Energia: A falta de sentido do petróleo livre e etanol protegido

Rio de Janeiro, 26/11/2007 – É inaceitável o protecionismo no comércio de combustíveis renováveis quando o mercado é livre para os contaminantes e caros hidrocarbonos, afirma nesta entrevista Marcos Sawaya Jank, presidente da organização dos produtores de açúcar e etanol mais competitivos do mundo. Jank preside a União da Agroindústria Canavieira do Estado de São Paulo (Unica), interessada na criação, o mais rápido possível, de um mercado internacional livre para o biocombustível.

Agrônomo e doutorado em economia, Jan fundou em 2003 e presidiu por quatro anos o Instituto de Estudos de Comércio e Negociações Internacionais (Ícone), que assessora o governo e o agronegócio brasileiros em questões comerciais da área agrícola. Como presidente da Unica desde junho, enfrenta o desafio de impulsionar o novo grande negócio da agricultura, a energia renovável, o que exige derrubar obstáculos como subsídios e tarifas alfandegárias proibitivas, erguidos principalmente pelos Estados Unidos.

IPS – Que sentido tem os subsídios concedidos pelos Estados Unidos à sua produção de etanol de milho com os preços atuais do petróleo e quando se negocia a redução do protecionismo agrícola na Organização Mundial do Comércio?

Marcos Sawaya Jank – Estamos contra os subsídios por acreditarmos que não necessitam desse tipo de incentivo para crescer. Não tem sentido subsidiar o milho, isto é, o etanol, quando o preço do petróleo é tão alto quanto o atual. É inaceitável um mercado de combustíveis renováveis fortemente protegido, enquanto o de combustíveis fósseis é totalmente livre. Por isso lutamos por uma conclusão bem sucedida da Rodada de Doha (de negociações na OMC) e pelo respeito às regras e disciplinas do sistema multilateral de comércio.

IPS – É possível questionar os subsídios norte-americanos ao etanol na OMC?

MSJ – Essa é uma decisão estratégica que cabe ao governo brasileiro, e a decisão final da OMC se basearia em limites já acordados para os subsídios, como ocorreu no “painel do açúcar” (que em 2005 condenou os subsídios europeus à exportação desse produto). Devemos, entretanto, recordar que “questionar” apenas para fazer barulho não resolve o problema fundamental.

Por isso a Unica desenvolve uma estratégia para estimular o aumento sustentável da produção e o consumo do etanol na maior quantidade de países, apoiando mecanismos obrigatórios de mistura (à gasolina) e definindo padrões universais para o produto. Também insistimos nas vantagens comparativas de produtividade, custo e equilíbrio energético e ambiental do etanol de cana-de-açúcar diante de outras matérias-primas. Por isso o etanol brasileiro é competitivo e poderá ter uma expansão apesar dos subsídios praticados em outros países.

IPS – A inclusão do etanol entre os bens ambientais, como quer o Brasil, não justificaria tais subsídios, embora eliminando as tarifas sobre a importação?

MSJ – em primeiro lugar, a idéia de negociar bens ambientais na OMC busca liberar o comércio, isto é, a eliminação de impostos de importação. O que se acordou até agora é fazer uma lista de produtos que seriam considerados bens ambientais e, para o Brasil, o etanol seria candidato natural a essa lista. Existem políticas para estimular a demanda, como a mistura obrigatória e a isenção de impostos para tornar o etanol mais competitivo em relação à gasolina. Não consideramos tais políticas como subsídios, mas como iniciativas necessárias à criação de mercado.

Do lado da oferta, as políticas existentes distorcem o mercado, sobretudo quando buscam proteger o produto domestico da competição internacional. Nesse caso, podemos identificar como subsídios as tarifas alfandegárias para se proteger do produto importado e que não permitem que o estrangeiro tenha acesso à demanda que está sendo criada, os estímulos financeiros exclusivos ao produtor domestico para dar-lhe competitividade perante os estrangeiros (como crédito barato para investir, garantias de crédito, etc) e as subvenções diretas à matéria-prima não necessariamente destinada ao etanol. Nos Estados Unidos há fortes subsídios ao milho, por exemplo, sem importar se é usado para produzir álcool combustível ou outros produtos.

Se for obtido um acordo sobre bens ambientais, eliminando as tarifas alfandegárias, não se solucionará o problema dos estímulos financeiros exclusivos nem das subvenções diretas, mas, pelo menos, permitirá o acesso do produtor estrangeiro ao mercado do país que está estimulando a demanda e se ajudará a reduzir o nível dos subsídios. O ideal seria eliminar todo tipo de subsidio para incentivar o crescimento sustentável da produção e do consumo de etanol no maior número de países.

IPS – É sustentável a política norte-americana de apoio ao etanol de milho para quintuplicar a oferta até 2017, considerando as reações provocadas pela alta dos preços dos alimentos, a insegurança alimentar no mundo e a baixa eficiência energética desse grão?

MSJ – Os Estados Unidos compreendem bem que o crescimento do mercado de etanol deve caminhar de forma sustentável, com se faz no Brasil. A proposta, tanto do presidente George W. Bush quando do projeto de lei que tramita no Congresso, limita o álcool de milho a 15 bilhões de galões por ano, o dobro do produzido atualmente e que a maioria dos analistas prevê como possível sem grandes impactos.

O restante da demanda seria atendido com “biocombustíveis avançados”, como o etanol de celulose e de cana-de-açúcar. Os Estados Unidos investem milhares de milhões de dólares em pesquisas para desenvolver essas novas formas de produção, porque reconhecem as limitações do milho. Sobre a insegurança alimentar, vale a pena ler a carta que a Uica e outras instituições entregaram ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas (negando a culpa do etanol). Em resumo, como demonstrou há 10 anos Amartya Sem, ganhador do Nobel de Economia, a fome não é resultado da produção insuficiente de alimentos, mas da baixa renda e do desemprego, que limitam o acesso aos alimentos.

IPS – Que impacto têm os subsídios norte-americanos no desestimulo à produção de etanol de cana no Caribe e na América Central, apesar de serem regiões beneficiadas por isenções alfandegárias nos Estados Unidos?

MSJ – Essas regiões têm grande potencial para a produção de cana e outras plantações. Por isso o memorando de entendimento entre Brasil e Estados Unidos estabelece que nossos governos trabalhem juntos para identificar as melhores formas e os melhores cultivos que aproveitem essas potencialidades.

IPS – Quais razões estratégicas justificariam tanta proteção ao etanol norte-americano, especialmente contra a competição brasileira, se a intenção é reduzir a dependência do petróleo do Oriente Médio?

MSJ – Ao Estados Unidos interessa uma produção doméstica de biocombustível como forma de reduzir a dependência petrolífera, mas, também tem interesse em promover o desenvolvimento rural do meio-oeste desse país. Embora discorde do nível de seu protecionismo, posso compreendê-lo do ponto de vista de sua política interna. Nosso papel e interesse é ampliar o alcance dos biocombustíveis em todo o mundo. O objetivo especifico é converter o etanol em um “commodity” (produto básico) mundial. Juntos podemos incrementar a produção de maneira sustentável e colaborar para ampliar as oportunidades e a aceitação de tais produtos.

IPS – O protecionismo no caso do etanol não enfraquece as posições norte-americanas e européias na OMC?

MSJ – efetivamente, a tarifa de US$ 0,54 por galão, mais de 2,5% ad valorem, imposta ao etanol importado nos Estados Unidos é alarmante. A imprensa mundial nos ajuda mundo a demonstrar a irracionalidade desse protecionismo diante de um petróleo livremente comercializado no mundo. Mas, reduzir tarifas alfandegárias sem aumentar a demanda por etanol, isto é, reduzir o consumo de petróleo, não leva a nada. A Unica atua para estimular o aumento sustentável da produção e do consumo de etanol em muitos países, apoiando sua mistura obrigatória à gasolina e normas universais para o produto.

IPS – Essa proteção não desmente a intenção norte-americana de atribuir ao Brasil o fracasso da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).

MSJ – As duas partes têm culpa, mas, são águas passadas. O Brasil precisava avançar mais rapidamente nas negociações regionais e bilaterais, especialmente com Estados Unidos e União Européia, infelizmente paralisadas em contraste com a enorme rede de acordos que se disseminam pelo mundo, entre os principais países desenvolvidos e as economias emergentes. (IPS/Envolverde)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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