Nova Délhi, 09/11/2007 – O mundo deve abandonar as fossas cépticas e as latrinas para reduzir pela metade o número de pessoas sem serviços sanitários básicos até 2015, um dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da Organização das Nações Unidas, afirmaram especialistas e ativistas. Aproximadamente 400 especialistas de 44 países se reuniram em Nova Délhi para assistir a World Toilet Summit 2007 (Conferência Mundial sobre Banheiros), entre 31 de outubro e 3 deste mês, e concordaram com a necessidade de se fazer maiores esforços para projetar sanitários que se adaptem aos países em desenvolvimento e para irem além dos sistemas ocidentais voltados à eliminação de dejetos.
“Mais do que banheiros, necessitamos de sistemas de banheiros”, disse o cientista e ex-presidente da Índia A. P. J. Abdul Kalam durante o encontro, organizado em conjunto pela Organização Mundial de Banheiros (WTO), com sede em Cingapura, e a local Organização Internacional de Serviços Sociais Sulabh, que tem apoio do governo indiano. “A tecnologia dos banheiros deve estar voltada para a confiabilidade e um uso mínimo de água”, acrescentou. “Como a fossa céptica, o sistema de latrinas foi usado pela primeira vez em Londres em 1850, devido às milhares de mortes por cólera. Nova Iorque as teve em 1860 e Calcultá em 1870. Agora, 137 anos depois, apenas 232 dos mais de cinco mil centros urbanos da Índia têm uma ligação parcial dos banheiros às latrinas”, disse Bindeshwar Pathak, fundador da Sulabh.
“Está claro que os sistemas convencionais não são uma resposta aos problemas de serviços sanitários do mundo. Não se poderá atingir as Metas do Milênio com latrinas e fossas cépticas”, disse Pathak à IPS. “As latrinas requerem uma custosa infra-estrutura, muita manutenção e grande quantidade de água para que sejam efetivas”, alertou. Embora as fossas cépticas sejam mais baratas, também precisam de manutenção regular e seu conteúdo pode vazar para os lençóis de água, provocando contaminação e infecções, disse Jack sim, presidente da WTO.
Para Carol McCreary, da Associação Americana de Banheiros, os países ocidentais devem deixar de exportar e impor suas soluções às nações em desenvolvimento, que muitas vezes resultam inadequadas e não sustentáveis. É preciso reorientar o enfoque tradicional, voltado para a eliminação de dejetos, para um que tenha como modelo a reutilização, segundo Arne R.Panesar, do programa Ecosan, dedicado à reciclagem de esgoto e sistemas sanitários na Alemanha. Embora a conferência mundial tenha servido para se expor diversas tecnologias que podem ajudar os países pobres onde os banheiros são uma necessidade vital, nem todas são adaptáveis às culturas e práticas locais.
Por exemplo, o banheiro AfriSan, desenvolvido pela empresa Soluções Sanitárias Africanas, e utilizado nos bairros pobres da África do Sul, não emprega água, mas uma pequena quantidade de um tipo de materila orgânico em pó. A energia solar transforma os dejetos em um adubo inodoro que é retirado uma vez por semana, disse Lukas Oosthuizen, da Soluções Sanitárias. Porém, acrescentou, estes banheiros não são aptos para a Índia, onde as pessoas estão habituadas a utilizar água e, portanto, é preciso redesenhá-los. Outra solução de origem africana é o Vacu-tug, uma pequena máquina portátil utilizada para esvaziar vasos sanitários que não usam água e que revolucionou as práticas tradicionais nos bairros pobres do Quênia.
“Já se conseguiu reduzir os tristemente célebres ‘flying toilet’ (sacos de excrementos) que as pessoas usavam e depois jogavam pela Janela”, disse Edigar K. Kairu, que preside o ANEW, um fórum transafricano sobre políticas sanitárias e de uso da água. Porém, o sistema desenvolvido por Pathak há três décadas continua sendo uma das melhores tecnologias, que transformou a vida de milhões de usuários neste país e no exterior. O Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos o reconheceu como a “Melhor Prática Urbana Global”. O sistema utiliza entre 1,5 e dois litros de água em cada descarga de um vaso sanitário que está conectado a duas fossas. São usados dois poços de forma alternativa e um processador de biogás adjunto produz metano a partir dos dejetos. Esse gás pode ser empregado na iluminação e calefação.
Esta é a única tecnologia que atende aos sete pontos estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Estes estipulam que uma latrina não deve contaminar o solo, os lençóis de água ou a água de superfície; os excrementos não devem ser acessíveis a moscas ou animais; não deve haver manipulação de excrementos ou, caso isso seja inevitável, reduzí-la ao máximo; não deve haver odores e os métodos empregados devem ser simples e baratos, tanto para sua construção quanto operação.
Sulabh construiu mais de um milhão destes banheiros na Índia e completou recentemente cinco banheiros públicos pagos em Cabul. “Esperávamos cerca de 300 usuários por dia para que fossem autofinanciáveis, porém, mais de cinco mil pessoas os utilizam, o que garantiu lucro e fontes de trabalho desde o começo”, disse Pathak. Os banheiros portáteis de plástico, desenvolvidos em conjunto por uma empresa britânica e outra indiana, são fabricados na Índia para serem usados durante as Olimpíadas de Pequim 2008.
“Podem ser instalados e retirados em uma hora, e pelo menos cem pessoas podem usar estes banheiros livres de odores antes que seja preciso limpá-los”, disse Bob Macrae, diretor de vendas internacionais da empresa britânica Poly John. “São aptos para grandes festivais religiosos, em casos de desastres naturais, encontros esportivos e, inclusive, nos assentamentos de emergência urbanos da Índia”, acrescentou Prashant Trivedi, da Sintex, a companhia local associada à Poly John.
Embora as novas tecnologias sejam um bom sinal, “têm de chegar às pessoas. Enquanto os beneficiários não virem suas vantagens não pedirão por elas. E até que as pessoas as peçam haverá uma baixa aceitação destas tecnologias’, disse Sushmita Secar, da Força de Tarefas das Nações Unidas sobre Água e Serviços Sanitários. Jon Lane, do Conselho para a Provisão de Água e Serviços Sanitários, com sede em Genebra, considera necessário que o desenvolvimento destas tecnologias deixe de ser subsidiado, tal como ocorre agora, e que encontre seu impulso no mercado. “Cada pessoa usa o banheiro várias vezes ao dia. E 2,6 bilhões de seres humanos em todo o mundo ainda carecem de um. Portanto, devemos considerá-la como uma indústria muito rentável”, disse Panesar.
O informe da OMS e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) sobre o grau de avanço rumo aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio da ONU diz que uma em cada três pessoas no mundo carece de instalações sanitárias adequadas. Mais da metade vive na China e na Índia. América Latina e África também estão atrasadas neste aspecto. (IPS/Envolverde)

