Washington, 26/10/2007 – O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, disse ontem que manterá o embargo comercial contra Cuba, que já dura quase meio século, até que Havana “adote, tanto de palavra quanto nos atos, as liberdades fundamentais”. Bush qualificou as mudanças políticas na ilha, iniciadas em julho de 2006 quando o presidente Fidel Castro foi substituído por seu irmão Raúl, como “os últimos estertores de um regime falido”. Os Estados Unidos “não darão oxigênio a um regime criminoso que faz seu próprio povo de vítima”, acrescentou a uma audiência formada por familiares de presos políticos e cidadãos norte-americanos com ascendência cubana.
“Não apoiaremos os velhos métodos com novas caras, o velho sistema sustentado por novas cadeias”, disse Bush se referindo à passagem do poder em Cuba pela doença de Castro. Em seu discurso, que foi transmitido para Cuba simultaneamente pela rádio e TV Martí, financiadas pelos Estados Unidos, o mandatário apelou à “comunidade internacional” para que ajude os cubanos a ganharem sua “liberdade” através de um apoio maior aos dissidentes e aos grupos de oposição. Além disso, pediu às forças armadas e à polícia cubanas que não “usem a força contra seu próprio povo quando se levantar para exigir sua liberdade”.
Especialistas em Cuba criticaram Bush, destacando que não levou em conta a existência de um debate mais aberto sobre o futuro da ilha desde que Raúl Castro substituiu seu irmão há 15 meses, nem o apoio popular – ou, quando menos, tolerância – ao governo, que tomou o poder em 1º de janeiro de 1959. “Advertiu os cubanos que não podem temer uma transição de Fidel para Raúl, o que é completamente absurdo, pois essa transição já ocorreu”, disse Wayne Smith, que encabeçou a Seção de Interesses dos Estados Unidos em Havana durante a presidência de Jimmy Carter (1977-1981) e atualmente integra o Centro para a Política Internacional, com sede em Washington.
“Não é mais do que uma reiteração do que vem dizendo nos últimos dois anos e, francamente, ninguém em Cuba lhe dá atenção”, disse Smith. “Raúl está avançando, disse em julho que haveria um novo debate sobre como tornar mais efetivo o sistema e há muitas possibilidades de ocorrerem reformas, embora nada como o que Bush está exigindo”, acrescentou. “Se algo pode reviver Fidel Castro é o discurso de Bush”, comentou, por sua vez, Michael Shifter, especialista em América Latina do Inter-American Dialogue, um centro de estudos de Washington. Além disso, definiu a retórica do presidente como “cansada e anacrônica”.
“É o tônico perfeito para um ditador convalescente que sempre contou com Washington para fazer seu jogo e manter-se no poder, bem como para manter seu prestigio na América Latina”, acrescentou Shifter. “Para a comunidade internacional e certamente para os latino-americanos, fazer referência a transição parece prematuro, presunçoso e, inclusive, ofensivo”, ressaltou. Bush qualificou Cuba como “um Gulag tropical” e insistiu que os “horrores” cometidos pelo governo “sacudirão a consciência da humanidade” quando forem conhecidos publicamente.
“Este é o momento de apoiar os movimentos democráticos que estão surgindo na ilha. É tempo para que o mundo deixe de lado suas diferenças e se prepare para a transição cubana a um futuro de liberdade, progresso e promissor”, afirmou Bush. “Os dissidentes de hoje serão os líderes do amanha, e quando finalmente chegar a liberdade eles seguramente recordarão de quem os apoiou”, prosseguiu o mandatário, pedindo a outros governos que “abram as portas de suas embaixadas aos dirigentes pró-democracia e incentivem suas organizações não-governamentais a entrarem em contato direto com a sociedade civil independente em Cuba”.
Também anunciou que chamou uma “nova iniciativa” para um “fundo de liberdade” para Cuba, que contaria com milhares de milhões de dólares para serem usados pelo governo da ilha uma vez que tenha demonstrado que respeita “a liberdade de expressão, de associação, de imprensa, de formar partidos políticos e mudar de governo através de eleições periódicas e competitivas”. Bush também disse que seu governo está preparado para adotar “interessantes” novas medidas de forma imediata, mas “só se o regime cubano, a classe dirigente, sair do caminho”. Entre as medidas mencionou a concessão delicenças a ONGs e igrejas para que forneçam computadores e acesso à Internet aos cubanos e convidar os jovens “cujas famílias sofrem a opressão” para um programa de bolsas.
Smith e Shifter disseram que Havana certamente rechaçará essas ofertas e criticaram Bush por não aproveitar qualquer oportunidade – por exemplo, a luta contra o narcotráfico – para estabelecer uma cooperação, ainda que mínima, com Raúl Castro. Isto, afirmaram, reduzirá as chances de Washington influir no processo político da ilha. “Estes tipos sempre esperaram que logo que Fidel deixasse a cena o regime entraria em colapso”, disse Shifter à IPS. “Claramente, esse não é o caso e agora têm de repensar como lidar com a continuidade e não com o colapso de Cuba, e pode-se ver que não têm tido muito êxito”, acrescentou.
“Este é um momento estratégico para abrir-se à Cuba e à América Latina em seu conjunto e este governo está perdendo a oportunidade”, afirmou Elsa Falkenburder, especialista em Cuba do Escritório de Washington sobre a América Latina. “Este discurso é mais do mesmo e demonstra que o governo não tem nenhuma nova idéia sobre como se aproximar de Cuba, nem está em sintonia com a cambiante realidade” da ilha, acrescentou. “Sarah Stephens, do Centro para a Democracia nas Américas, disse que “iniciou-se em Cuba um debate sobre seu futuro e o governo estuda algumas reformas”. “Embora não saibamos quanto profundas possam ser, sabemos que a política de Bush deixa os Estados Unidos à margem do debate que está ocorrendo na ilha. Nossos aliados europeus e hemisféricos têm uma política diferente porque conhecem melhor a realidade do que ocorre”, acrescentou Stephens.
“É difícil imaginar como isto pode atrair algume, com exceção do decrescente número de anticastristas de linha dura de Miami”, disse Smith à IPS. “Está muito claro que mais cubano-americanos querem que nos relacionemos com a ilha e que sejam eliminadas as restrições de viagem. Mas o presidente deixou claro que isso não acontecerá”, acrescentou. Os analistas se mostraram surpresos pelo momento escolhido por Bush para seu discurso, devido aos problemas que tem no Iraque, à sua crescente beligerância em relação ao Irã e seu chamado, na semana passada, para que se exerça maior pressão sobre a ditadura da Birmânia. “Creio que esteve sob pressão dos cubanos de linha dura para dizer algo, já que não havia feito nenhum comentário desde que Raúl assumiu a presidência de Cub”a, disse um funcionário do governo que pediu para não ser identificado. (IPS/Envolverde)

