Ambiente-EEUU: Washington se opõe a tratado sobre ozônio

Montreal, 24/09/2007 – Washington se nega a assinar um tratado internacional para eliminar rapidamente o uso de químicos que afetam a camada de ozônio. Delegados de 1919 países, reunidos 20 anos depois da assinatura do Protocolo de Montreal nesta cidade canadense, estão prestes a alcançar um acordo para reduzir os prazos contemplados inicialmente para sua proibição. Esse convênio estabeleceu o plano de ação para limitar o uso das substancias contaminantes. Porém, os Estados Unidos insistem em continuar utilizando o brometo de metil, um pesticida proibido pelo mal que causa na camada de ozônio, a qual protege os seres vivos da Terra dos raios solares ultravioletas.

Apesar de um outro enorme buraco de ozônio ter se formado esta semana sobre a Antártida, os delegados reunidos em Montreal parecem estar aceitando as demandas de Washington, embora o brometo de metil devesse ter seu uso suspenso nos países industrializados, em teoria, a partir de 1º de janeiro de 2005, segundo as disposições do Protocolo de Montreal. “É uma mancha nesta reunião. Estamos diante do produto químico que não deve ser nomeado”, disse à IPS David Doniger, diretor de política climática do não-governamental Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, com sede nos Estados Unidos. “Existe um poderoso grupo de pressão dos produtores de morango e vegetais em Washington”, acrescentou.

O brometo de metil é um pesticida altamente tóxico colocado na terra antes da semeadura. Também é usado logo depois da colheita para descontaminar produtos e as áreas de armazenagem. Embora seja muito efetivo para eliminar mato, insetos e roedores, provoca a redução da camada de ozônio e coloca em risco a saúde humana. Existem alternativas para 93% das aplicações deste produto. Mas, países como Estados Unidos, Israel e Japão argumentam que não têm outro caminho a seguir que não seja continuar usando esse produto devido às regulamentações, disponibilidade, custos e condições locais.

O Protocolo de Montreal contempla “exceções críticas” que permitem continuar utilizando substâncias proibidas por um curto período, até que se encontre um substituto. Em 2006, permitiu-se que os Estados Unidos usassem oito mil toneladas de brometo de metil, contra as cinco mil autorizadas para todos os demais países industrializados. Na reunião que termina hoje em Montreal, o comitê informativo sobre o uso desse pesticida fez referência a um “excelente avanço” na eliminação de seu uso e indicou que não recebera muitos pedidos de exceção à proibição.

Não é o caso dos Estados Unidos, que solicitou permissão para aplicar 6,5 mil toneladas em 2008 e cinco mil em 2009, enquanto o resto do mundo rico reduziu suas demandas para apenas 1,9 mil toneladas e 1,4 mil toneladas, respectivamente. O delegado da Suíça expressou sua preocupação diante do fato de alguns países reclamarem o uso de grandes quantidades desse químico e destacou que 40% das existências não se dedicam a “usos críticos”. Os norte-americanos contam com reserva de oito mil toneladas de brometo de metil, mas o representante de Washington disse que se esgotaria em 2009.

As emissões desta substância têm um impacto imediato na camada de ozônio, disse à IPS Janos Mate, do Greenpeace Internacional. “Os cientistas acreditam que seu efeito é de três a 10 vezes maior do que o de outros produtos químicos”, acrescentou. O ativista alertou que a camada de ozônio estará em seu estado “mais delicado” durante as próximas décadas antes de começar a se recuperar de maneira significativa. A mudança climática está retardando o processo e não está claro qual será seu impacto, ressaltou.

A camada de ozônio é parte da atmosfera, a 25 mil quilômetros de altitude, e atua como escudo contra os raios ultravioletas que podem causar queimaduras, câncer de pele e catarata. Também pode prejudicar a vida marinha. Nos dois últimos anos, buracos de ozônio maiores do que a Europa surgiram sobre a Antártida e os oceanos austrais. A Organização Meteorológica Mundial informou esta semana que nunca alcançara tal dimensão e que ficará ainda maior com a chegada da primavera no hemisfério sul. A mudança climática parece ter um papel na formação desses buracos da camada de ozônio. Enquanto a superfície da Terra esquenta, nas regiões polares a alta atmosfera fica mais fria, criando as condições para que produtos químicos como o cloro e o brometo destruam o ozônio.

No ano passado pesquisadores da Universidade do Colorado descobriram que os ventos no Ártico têm um impacto sobre o ozônio da estratosfera superior muito maior do que se pensava. Estes ventos estariam aumentando devido à mudança climática, o que, por sua vez, provoca a redução do ozônio. No entanto, o grupo de pressão dos agricultores norte-americanos está indignado porque Washington não pressiona para que seja autorizado o uso de maiores quantidades de brometo de metil. Seus porta-vozes afirmam que eles poderiam conseguir isso com base nas exceções contempladas no Protocolo de Montreal, já que ainda não existem alternativas economicamente viáveis.

“Já é hora de empregar o senso comum neste assunto”, disse Charles Hall, da Associação de Produtores de Frutas e Vegetais do Estado da Geórgia. Os agricultores norte-americanos jamais entenderão que o brometo de metil está destruindo a camada de ozônio, disse Doniger. Espanha, Grécia e Itália praticamente eliminaram seu uso nas plantações, acrescentou. “Todos estamos sofrendo com uma camada de ozônio mais fina apenas para beneficiar umas poucas companhias norte-americanas”, disse Mate.

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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