Rio de Janeiro, 21/12/2007 – Prisões brasileiras vivem atualmente uma experiência cultural que contempla a exibição de filmes, apresentação de grupos musicais e abertura de bibliotecas como forma de atacar os males causados pelas precárias condições de reclusão. “Creio que no momento o que conseguimos é reduzir danos. Porque sabemos que lutamos contra um sistema muito cruel”, disse à IPS o rapper Marcelo Yuka, que prefere definir arte “como um espelho da sociedade”. Mas, “se conseguirmos que o preso leia, se despertarmos nele pelo menos isso, teremos mais chance de que ao sair da prisão tenha outra referência de vida”, acrescentou Yuka, ao rechaçar a idéia de que este tipo de projeto contribui para ressocializar o preso.
Para Yuka, essa postura é pretender “levar novamente o preso para a sociedade” sem antes perguntar “para qual tipo de sociedade? A sociedade que o pôs ali dentro?”, pergunta o músico. Dados oficiais indicam que o sistema penitenciário do Brasil abriga mais de 420 mil presos, amontoados em 1.052 estabelecimentos com capacidade total para aproximadamente 262 mil pessoas. Uma situação que leva a um grande número de motins e rebeliões. Yuka afirmou que, embora ainda seja presunçoso falar de resultados, nas prisões do Rio de Janeiro onde o projeto é realizado diminuiu o número de mortes e rebeliões de presos.
“A meu ver, o que precisamos fazer é ocupar à áreas onde a violência tem mais incidência com educação e cultura, e não combater a violência à bala. Porque isso deixa a população em meio a um fogo cruzado”, disse Yuka. “Se conseguirmos despertar em um preso um ponto de vista diferente através do cinema, já teremos modificado um pouco a sociedade”, afirmou, acrescentando que “as pessoas se esquecem que o preso um dia vai ser solto e que pode sair pior do que entrou na prisão. Creio que para voltar é preciso voltar em outro clima, com ferramentas para encarar a sociedade de outra maneira, porque se for da mesma maneira como entrou na prisão, voltará duas ou três vezes”, ressaltou.
Yuka, que sempre foi um ativista pela paz, ficou paraplégico há seis anos quando, ao tentar salvar uma mulher de um assalto, foi atingido por seis disparos. Mas, desde sua cadeira de rodas continua uma militância social que começou com letras críticas em sua primeira banda, O Rappa, e que agora se estende a várias atividades culturais e de denúncia. “Creio que é mais fácil e mais forte aprender pela dor. Mas, por isso mesmo, prefiro aprender pelo amor. É uma coisa muito diferente. Meu aprendizado mais importante não foi por essa fatalidade na minha vida, mas a partir da sensibilidade que sempre tive como artista”, explicou.
Atualmente no grupo Furto, longe de querer vingança pelo crime que mudou sua vida, Yuka diz ter fortalecido seus conceitos sobre como combater contra a violência. “Se eu pudesse fazer com que eles pagassem por esse crime seria justo. Mas, creio que devemos combater a violência de uma forma muito mais moderna e inteligente, dando oportunidades às camadas mais pobres da sociedade, porque, na realidade, nosso país é extremamente injusto econômica e socialmente”, afirmou.
Esse caminho ele tenta através de uma ONG chamada Boca. Entre outras ações, apóia a iniciativa do também compositor Rafael Kallil, chamada “Caravana Liberdade e Expressão”, que também leva grupos musicais às prisões. Falar de “liberdade de expressão” seria falso, diz Kallil, porque nas prisões não há liberdade de expressão. Por isso prefiro chamar o projeto de “liberdade e expressão”, disse à IPS. A proposta de levar grupos musicais aos presídios surgiu deste artista diante da necessidade de fazer algo mais do que protestar através das letras das musicas. Precisávamos algo mais incisivo e por isso decidimos tocar nos presídios”, explicou.
No início apenas se apresentavam e iam embora, “mas a rotina da prisão continuava”. Por isso Kallil e seu grupo decidiram começar a deixar livros e arrecadar fundos para ampliar as bibliotecas. A iniciativa, segundo seus criadores, não busca grandes objetivos ou milagres, mas pretendem algo parecido em termos políticos. Embora os músicos ainda não tenham conseguido uma participação conjunta dos integrantes das facções de narcotraficantes rivais, que estão presos em locais separados para evitar trágicos enfrentamentos, conseguiram outras pequenas vitórias.
Yuka destacou, por exemplo, que conseguiram exibir filmes abordando o tema de alguma facção do narcotráfico, a públicos de detentos pertencentes a máfias contrárias. “É um processo lento, mas vamos conseguir”, disse, entusiasmado. Uma luta contra um sistema que define como cruel, tanto “dentro quanto fora dos presídios”. Yuka prefere não falar de uma guerra urbana, porque a que vive seu Estado (Rio de Janeiro) é uma “guerra sem fundamento ideológico, uma guerra pelo espaço, pelo poder, pelo dinheiro”, afirma. O músico considera, ainda, que a música também é um caminho para combater essas guerras “sem conteúdo”. Será uma utopia?, perguntou. “Creio que, por insistir, há certas utopias que podem se tornar realidade”, concluiu o músico. (IPS/Envolverde)

