Estados Unidos: Entre a Turquia e os curdos

Washington, 26/10/2007 – O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, pressiona seus aliados iraquianos para que atuem duramente contra as milícias do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), considerado uma organização terrorista por Washington. A decisão da Casa Branca é conseqüência do envio pela Turquia de cem mil soldados para sua fronteira com o Iraque, que poderiam cruzá-la nos próximos dias para atacar as bases do PKK nesse país em represália pelas ações militares dos insurgentes em território turco.

Não está claro, porém, se esta pressão se traduzirá em algum tipo de ação direta por parte das autoridades da semi-autônoma região do Curdistão iraquiano ou se será suficiente para prevenir uma invasão do exército turco, que poderia gerar o caos em uma zona que desfrutava de certa estabilidade desde a ocupação norte-americana em 2003. Tudo indica que, até o momento, esta pressão de Washington teve um efeito limitado. A oferta o PKK de observar um cessar-fogo limitado foi desprezada pelas autoridades de Ancara e funcionários do governo Bush, os quais disseram que ofertas semelhantes não foram respeitadas no passado.

Além disso, uma declaração do primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, sobre fechar todos os escritórios do PKK no território desse país é considerada uma promessa quase impossível de cumprir. O exército iraquiano, nominalmente sob seu controle, não tem permissão de operar no Curdistão, onde a “pesh marga”, uma milícia local de origem curda, está encarregada da segurança. O porta-voz do Departamento de Estado norte-americnao, Sean McCormack, disse que é necessário ver os resultados desse compromisso assumido por al-Maliki. “É preciso deter os ataques terroristas e deve-se agir sobre suas causas. Ou seja, é necessário evitar que essa organização terrorista opera a partir de solo iraquiano”, afirmou.

A maioria dos analistas considera que nem o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, nem seus comandantes militares estão ansiosos para enviar tropas ao Iraque para lutar com os guerrilheiros do PKK, que seriam cerca de três mil. Portanto, as gestões diplomáticas, que se multiplicaram nos últimos dias, contam com um limitado prazo para chegar a uma solução. Funcionários turcos enfatizaram que preferem a diplomacia e, se esta falhar, pressões econômicas para convencer os governos do Iraque e do Curdistão a agirem contra o PKK. Para essa região é vital manter abertas suas fronteiras não só com a Turquia, mas com Irã e Síria, que também contam com população de origem curda e expressaram sua solidariedade com Ancara nos últimos dias.

Mas, se ocorrerem novos ataques do PKK, que matou 12 soldados turcos e afirmou ter feito prisioneiros outros oito no último fim de semana, Erdogan seria forçado a ordenar uma invasão, precedida por ataques aéreos e operações de comando. O parlamento já deu autorização para uma operação militar. Mark Parris, ex-embaixador dos Estados Unidos na Turquia, disse não ter dúvidas de que seu colega no Iraque, Ryan Crocker, e o comandante das forças de ocupação, general David Petraeus, estão exercendo uma forte pressão em Bagdá pra conseguir que a situação fique sob controle.

Porém, a influencia do governo Bush sobre os principais atores neste conflito está em um ponto baixo. Existe na Turquia um forte sentimento anti-norte-americano, devido à negativa de Washington em considerar seriamente a preocupação de Ancara em relação ao PKK. Isto criou a impressa de que os Estados Unidos querem dividir o Iraque e criar um Curdistão independente, o que geraria uma reclamação semelhante por parte da população curda da Turquia.

“Vivemos as conseqüências de não ter agido por muito tempo”, segundo Stephen Cook, especialista em Turquia do não-governamental Conselho de Relações Exteriores, que destacou que um enviado de Bush no ano passado para tratar deste assunto com as autoridades de Ancara renunciou há pouco frustrado pela falta de interesse do governo. “Os turcos não acreditam que estamos em condições de fazer algo”, acrescentou. Ao mesmo tempo, a Turquia tem meios consideráveis para pressionar Washington. É uma aliada que contribui com mil soldados para as forças de ocupação do Afeganistão e a base aérea de Incirlik é de importância logística vital para as operações dos Estados Unidos no Iraque.

Na semana passada a Casa Branca pressionou o Congresso para que não aprovasse uma resolução declarando “genocídio” a matança de 1,5 milhão de armênios por parte do exército turco, durante a Primeira Guerra Mundial. Isso foi feito depois que Ancara ter sugerido que restringiria o acesso à base aérea se os legisladores levassem adiante essa intenção. Washington tampouco pode influir muito sobre os curdos iraquianos. Por um lado porque praticamente descartou a possibilidade de enviar tropas ao Curdistão, onde se refugiam as guerrilhas do PKK, e, por outro, porque se acredita que os rebeldes contam com um importante apoio da população dessa região.

“Uma ação norte-americana contra o PKK pode ser tão desestabilizadora quanto uma incursão turca”, segundo Parris. A estratégia de criar um exército iraquiano capaz de assumir as funções até o momento desempenhadas pelas tropas dos Estados Unidos – acrescentou – depende da vontade das autoridades do Curdistão para proporcionar recrutas, em especial o governador dessa provinica, Mustafá Barzani. “Estamos de mãos e pés amarrados em nossa relação com Barzani”, disse Cook.

O governador estaria tentando cobrar um preço alto em troca de agir contra o PKK. Por exemplo, poderia pedir a realização de um referendo para decidir a incorporação do Curdistão de Kirkuk, que conta com uma importante riqueza em petróleo. A Turquia se opõe abertamente e se houver um avanço nessa direção Ancara poderia tomar a decisão de invadir. Washington teve êxito em seu objetivo de adiar esse referendo, que deveria ter sido realizado este ano, segundo a Constituição iraquiana aprovada em 2007. O governo do presidente Bush teme que possa causa violência étnica na região e a possível resposta militar por parte da Turquia. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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