Politica: Agências de inteligência desmentem Bush

Washington, 07/12/2007 – A nova avaliação do programa nuclear do Irã por agências de inteligência dos Estados Unidos contradiz as alegações do governo de George W. Bush sobre a intenção de Teerã em adquirir um arsenal atômico. A Estimativa Nacional de Inteligência (NIE) destacou o vínculo entre a decisão iraniana de suspender suas pesquisas sobre desenvolvimento de armas nucleares em 2003 e sua vontade de negociar com chanceleres europeus seu programa atômico e temas de segurança.

“Podemos afirmar com alto grau de confiança que no outono de 2003 o Irã suspendeu seu programa de armas nucleares e que essa interrupção se manteve por vários anos, no mínimo”, diz o informe, divulgado esta semana. “Não sabemos se atualmente tenta desenvolver armas atômicas”, acrescentou o NIE. Este julgamento confirma o que o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohammed El Baradei, e outros especialistas dizem desde 2004: que o Irã não está interessado na posse desse tipo de armas, mas no poder dissuasivo que lhe confere o domínio do ciclo de combustível nuclear. O jornal The Washington Post revelou na terça-feira que o governo norte-americano recebeu esta informação em julho.

Alguns dos principais assessores de Bush disseram que as conversações entre oficiais militares iranianos, interceptadas com meios eletrônicos, que eram parte importante da nova evidência, constituíam “uma astuta campanha de desinformação” montada por Teerã, acrescentou. Essa intervenção do governo obrigou os analistas das agências de inteligência a defenderem durante meses sua interpretação dos novos dados, disse The Washington Post. A NIE havia sido concluída no outono de 2006,mas foi reescrita três vezes devido à pressão exercida pelo vice-presidente, Dick Cheney.

Esta nova avaliação de inteligência é um golpe para as ameaças do governo Bush de usar a força contra o Irã e sua insistência para que esse país suspenda suas atividades de enriquecimento de urânio como pré-requisito para o início de negociações. O conselheiros de segurança nacional, Stephen V. Hadley, admitiu que agora muita gente acreditará que o problema não é tão grave como se pensava. Em uma tentativa para limitar o danoprovocado pela NIE à política governamental para o Irã, Hadley disse que o estudo “sugere que o presidente siga a estratégia correta: intensificar a pressão internacional acompanhada pela vontade de negociar uma solução”.

Mas a estimativa de inteligência dá a entender que a decisão iraniana de suspender seu programa de armas nucleares não foi conseqüência de pressões e ameaças. Assim, segundo especialistas, Washington deveria contemplar os interesses políticos e de segurança do Irã. Um elemento-chave no campo diplomático foi, no outono de 2003, a decisão de Alemanha, França e Grã-Bretanha de negociar com Teerã um acordo sobre segurança em troca da suspensão voluntária das atividades de enriquecimento de urânio. O secretário do Conselho Supremo de Segurança Iraniana, Hassan Rowhani, um conservador moderado, revelou em discurso feito em 2004 que o assunto foi objeto de grandes discrepâncias dentro do governo de seu país.

Alguns conservadores condenaram a idéia de cooperar com a AIEA e aceitar inspeções mais rigorosas como “um ato de traição”, segundo Rowhani. Também rejeitaram as tentativas de chegar a um acordo com Alemanha, França e Grã-Bretanha. Os moderados, entretanto, estavam dispostos a abrir o programa nuclear às inspeções da AIEA e a negociar com as nações européias. Ao que parece, acreditavam que esse curso de ação requeria abandonar as pesquisas sobre desenvolvimento de armas nucleares. Wowhani destacou que manter o programa nuclear em segredo ficara impossível, pois os Estados Unidos já sabiam, por informes procedentes da Líbia, das aquisições de tecnologia nuclear realizadas pelo Irã.

O fato mais importante desse período foi a assinatura, em 21 de outubro de 2003, do acordo entre Teerã e os três países europeus, pelo qual renunciou à aquisição de armas atômicas e ao enriquecimento de urânio. Os chanceleres de Alemanha, França e Grã-Bretanha se comprometeram a “cooperar com Teerã para promover a segurança e estabilidade na região, incluindo o estabelecimento de uma zona livre de armas de destruição em massa no Oriente Médio, de acordo com os objetivos da Organização das Nações Unidas”. O governo Bush se opôs a esta iniciativa européia. Sua intenção era aplicar sanções a Teerã através do Conselho de Segurança da ONU.

Bonn, Paris e Londres alcançaram outro acordo com Teerã em novembro de 2004, no qual esse país se comprometia a oferecer “garantias objetivas” em relação ao caráter “exclusivamente pacifico” de seu programa nuclear. Mas os europeus começaram a dar marcha-à-ré pela pressão norte-americana. Porém, a nova evidência segundo a qual o Irã abandonou suas pesquisa sobre desenvbolvimento de armas nucleares nessa época confirma que o enfoque original era o correto. Paul Pillar, ex-funcionário de inteligência que dirigiu vários NIE sobre o Irã, disse à IPS considerar “provável” que a decisão de deixar de lado essas pesquisas fosse parte de uma estratégia mais ampla, no sentido de obter benefícios em matéria de segurança em troca de uma suspensão do programa de enriquecimento de urânio. (IPS/Envolverde)

* Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. “Perigo de domínio: desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã”, seu último livro, foi publicado em junho de 2005.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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