México, 31/08/2007 – O governo da capital mexicana anunciou nesta quinta-feira medidas para limitar e reordenar a caótica e maciça circulação de veículos na cidade, que contamina e enferma seus habitantes e, de acordo com especialistas, ameaça provocar um colapso viário antes de 2010. As medidas incluem renovação quase total dos velhos ônibus e táxis, ampliação para os sábados do rodízio de automóveis particulares denominado “Hoje não circula”, obrigatoriedade do transporte escolar, áreas exclusivas de pedestres em várias zonas da cidade e reordenamento por horários do tráfego de veículos de carga.
Seguramente haverá opositores, mas estas resoluções, que entrarão em vigor em diferentes prazos até 2009, serão obrigatórias e ninguém poderá “alegar que afetam algum interesse”, afirmou o chefe de governo do distrito de México, o esquerdista Marcelo Ebrard. Outras disposições, incluídas no chamado Plano Verde, visam ampliar os sistemas de transporte público, acrescentar zonas verdes, criar novos parques e obrigar a pagar pelo serviço de água potável sob a ameaça de corte no fornecimento, medida que nunca foi aplicada.
“Se estas medidas não forem adotadas, seriamente, o caos na cidade pode chegar a uma crise e todos lamentaremos”, disse à IPS Oscar Terrazas, pesquisador em urbanismo e sistema viário da Universidade Autônoma Metropolitana (UAM). A capital suporta agora o trafego de quase quatro milhões de veículos e essa frota cresce em mais de 300 mil unidades ao ano, enquanto apenas 30 mil deixam de circular no mesmo período. Em mais dois ou três anos, as vias primárias de circulação chegarão a um ponto em que será mais rápido andar à pé, alerta Terrazas. “O que seria um verdadeiro caos”, acrescenta.
Na capital mexicana e na área urbana que a cerca, onde residem 20 milhões de pessoas, o trânsito está excessivamente lento, pois não chega a mais de 10 km/h em média nas horas de pico. Este fato multiplica a contaminação atmosférica, além de causar doenças e colocar à prova o equilíbrio psicológico dos habitantes da cidade. No Plano Verde indica-se que todos os veículos, incluindo os que têm certificado comprovando que são pouco contaminantes, deverão deixar de circular pelo menos 10 sábados por ano. Essa medida soma-se à que proíbe os automóveis com mais de 10 anos de idade (que são mais de 50% do total) de circularem um dia entre segunda-feira e sexta-feira.
Além disso, indica que pela primeira vez se obrigará o transporte de carga a passar pelo sistema de verificação de emissões contaminantes e que terá limitada sua circulação a determinadas horas. “Cada medida irá sendo avaliada para ver se precisa de algum ajuste, mas creio que estão no caminho certo para combater a contaminação, o caos viário e ampliar o serviço público de transporte, sem o qual a cidade caminharia para o colapso”, afirmou o especialista da UAM. Do total dos contaminantes jogados diariamente na atmosfera da Zona Metropolitana da Cidade do México, 85% são oriundos da combustão dos mais de 44,4 milhões de litros de combustíveis consumidos a cada dia.
Desse total, 25% são provenientes da indústria, 11% das residências, 9% da geração de energia elétrica e 55% do transporte público e privado. Na capital mexicana, cujas autoridades empreenderam ações formais contra a contaminação nos anos 80, morrem anualmente 35 mil pessoas de maneira prematura devido a enfermidades relacionadas com a poluição, afirmam documentos do governo da cidade. A quantidade de veículos na área metropolitana aumentou cinco vezes nos últimos 27 anos, e a conseqüente pressão obrigou a estender para mais de 17 mil quilômetros a rede de ruas, eixos viários e avenidas.
O explosivo aumento se deveu ao atraso ou fracasso do desenvolvimento de planos de transporte alternativo e eficiente, mais rápido e menos poluente, reconhecem as autoridades. A qualidade do ar na Cidade do México, deteriorada pela emissão de gases e partículas contaminantes, só é satisfatória em um quinto do ano. Diversas pesquisas indicam que o morador da capital gasta entre uma hora e uma hora e meia para fazer uma viagem dentro da cidade, tempo este que há 25 anos seria suficiente para sair da área urbana.
Na Cidade do México, onde se calcula que mais de dois milhões de pessoas sofram de neuroses, 55% dos habitantes se locomovem em ônibus, 16% automóveis particulares, e o restante metrô, táxi, bicicleta ou a pé. O objetivo do Plano Verde é encaminhar a capital do país, num prazo de 15 anos, para um terreno de plena sustentabilidade, afirmou o prefeito Ebrard, do Partido da Revolução Democrática (de esquerda). O programa também inclui, entre outras, medidas em matéria de transporte, ampliação das áreas verdes e de conservação da cidade, melhoria na distribuição e administração do serviço de água potável e novas regulamentações no manejo de resíduos, o que obrigará os habitantes a separar o lixo orgânico do inorgânico. Para avaliar o impacto do programa e redirecioná-lo, se for necessário, foi criado um Conselho de Acompanhamento integrado por autoridades e especialistas em diversas matérias.
“Todos devemos apoiar as novas medidas, pois se não forem tomadas o futuro será muito escuro para a cidade”, insistiu o especialista em urbanismo da UAM. Porém, associações dos transportadores de carga e alguns deputados da capital pertencentes ao Partido Ação nacional, no governo nacional, disseram não acreditar na viabilidade e o impacto de algumas das medidas do plano e alertaram que, se necessário, realizarão ações legais e de fato contra as decisões tomadas. (IPS/Envolverde)

