Ambiente: O cinza ataca o verde na Malásia

Malásia, 14/09/2007 – Organizações da sociedade civil uniram-se contra um megaprojeto para construir 33 edifícios, cada um com mais de 40 andares, em um dos últimos grandes espaços verdes que restam nesta ilha. O primeiro-ministro, Abdullah Badawi, lançou esta semana o Centro Global da Cidade de Penang, no valor de US$ 7 bilhões, em uma área de 105 hectares, onde hoje fica o Clube Hípico, que se mudará para um novo hipódromo, em construção, em Batu Kawan, na parte continental do Estado malaio de Penang. A empresa encarregada do megaprojeto é Abad Naluri, que tem 25% de suas ações nas mãos de Taman Equine, que é propriedade da Equine Capital.

O presidente da Equine Capital é Patrick Lim, considerado um dos empresários mais influentes da Malásia. O ex-primeiro-ministro Mahathir Mohamad (1981-2003), que foi acusado de praticar clientelismo político durante seu governo, se refere agora a Lim como “Patrick Badawi”, em alusão aos seus vínculos com Abdullah. “O projeto está no tapete há quatro anos, mas só agora se consultou a população, na última hora”, disse Mohd Nizam Mashar, coordenador do Sahabat Alam Malaysia (SAM), pertencente à rede internacional Amigos da Terra. “O mais triste é que esse espaço verde, a única área com possibilidades de ser aproveitada pela população de Penang, ficará quase toda destruída”, lamentou.

A promotora imobiliária contratou uma nova agência de relações publicas, mas com bons vínculos. Trata-se da Fox Communication, que conta entre seu pessoal com ex-jornalistas de um importante diário em inglês da Malásia. A empresa e a imprensa influente procuram contra-atacar os principais motivos de preocupação causados pelo projeto ressaltando as credenciais verdes da companhia. Entre elas, o objetivo “carbono zero” e 40 hectares de parques recreativos, incluindo um diminuto parque de 10 hectares de largura. Mas, evitaram mencionar as 33 torres.

“A destruição do clube hípico e a construção desses edifícios produzirá dióxido de carbono, e não reduzirá as emissões”, respondeu Andrew Aeria, um cientista que cresceu em Penang. “Se a Equine fala sério sobre não emitir dióxido de carbono e criar um ambiente saudável, seria melhor transformar o lugar em um parque”, acrescentou. Para acalmar as preocupações sobre congestionamento de veículos, a promotora imobiliária também informou que será construída uma passagem subterrânea e duas passagens de nível para ligar o complexo à estrada que sai de Penang, também polêmica. O projeto da estrada atravessa o complexo. Além disso. Está previsto construir um sistema ferroviário em Penang. Mas, muito gente não ficou convencida.

As ruas que rodeiam o clube hípico de Batu Gantung ficam congestiona das nas horas de pico. Os dois principais parques próximos, o Jardim Botânico e o Parque da Juventude de Penang, na colina, costumam estar cheios de gente, por isso seria bem-vindo um novo parque muito maior. De fato, o projeto das torres prevê edificar uma área de 2,5 milhões de metros quadrados que incluem sete mil casas de luxo, hotéis, zonas comerciais, um centro artístico e duas torres icônicas. Mas, é obvio que aponta para pessoas contrárias. Inclusive a projetista Nasrine Serji, nascida em Teerã, expressou sua preocupação a respeito.

“A iobiliária quer somente casas de luxo. Mas isso logo se converte em uma comunidade fechada”, disse Serji em uma entrevista ao site canada.com em novembro. “Também tem de haver moradias populares. Se faz esse tipo de negociação para permitir a integração de pessoas de diferentes níveis sócio-econômico”, afirmou. A imobiliária queria, a principio, uma edificação com densidade tal que seria o dobro da de Hong Kong, mas foi convencida a não fazer isso, acrescentou. Dentro de uma norma que rege o setor, a responsável por este projeto deve construir cerca de dois mil apartamentos de baixo custo. Mas, se diz que provavelmente o faça fora da área em questão.

A iniciativa de transformar o clube hípico de “espaço aberto” a “empreendimento misto” começou em novembro de 2002. Mas no ano passado os moradores da tranqüila zona residencial vizinha ao bairro Jesselton, de classe alta, se opuseram à idéia. Nessa época também se convenceu os membros do clube hípico a votarem a favor de um novo hipódromo na zona continental. Como parte da retribuição prevista pelo acordo, a Equine construirá o Centro Eqüestre Internacional de Penang, em Batu Kawan, no continente, apesar de as corridas de cavalo terem um futuro incerto. Um hipódromo no continente levará os apostadores a algumas dezenas de quilômetros ao sul de Kepala Batas, a circunscrição do primeiro-ministro Abdullah.

Os trabalhos de preparação do terreno para o novo hipódromo começaram no final de 2005, depois que o governo anunciou que prosseguiria com os planos para instalar a ponte mais longa do sudeste da Ásia. Trata-se de um projeto de US$ 800 milhões para construir 24 quilômetros que unirão Batu Kawan à ilha de Penang. A Equine tem outro grande projeto em mãos: Crescentia Park, que converterá uma área de 180 hectares em Batu Kawan na terceira cidade-satélite de Penang, ao custo de aproximadamente US$ 230 milhões.

Crescentia e o novo hipódromo estão perto da ponte prevista, convertendo o banco hipotecário da Equine no continente em uma mina de ouro. Não se sabe ainda como a imobiliária pagou ao clube hípico da ilha. Há informações de que Abu Naluri comprou a terra por US$ 140 milhões em 2002. O clube, criado em 1864, comprou o terreno em 1935. mas há outras informações dando conta de que o terreno do clube hípico só passará para a imobiliária após a construção do hipódromo de Batu Kawan, em 2009.

Quem quer que seja o proprietário do terreno do clube hípico na ilha terá um excelente lucro com a superavalorizaçao da terra, se for confirmada a instalação do “empreendimento misto”. Com a instalação “o Estado permitiu que certos especuladores fizessem milhares de milhões de dólares” quando poderia ter adquirido o terreno em beneficio da população da ilha, lamentou o ativista Ahmad Chik. (IPS/Envolverde)

Anil Netto

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