Belgrado, 13/09/2007 – A maior expedição científica sobre um rio percorre atualmente o Danúbio para avaliar se pode voltar a ter a emblemática cor observada por Johan Strauss em sua famosa valsa.
Os cientistas extraem milhares de amostras de água e sedimentos de 95 pontos para em seguida avaliar o que se pode fazer para limpar o rio e fazer com que volte a ser chamado de Danúbio Azul, nome que lhe deu o compositor vienense na valsa que compôs em 1867. Embora, talvez, tenha sido apenas um nome romântico. “É difícil dizer se alguma vez o Danúbio foi azul”, disse à IPS o chefe da equipe, Bela Czany, da Hungria. “É mais cinza ou marrom e em algumas confluências, como aqui em Belgrado, com o rio Sava, pode-se ver os dois cursos de água mesclados”, acrescentou.
O Danúbio tem múltiplos problemas. Além da contaminação orgânica e microbiológica, a água contém metais pesados, petróleo dos barcos, pesticidas e cerca de 250 produtos químicos. Com seus 2.888 quilômetros, este rio é o segundo mais longo da Europa, depois do Volga, na Rússia. Essa via navegável nasce na Floresta Negra alemã e percorre Áustria, Bulgária, Croácia, Eslováquia, Hungria, Moldóvia, República Checa, Romênia, Servia e Ucrânia. Na bacia do rio vivem 81 milhões de pessoas. Mas outras cinco nações (Bósnia-Herzegovina, Eslovênia, Geórgia, República checa e Turquia) que não têm acesso direto ao rio o alcançam através de outras vias fluviais ou pelo mar Negro.
A pesquisa pretende apresentar dados comparativos a todas as nações da bacia para reduzir os níveis de contaminação. Os governos envolvidos prometeram acatar a Diretriz Marco de Água, da União Européia, no sentido de reduzir a contaminação até 2015. Os especialistas consideram essa norma como a mais sólida do mundo. Sete dos países da bacia do Danúbio são membros da UE: Alemanha, Áustria, Bulgária, Eslováquia, Hungria, República Checa e Romênia, e outros esperam fazer parte do bloco muito em breve. “Todas as nações agora trabalham juntas”, disse à IPS Phillip Weller, da Comissão Internacional para a Proteção do Rio Danúbio, com sede em Viena.
“O Danúbio é o rio mais internacional do mundo, une diversas áreas, os Alpes, a grande planície húngara, o delta do rio e o mar Negro. Também liga diversas culturas e pessoas”, disse Weller. “As pessoas da região se conscientizam da importância de administrar e melhorar a qualidade da água do rio, seja para pescar, para o uso cotidiano ou apenas para nadar. Isso acontece, sobretudo, entre os jovens, que são os mais interessados em proteger o Danúbio”, acrescentou.
Por sua vez, o chefe da Diretriz de Águas sérvio, Nikola Marjanovic, disse que a comparação das pesquisas de 2001 e 2007 marcará o curso que deverão seguir as nações que integram a bacia. “A pesquisa de 2001 nos deu uma mescla de resultados positivos e negativos”, disse Marjanovic à IPS. “Entre os aspectos positivos está a grande biodiversidade e as espécies raras encontradas”, afirmou. “Entre os negativos, o importante é a significativa conscientização gerada entre a população que vive ao longo do Danúbio, para a qual é vital que o rio volte a ser o mais saudável possível”, acrescentou.
A situação não é igual em todas as partes. “Há diferentes problemas ao longo do rio que não conhece fronterias e representa seu próprio mundo”, afirmou Csany. “Na zona alta, desde Alemanha até Budapeste. Notamos mudanças hidromorfológicas (mudanças de relevo relacionados com a água), mas desde a capital húngara rio abaixo há uma radical mudança negativa, quando intervém a contaminação”, explicou. Isso se deve em grande parte à enorme quantidade de contaminação orgânica de Budapeste, de 2,1 milhões de habitantes, e rio abaixo, de Belgrado, com dois milhões de pessoas. Budapeste pretende instalar uma nova estação de processamento de esgoto sobre o Danúbio até 2010. Belgrado não possui instalações desse tipo.
A Sérvia ficou livre de adotar medidas ligadas ao Danúbio nos anos 90 porque estava sob rígidas sanções internacionais. Entre elas, a proibição de transportar bens pelo rio que rege para outros países. O trajeto de 600 quilômetros ao longo da Sérvia esteve interrompido durante anos após o bombardeio pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de 1999. Muitas pontes foram destruídas e seus restos acabaram de ser removidos apenas em 2003. “Mas, tudo isso ficou no passado”, assegurou Czany. “Estamos encantados com o fato de tanta gente, nos 10 portos por onde passamos, saberem do que se trata a expedição. Gente simples está bem ao par da contaminação do Danúbio. Estou feliz por vê-los tão interessados e de responder às suas perguntas. Para muitas pessoas, o rio simplesmente é seu lar, sem importar o país no qual vivem”, concluiu. (IPS/IFEJ/Envolverde))
* Este artigo é parte de uma série sobre desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter Press Service) e IFEJ (siglas em inglês de Federação Internacional de Jornalistas Ambientais).


