esforços para combater as chamas, mas o Estado fracassou em sua tarefa de protegê-los. Os canais de televisão transmitiram ao vivo pedidos de ajuda de habitantes de remotas áreas montanhosas. Os mortos confirmados chegam a 64, mas estima-se que o número aumentará quando os bombeiros conseguirem chegar às aldeias isoladas. As províncias mais castigadas foram Arcádia, Ileia, Lacônia e Messinia, que somam 13.864 quilômetros quadrados e 580.500 habitantes. Dezesseis das 18 aldeias da municipalidade de Zaharo, no sudoeste de Ilesa, a 335 quilômetros de Atenas, foram apagadas do mapa.
Sessenta e nove comunidades do Peloponeso foram evacuadas. O fogo chegou, inclusive, ao lugar onde se erguia a antiga Olímpia, nos arredores da capital de Ilesa, Pirgos, e causou danos consideráveis. Os primeiros cálculos dos prejuízos são desanimadoras. As perdas em gado e terras chegam a US$ 2 bilhões, embora se estime que o custo total chegará a US$ 5,4 bilhões. O crescimento do produto interno bruto cairá entre 0,2% e 0,5% nos próximos dois a quatro anos. O custo das primeiras medidas de ajuda de emergência superará os US$ 410 milhões. Mas a impressão generalizada é que a quantificação dos danos não basta para descrever a magnitude do desastre.
“Ninguém está em condições de calcular as perdas indiretas”, disse à IPS Maria Roysomoystakaki, presidente do Comitê para a Proteção do Meio Ambiente e professora na Universidade de Atenas. “Muitas vidas serão perdidas nos próximos 10 ou 20 anos por causa da degradação ambiental. A qualidade do oxigênio que respiramos cairá rapidamente. A fertilidade da terra sofrerá imensamente. Sua falta de capacidade para conservar a umidade e absorver água de chuva provocará erosão e perdas de solo nestas regiões”, acrescentou. Para enfrentar o desafio da recuperação ambiental temos de, “primeiramente, adquirir a cultura necessária, cuja falta nos levou ao ponto em que nos encontramos agora”, afirmou a professora.
O público grego começou há pouco a considerar o impacto dos problemas ambientais na qualidade de vida. A conscientização se precipitou da pior maneira possível. “Imaginem o impacto nas comunidades locais”, disse Roysomoyastakaki. “As oliveiras e a vegetação destruída não poderão oferecer nada nos próximos 10 anos. Temos sorte de o Peloponeso não se abastecer de água de lagos, pois a contaminação seria ainda maior”, acrescentou. Além do desastre ambiental, o país deverá enfrentar o colapso de suas estruturas sociais. Com milhares de pessoas sem ter onde morar, que dependem do Estado para obter comida e abrigo provisório, o desespero dessa gente irá aumentar nos próximos meses.
“Assistiremos a um considerável movimento de população rumo aos grandes centros urbanos, já sobrecarregados”, disse à IPS a diretora de Pesquisas do Centro Nacional de Estudos Sociais, Maratou Lara. Este fluxo não será “apenas de gregos, mas de trabalhadores imigrantes que haviam encontrado emprego nas áreas do desastre. As pessoas venderão suas propriedades a preço vil para poder enfrentar suas hipotecas e obrigações creditícias”, acrescentou. Também é evidente que a catástrofe vai alterar as atividades econômicas tradicionais.
“Escassearão produtos de exportação como azeite de oliva e derivados do tomate, que eram produzidos em grande escala no Peloponeso”, advertiu pesquisadora. “Teremos de começar a importar o que comumente vendíamos ao exterior, e isso implicará uma carga maior para a já problemática balança comercial”, afirmou Lora. “A indústria turística, uma das ferramentas para estimular o desenvolvimento nestas áreas, também sofrerá. A sociedade grega, que sempre foi sensível com as dificuldades de outros, agora deverá por à prova sua coesão”, acrescentou.
A raiva e a frustração são generalizadas na população pela falta de apoio do Estado. A oposição descreveu a resposta do governo como “totalmente incompetente”. O primeiro-ministro, Kostas Karamanlis, sob considerável pressão política e a três semanas de eleições legislativas antecipadas, declarou o estado de emergência no último dia 25 e suspendeu as atividades proselitistas de seu partido, o Nova Democracia. Os comentários sobre o suposto caráter intencional dos incêndios florestais, ou mesmo os que atribuem o fogo a possíveis ações terroristas, são vistos pela imprensa e pela população como uma manobra para fugir às responsabilidades. Provocar incêndios é uma maneira bem conhecida para evitar as leis gregas sobre proteção de áreas como as florestas.
O governo insiste em pintar um cenário de “complô de incendiários”. As autoridades encomendaram à unidade antiterrorista, ao exército e ao serviço secreto a investigação das causas do desastre, mas até o momento não surgiu evidência alguma que sustente tais suposições. O governo anunciou uma recompensa de US$ 1,37 milhão para quem ajudar a identificar os incendiários e começou um debate para saber se o fogo intencional pode ser considerado ato de terrorismo. “Me indigna que continuem colando nas paredes cartazes de campanha eleitoral ou que os candidatos procurem capitalizar esta tragédia”, disse à IPS a jornalista cultural Olga Sella. “A atitude do governo impacta a escala de valores políticos desta sociedade. Estou muito preocupada pelo que virá”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

