Washington, 31/08/2007 – O típico presidente de uma empresa norte-americana de ponta ganha mais em um único dia do que o trabalhador médio deste país leva para casa em um ano inteiro, afirmaram dois importantes centros de estudos independentes. Os altos cargos das empresas não só recebem rendimentos totais equivalentes a cerca de 364 vezes os do trabalhador médio. Seus ganhos também superam, e de longe, os dos altos funcionários governamentais, executivos de organizações sem fins lucrativos e inclusive os de seus colegas europeus, revela o estudo.
Estas constatações são expostas enquanto se mostram cada vez mais ácidas as críticas de políticos norte-americanos e europeus aos elevados ganhos dos presidentes das companhias. Esta questão serviu durante anos para exemplificar as dificuldades de uma economia que gerou um impressionante crescimento mas não conseguiu melhorar a sorte da maior parte da população. O estudo (Executive Excess 2007) foi divulgado na quarta-feira pelo Instituto para Estudos Políticos e Unidos por uma Economia Justa, coincidindo com a celebração do Dia do Trabalho nos Estados Unidos.
Este informe mostra que os presidentes das 500 maiores empresas dos Estados Unidos ganharam no total, em média, US$ 10,8 milhões em 2006, enquanto os presidentes das 20 maiores receberam US$ 36,4 milhões. Em contraste, o trabalhador médio norte-americano ganha US$ 29.544. Os US$ 36,4 milhões ganhos pelos 20 principais executivos do país também excede em muito a renda média dos 20 executivos europeus melhor remunerados (US$ 12,5 milhões), líderes de organizações norte-americanas sem fins lucrativos (US$ 965.698), membros do Poder Executivo dos Estados Unidos (US$ 198.369) e generais do exército (US$ 178.542).
Sarah Anderson, do Instituto para Estudos Políticos, principal autora do informe, disse que a enorme distância entre os altos postos do setor público e do setor privado cria sérios problemas ao país. Os salários mais baixos constituem “um sério desânimo na hora de assumir postos no governo e em organizações sem fins lucrativos, e portanto deixa a sociedade civil vazia de talento para a liderança”, afirmou Sarah à IPS. “Além disso, isso representa uma porta giratória entre o governo e o setor privado”, já que freqüentemente os políticos optam por trabalhos mais lucrativos, acrescentou.
Mas ser o presidente de uma grande companhia não é o trabalho mais lucrativo nos Estados Unidos, segundo o estudo. Essa honra fica por conta dos gerentes das principais instituições de investimento alternativo do país, exclusivos de grupos de investimento que operam em um contexto pouco regulamentado. A renda média dos 20 executivos melhor remunerados dessas instituições e das de capitais de risco foi de US$ 655,5 milhões no ano passado, de acordo com a pesquisa. Quatro desses hierarcas ganharam cerca de US$ 1 bilhão somente em 2006.
Embora mudanças recentes nas regras para declarar a renda tornem difícil a comparação de maneira precisa da brecha salarial deste ano entre presidentes de empresas e trabalhadores com a de anos anteriores, Sarah Anderson disse que as tendências não mudaram de maneira significativa. “De fato, não vimos nenhuma queda real nos ganhos dos executivos. Inclusive companhias que caminham para uma crise continuam pagando somas enormes”, afirmou. A brecha de 364 contra um deste ano supõe um grande aumento em relação a décadas anteriores: na de 90 a proporção era de 107 para um, e na de 80 de apenas 40 para um, segundo o estudo.
Estas conclusões são conhecidas no contexto de um debate maior sobre a crescente desigualdade de renda nos Estados Unidos. Defensores das políticas econômicas do governo de George W. Bush indicam robustos níveis de crescimento nos últimos anos, enquanto os críticos afirmam que a maioria dos ganhos, se não todos, foram para o bolso dos cidadãos mais ricos. Uma pesquisa dos economistas Emmanuel Saez e Thomas Piketty publicada este ano mostra que os norte-americanos mais ricos aumentaram sua cota nas rendas em nível nacional a níveis nunca vistos desde a década de 20.
Agora, os 10% que ganham menos representam 48,5% da renda, enquanto 1% fica com 21,8% da renda. E embora a renda total reportada nos Estados Unidos tenha aumentado quase 9% em 2005, Saez e Piketty indicaram que a renda de 90% da população que ganha menos, na verdade, diminuíram levemente nesse ano. A brecha salarial entre executivos e trabalhadores se converteu em uma potente representação desta crescente desigualdade. Diversos políticos dos Estados Unidos se aferraram ao assunto na campanha rumo às eleições presidenciais do próximo ano.
Os senadores Hillary Clinton e Barack Obama e o ex-senador John Edwards, os três principais candidatos para as eleições internas do opositor Partido Democrata, exigiram maior consciência no pagamento dos presidentes das empresas. Obama patrocina no Senado um projeto de lei que permite às assembléias de acionistas das companhias tomarem decisões – embora de caráter não obrigatório – sobre o salário dos altos executivos. A iniciativa já foi aprovada na Câmara de Representantes. O presidente Bush expressou sua oposição ao projeto e poderá vetá-lo se for aprovado pelos senadores.
Outros democratas também propuseram projetos a esse respeito. Um apresentado pela representante democrata Barbara Lee procura limitar a proporção dos salários de executivos que as empresas possam considerar dedutíveis de impostos. Outro, apresentado por Sander Levin, gravaria os ganhos dos executivos de instituições de investimento alternativo em relação aos salários (atualmente de 35%), mais do que suas rendas a título de posse de ações dessas companhias (15%).
O debate sobre salários dos presidentes de companhias não se limita aos Estados Unidos, pois os políticos europeus também se concentram nesse assunto. Mas como documenta o informe do Instituto para Estudos Políticos e Unidos por uma Economia Justa, a renda dos executivos europeus é relativamente pequeno em comparação com a de seus pares norte-americanos. Inclusive, o conservador presidente francês, Nicolas Sarkozy, se comprometeu a aprovar uma lei que limite os pacotes de indenização no caso de demissão de altos executivos. “É fascinante que repentinamente tenhamos este debate sem precedentes sobre o salário dos executivos, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Pode ser um sinal de que nossos líderes políticos finalmente estão se colocando em dia com o debate no qual o público está imerso há muito tempo”, disse Sarah Anderson. (IPS/Envolverde)

