Lisboa, 06/11/2007 – O governo português decidiu uma nova estratégia para a América Latina: deixar de ser o convidado sem voz nas cúpulas ibero-americanas e assumir um papel mais ativo, que ultrapasse as fronteiras do Brasil para os países de língua espanhola. O presidente Aníbal Cavaco Silva e o primeiro-ministro José Sócrates participarão da XVII Cúpula Ibero-americana que acontecerá a partir da próxima quinta-feira e até sábado, em Santiago do Chile. No próximo ano, os chefes de Estado e de governo de Portugal, Espanha, América Latina e Andorra se reunirão em El Salvador, e em 2009 em Lisboa.
A América Latina se apresenta como uma das metas desde que assumiu o governo em maio de 2005, José Sócrates, um pragmático engenheiro civil da nova geração de socialistas europeus empenhados em seguir pelos caminhos da “esquerda moderna”, cuja estratégia é a adoção do modelo neoliberal. Para isto, conta com o apoio incondicional do conservador Cavaco Silva, que não esconde suas simpatias pela condução econômica que Sócrates implantou em Portugal.
Até o começo deste século, o Brasil era o único norte das relações políticas, diplomáticas e de investimentos de Portugal na América Latina, por óbvias razões históricas. A única exceção foi a Venezuela, cujas relações foram sempre levadas com extrema cautela, determinadas pela presença de uma comunidade de 450 mil portugueses, em sua maioria dedicados ao comércio e aos serviços. Mas, o pragmatismo de Sócrates faz com que agora Lisboa veja com outros olhos os países de língua espanhola, ao contrário de seu antecessor socialista entre 1995 e 2002, Antonio Guterres, que ao assumir o cargo anunciou que em matéria de política externa o Brasil “seria a prioridade das prioridades”. Porém, os indicadores econômicos do resto da América Latina se convertem em apetecível para o investimento português, onde já existem alguns exemplos notórios, como o Chile, um dos maiores exportadores mundiais de vinho e onde suas garrafas usam rolhas do empresário português Américo Amorim, que controla 67% do comércio mundial da cortiça de alcornoque (uma espécie de árvore). “A diferença entre os países latino-americanos é apenas da visão colonial entre Lisboa e Madri, porque os espanhóis fundaram vários vice-reinados, enquanto o Brasil português era apenas um”, explicou à IPS o analista de assuntos internacionais Augusto Videla. “E, vamos falar sério, se o Brasil fosse dividido em nações separadas daria para cerca de 15 ou 20 países da América Central”, acrescentou.
Muitas vezes se diz, sem pensar, “a América Latina fala espanhol, mas as pessoas esquecem que isto é uma realidade apenas em maioria de número de nações e de mais habitantes, porque quase a metade da América do Sul, ou seja, o Brasil, fala português”, recordou Videla. Por sua vez, o secretário de Estado de Relações Exteriores, João Gomes Cravinho, disse à IPS que, “além dos estreitos vínculos de Portugal com o Brasil, de quase 200 anos, nunca foram necessárias as cúpulas ibero-americanas, que são feitas para criar um contexto destinado a ampliar as relações com a América Latina de fala espanhola”.
Entretanto, Portugal “já mantém relações estreitas com um conjunto de países da América Central e do Sul, especialmente o Chile, que não existiam há 12 ou 15 anos, antes das cúpulas, por isso essa é para nós uma das funções centrais da comunidade ibero-americana”. As cúpulas entre os 19 países da América Latina, mais Andorra, Espanha e Portugal se traduzem em “claro enriquecimento de nossas relações internacionais, uma atividade que, provavelmente, não teríamos sem essas reuniões”, afirmou Cravinho.
Para o ex-presidente Mario Soares (1985-1995), Portugal teve seu momento de influência em toda região latino-americana por meio da repercussão do golpe de Estado dos capitães esquerdistas do exército, que na chamada “Revolução dos Cravos” de 1974 derrubaram a ditadura corporativista imposta em 1926. “A Revolução dos Cravos e o êxito da transição democrática na Espanha (iniciada no final de 1975) influíram fortemente no posterior processo de democratização de toda a América Latina nos anos 80”, recordou. Em nossos dias, o fundamental é que exista uma “visão ibérica” para essa região do mundo, acrescentou o experiente Soares, que apesar dos 83 anos que completará no próximo mês continua desenvolvendo uma vasta atividade cívica.
Existe uma visão peninsular comum, de Espanha e Portugal, sobre a América Latina?, perguntou a IPS. “Creio que sim. Pelo menos existe uma visão convergente, que pode ser muito influente em termos europeus e de América Latina, que tem uma grande importância como associada global da União Européia”, respondeu Mario Soares. Para os países ibéricos, “arrastar a UE para uma associação com a América Latina é de enorme interesse para os dois lados”, acrescentou. O senhor considera que existe efetivamente uma unidade latino-americana? Em si mesma, a Ibero-América é uma unidade?, insistiu a IPS. “Minha resposta é que há uma unidade na diversidade de seus diversos componentes, começando por um certo passado histórico comum no processo das independências”, explicou o ex-presidente. Outro fator importante, na ótica de Mario Soares, “é a língua dos descobridores-ocupantes, por que as línguas originais, as indígenas, não foram um traço de união, enquanto em espanhol e português, línguas que em conjunto representam um décimo da humanidade, 700 milhões de pessoas podem se entender, em portunhol”. O momento histórico se apresenta ideal para incrementar as relações entre a América Latina e a União Européia, especialmente através de Portugal e Espanha, porque atualmente “as preocupações dos Estados Unidos se voltaram para o Oriente Médio, abandonando um pouco a América Latina”, acrescentou.
Além disso, os últimos anos “foram de crescimento, em média de 5%, para a América Latina, enquanto a garantia da democracia e as múltiplas eleições realizadas em 2006 e 2007 lhe deram maior independência econômica em relação aos Estados Unidos e à UE, por exemplo, dentro da Organização Mundial do Comércio”.
No campo político, Mario Soares destacou que em muitos países da região há uma certa rejeição ao neoliberalismo. “Competitividade, crescimento econômico, naturalmente, mas, também justiça social, preocupação com o bem-estar das populações, saúde, educação, justiça, trabalho e, sobretudo, o sentimento da necessidade de superar atrasos históricos”. Mas, “é óbvio que há perigos que saltam à vista, em uma reflexão sem paixão sobre a evolução previsível da América Latina, que de regimes ditatoriais passou para democracias consolidadas, de diferentes características”, ressaltou.
Assim, chegou ao governo pelas urnas desde forças de esquerda moderada, como no Brasil, Chile ou Uruguai, até uma mais radical, com matizes diferenciais, na Venezuela, Bolívia, Nicarágua ou Equador”, disse Mario Soares. O ex-presidente encerrou sua conversa com a IPS com um sinal de alerta: “Seria trágico e paralisante se surgisse uma divisão profunda e conflitiva entre estas duas esquerdas, tanto para o futuro do progresso da região quanto para a necessária associação solidária entre a América Latina e a União Européia. (IPS/Envolverde)

