Paquistâo: Pobreza prejudica resistência à ditadura pela Internet

Washington, 15/11/2007 – Cidadãos amordaçados pelo estado de emergência no Paquistão difundem suas queixas e incentivam a resistência onde a ditadura militar não pode impor suas ordens: a Internet. A eficácia do ativismo eletrônico poderá ser avaliada hoje nas ruas. Milhares de advogados – a vanguarda da oposição – foram presos, bem como políticos opositores e ativistas dos partidos. Porém, os estudantes levaram a luta a sites como Facebook, utilizado normalmente para compartilhar na rede de computadores fotos de familiares e amigos.

Grupos como Estudantes por um Paquistão Livre e Estudantes no Exterior Contra a Lei Marcial no Paquistão, entre outros, recorrem à Internet para organizar protestos contra o regime do general Pervez Musharraf, tanto em seu país quanto no Canadá, Estados Unidos e Europa. Porém, a “revolução do teclado” tem um alcance limitado em uma nação extremamente pobre e de maioria rural. Dois terços dos paquistaneses vivem no campo, segundo dados oficiais. Além disso, menos da metade dos 160 milhões de habitantes sabe ler e escrever.

Apenas 12 milhões (7,5% da população) utilizam Internet. Menos ainda são os estudantes, e nem todos têm atividade política. Entre estes últimos, tampouco é certo que os opositores sejam uma clara maioria. Apesar de tudo, os ativistas do ciberespaço podem se transformar em uma preocupação para o governo, precisamente porque seus integrantes são uma “casta superior” majoritariamente urbana. Agências internacionais descrevem o Paquistão como uma das sociedades mais desiguais no mundo. Nesse contexto, os filhos do privilegio e os que aspiram consegui-lo não deveriam ser ignorados levianamente.

Alguns dos opositores que se conectam através da Internet são os líderes empresariais e da tecnocracia do futuro, à espera de sua vez. Os computadores permitiram organizar os protestos simultâneos que estudantes e professores realizaram no dia 7 de novembro nas universidades mais famosas de Islamabad e Lahore, capital da província de Punjab, a mais importante do país. Mais de mil manifestantes suportaram as cacetadas e os gases lacrimogêneos da polícia na escola de negócios de Lahore, segundo relatos divulgados através da Internet. Estudantes das universidades públicas e privadas se preparam para o “Dia Negro” de protestos marcado para esta quarta-feira, quando pretendem exibir cartazes negros e usar braçadeiras ou gorros com essa cor para repudiar a suspensão da Constituição. Outras demonstrações diante das casas de estudos e de mesquitas estão previstas para sexta-feira.

“Durante muito tempo toleramos a ditadura’, disse em seu site o grupo Estudantes pelo Retorno da Democracia no Paquistão. “Permitimos ao ditador burlar a Constituição, ignorar nossos representantes eleitos pelo voto e destruir nossas instituições. Deixamos nos convencerem de que sua presença é necessária para acabar com a corrupção, conseguir a estabilidade e combater o terrorismo”, acrescentou. Agora, prossegue o manifesto estudantil, “os membros deste grupo acreditam que já não há desculpa válida para ignorar a vontade de 150 milhões de pessoas”. Em seus sites na Internet e através de correio eletrônico, os opositores proclamam sua unidade contra o regime, mas na hora de discutir alternativas concretas representam todo o espectro ideológico e partidário. Além disso, não apoiaram nenhum civil que aspire ocupar o governo.

Um exército de blogueiros oferece um constante fluxo de informação sobre atividades planejadas e testemunhos pessoais, bem como fotografias e vídeos que ilustram a repressão e a desobediência civil que gerou. Blogueiros em Tempos de Emergência e outros sites funcionam em aberto desafio aos limites impostos pela ditadura à cobertura dos protestos e ao ativismo antigovernamental. Apareceram novos sites oferecendo aos visitantes acesso direto a notícias divulgadas pela imprensa, imagens e documentos de fontes tanto oficiais quanto clandestinas. Entre eles de destaca o pkpolitics.com, que permite votar em uma enquete sobre “qual setor da sociedade derrubará o domínio draconiano de Musharraf’. Até a noite de segunda-feira, dois mil visitantes haviam respondido “advogados, estudantes, ativistas, outros’. Em segundo lugar, um golpe militar recebeu 449 votos, contra 123 para os partidos políticos e 89 para “os extremistas”.

Nem todos os meios de comunicação paquistaneses mantiveram silêncio. Embora o governo tenha interrompido suas transmissões ou impostos severas restrições, a robusta imprensa independente do país – escrita e eletrônica – persevera apesar das ameaças pessoais aos seus proprietários e diretores. Os principais canais via satélite e a cabo, Aaj e Geo, encontraram formas para contrabandear seus programas para Dubai, onde os coloca na Internet para que possam ser vistos no Paquistão e no resto do mundo. A venda de antenas para captar transmissão via satélite aumentou notavelmente, e os esforços do governo para evitar isso tem tido escasso êxito. (IPS/Envolverde)

Abid Aslam

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