Nairóbi, 21/02/2005 – A esmagadora tarefa que têm pela frente as novas autoridades da Somália ficou evidente uma vez mais com uma série de atos de violência, enquanto prosseguem os esforços para mudar a sede do governo provisório de Nairóbi, capital do Quênia para Mogadíscio. Três pessoas morreram e sete ficaram feridas na quinta-feira passada pela aparente explosão de uma bomba diante do prédio que foi sede da chancelaria. Isto aconteceu depois de uma série de protestos organizados com a composição de uma força da União Africana (UA, antiga Organização de Unidade Africana) encarregada de dar segurança ao governo somaliano, e após o assassinato, no dia 9, em Mogadíscio, da rede britânica BBC, Kate Peyton.
A jornalista estava na capital da Somália informando sobre a situação desse país do Chifre da África depois do restabelecimento de um governo central. Esse país caiu no caos em 1991, quando foi derrubado o presidente Mohammed Siad Barre, que havia tomado o poder em 1969, e começou um conflito civil entre senhores da guerra, o que provocou uma das crise humanitárias mais graves dos anos 90. Desde então e até ao ano passado, quando se formou um novo governo no Quênia, a Somália permaneceu sem autoridade central enquanto as milícias tribais disputavam o território entre si, com duros combates pelo controle de cidades, estradas e portos. Em 191 e 1992, a fome matou 300 mil pessoas nesse país de 10 milhões de habitantes.
Uma força de manutenção da paz da Organização das Nações Unidas foi enviada à Somália em 1992 para controlar a violência e ajudar a população, mas, abandonou o país no ano seguinte, com um saldo desastroso. Em 2000, foi criado um governo de transição liderado por Abshir Farah, mas seu mandato expirou em agosto de 2004 sem que houvesse um entendimento para sua sucessão. O novo governo, formado no ano passado no Quênia depois de dois anos de negociações, enfrenta o desafio de restaurar a ordem de uma sociedade anárquica. "Não permaneceremos calados enquanto nossos cidadãos são reféns do extremismo político. Procuraremos negociar para conseguir a paz, e, se isto fracassar, nossas forças de segurança devem tomar todas as medidas necessárias para isso, reduzindo ao mínimo o número de possíveis vítimas", afirmou à IPS Yusuf Baribari, chefe do serviço de imprensa do presidente Abdullahi Yusuf Ahmed.
O mandatário pediu à União Africana mais de 15 mil soldados para garantir a mudança de seu governo de Nairóbi para mogadíscio. Segundo o primeiro-ministro somaliano, Ali Mohammed Ghedi, o governo estará reinstalado até o final do mês. Mas, uma delegação da União Africana que chegou na semana passada a mogadíscio para avaliar a forma de deslocamento da missão de paz foi recebida com protestos, aparentemente pela oferta da Etiópia de colaborar com soldados para a formação dessa força. As relações entre Somália e Etiópia sempre foram tensas e chegaram à guerra no final da década de 70 pelo controle da região de Ogaden, uma parte da Etiópia que a Somália reclamava e invadiu em julho de 1977.
Posteriormente, a Etiópia incentivou a guerra civil na Somália, ao apoiar o rebelde Movimento Nacional Somaliano. A perspectiva de que soldados não muçulmanos sejam convidados a integrar a missão também gerou preocupação na Somália. Segundo o Grupo Internacional de Crise (ICG), um gabinete de especialistas com sede em Bruxelas, os protestos podem se transformar em uma nova onda de violência."Os protestos e as ameaças devem ser levadas a sério, porque representam o sentimento do povo da Somália", alertou Matt Bryden, diretor do Projeto Chifre da África do ICG.
"O governo deve evitar isto analisando se deve contar com uma missão internacional e, nesse caso, quais países a integrariam, porque essa é a raiz do problema. Isto deve ser discutido primeiro com o parlamento e o gabinete, para se chegar a um consenso", disse Bryden á IPS. Entretanto, inclusive integrantes do governo parecem divididos sobre a conveniência de confiar sua segurança a uma força multinacional. Segundo alguns informes, o ministro da Habitação exortou os somalianos a combaterem qualquer soldado estrangeiro que coloque os pés no território nacional. A amarga experiência da força multinacional deslocada entre 1993 e 1995 também gera incerteza quanto a uma missão da União Africana.
As conversações sobre a restauração do governo somaliano aconteceram sob os auspícios da Autoridade Intergovernamental de Desenvolvimento, que reúne Quênia, Etiópia, Eritréia, Djibuti, Uganda, Somália e Sudão. Além da eleição de Ahmed como presidente, as negociações levaram à criação de um parlamento, em agosto de 2004, e à designação de um gabinete, no mês passado. Duas regiões da Somália, Puntland e Somalilandia, negaram-se a participar das conversações no Quênia. Somalilandia se separou do resto da Somália em 1991, e Puntland se declarou região autônoma. (IPS/Envolverde)

