Direitos Humanos: Visita de enviado da ONU beneficia a quem na Birmânia?

Bangkok, 26/10/2007 – Exilados políticos birmaneses aplaudem o regresso de um relator de direitos humanos da Organização das Nações Unidas ao seu país, mas, se perguntam que se beneficia realmente com essa visita. A preocupação de organizações não-governamentais como a Associação de Assistência a Presos Políticos, uma rede que reúne ex-presos exilados, tem seus motivos. Depois de tudo, a Birmânia continua imersa no medo quase um mês depois da brutal repressão a manifestantes monges budistas e civis desarmados em várias cidades, incluindo Rangun, por parte da ditadura militar.

“A quem serve esta visita? É para ajudar a população da Birmânia, vítima da repressão do exército, ou para restaurar a imagem do regime?”, perguntou Bo Kyi, ex-preso político e membro veterano da Associação, com sede em Mãe Sot, um povoado tailandês da fronteira com a Birmânia. “Me preocupa que esta visita ajude a afrouxar a pressão internacional sobre o regime, e nada mais que isso”, acrescentou. Por sua vez, a Coalizão Nacional de Governo da União da Birmânia, autoridade eleita democraticamente e obrigada a exilar-se em 1990, também tem suas razões para ser céptica.

“Não quero que a visita dê mais tempo à junta para seguir com sua agenda política. O regime militar sempre tem esse gesto quando está sob uma grande pressão internacional”, disse Zin Linn, diretor de informação da Coaliza. As forças armadas da Birmânia, que ostentam o poder desde o golpe de Estado de 1961, raramente cederam à pressão internacional. A junta governante decidiu na segunda-feira levantar uma proibição de quatro anos que permite ao relator de direitos humanos da Organização das Nações Unidas, o diplomata brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, regressar a Birmânia nas próximas semanas.

Pinheiro esteve pela última vez nesse país do sudeste da Ásia em novembro de 2003, em uma visita que teve grande repercussão porque descobriu que a sala onde se reuniu com presos políticos tinha microfones escondidos. O Conselho de Estado para a Paz e o Desenvolvimento (CEPD), como a junta chama a si própria, foi desta vez muito criticada pela comunidade internacional pela dura repressão contra as manifestações de protesto contra o repentino aumento de 500% no preço dos combustíveis, em meados de agosto, que logo se transformaram em protestos contra o governo.

No final de setembro os generais cederam um pouco ao permitirem a entrada do enviado especial da ONU ao país, Ibrahim Gambari, em missão política. Mas essa concessão não impediu a junta de continuar perseguindo dissidentes, monges budistas e toda pessoa simpatizante da oposição. Fontes em Rangun informaram que o fim do último toque de recolher não levou tranqüilidade aos cidadãos, que temem que ao entardecer alguém bata à sua porta para prender algum membro da família. Inclusive o anúncio do CEPD feito no começo deste mês de que um subsecretário seria designado como intermediário entre o líder da junta, Than Shwe, e a líder opositora Aung Sang Suu Kyi, não se concretizou.

Kyi, que passou 12 dos últimos 18 anos em prisão domiciliar, segue isolada e sem vislumbrar sinal de reconciliação, como outros membros de seu partido, a Liga Nacional pela Democracia. A junta admitiu no final de semana passado que havia detido cerca de três mil pessoas desde o início da dura repressão no final de setembro, e alertou que continuaria buscando mais suspeitos de participação nos protestos contra o governo. As manifestações que começaram em meados de agosto foram uma rara demonstração de indignação popular jamais vista em duas décadas.

A visita de Pinheiro é considerada uma prova de fogo sobre o quanto a junta está disposta a se comprometer com a comunidade internacional. “Sua visita não deve limitar-se a um exercício diplomático de se reunir com funcionários do regime, deve poder iniciar uma investigação sobre as violações dos direitos humanos que acabam de ocorrer”, afirmou Debbie Stothard da não-governamental Rede Alternativa da Asean (Altsean). “Gostaríamos que o senhor Pinheiro se reunisse com monges e outras vítimas detidaspara saber o que lhes aconteceu”, acrescentou.

É importante para a ONU obter garantias de que o CEPD não deterá testemunhas e vítimas que se reunirem com Pinheiro tão logo o diplomata brasileiro deixe o país, disse bo Kyi, ex-preso político da Associação de Assistência a Presos Políticos. De fato, esta entidade tem casos documentados de represálias contra presos políticos e ativistas que se encontraram com o enviado especial em 2003. ‘O CEPD havia ordenado que Pinheiro fosse seguido por todos os lados durante sua estadia e ameaçou várias pessoas de represália se falassem demais. As pessoas sabem disso e agora têm medo de se reunir com ele”, acrescentou.

Entretanto, isso não impediu Pinheiro de pintar um panorama lúgubre da situação dos direitos humanos na Birmânia em seus informes regulares à Assembléia Geral e ao Conselho de Direitos Humanos da ONU. O diplomata já havia revelado a difícil situação de aproximadamente 1.100 presos políticos e os abusos em grande escala contra as minorias étnicas do país. Que a iminente visita de Pinheiro supere as expectativas das anteriores quanto à pressão política derivar de outro fato: não existem dados claros sobre o número de mortos após a brutal repressão de setembro.

A junta afirma que morreram 10 pessoas, enquanto organizações opositoras falam em 200 mortos. “Investigaremos muito mais antes de dizer que houve progressos e a visita do enviado especial de certa forma é um êxito”, disse Zin Linn, da Coalizão Nacional de Governo da União da Birmânia. “Pinheiro tem de saber que atualmente reina o terror na Birmânia”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

(Envolverde/ IPS)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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