México, 21/12/2007 – No próximo ano serão feitas as primeiras semeaduras experimentais de milho geneticamente modificado no México, anunciou um funcionário do governo. A notícia deixou em alerta organizações ambientalistas e de camponeses, que ainda têm a esperança de que isso não aconteça. O país sofrerá um duro golpe cultural, ambiental e econômico se for permitido o cultivo de espécies sintéticas, afirmam os opositores. Na margem contrária, as empresas que vendem transgênicos e alguns cientistas afirmam que não se deveria temer a experimentação e confiam que esta demonstrará o lado bom da tecnologia.
O coordenador de Assuntos Internacionais do Ministério da Agricultura, Victor Villalobos, informou a jornalistas locais que as autorizações estão prontas. Além disso, a IPS soube que entre as empresas promotoras dos transgênicos existe a certeza de que finalmente serão aceitos seus pedidos de experimento, já rejeitados em três ocasiões nos últimos dois anos. Silvia Ribeiro, porta-voz na América Latina da organização não-governamental Action Group on Erosion, Technology and Concentration (Grupo de Ação sobre Erosão, Tecnologia e Concentração), disse à IPS que no caso de se concretizar a plantação as autoridades enfrentarão uma “resistência social enorme”. Disse, também, que os opositores a essa prática ainda têm a esperança de que as autorizações não sejam concedidas.
Villalobos, que não esconde sua simpatia pela produção agrícola com transgênicos, já informou no passado que o milho com genes modificados será plantado muito em breve no México, mas isso nunca aconteceu, recordou a ativista. “O governo não convocou nenhum diálogo sobre o assunto”, disse Ribeiro. Entretanto, “pode acontecer que finalmente imponha os transgênicos, pois sabemos que simpatizam com eles, o que seria terrível para o México”, disse a porta-voz, cuja ONG tem sede no Canadá.
A possibilidade de plantar milho transgênico no México, mesmo de modo experimental, deixa de cabelo em pé os opositores a essa tecnologia. É que neste país o milho tem elevado consumo e um peso cultural enorme, pois foi aqui que foi domesticado há nove mil anos. o México tem uma produção anual de 19 milhões de toneladas de milhos em uma área de 8,5 milhões de hectares. Mais de três milhões de camponeses locais, em sua maioria pobres, se dedicam a esse cultivo com sementes criollas ou melhoradas através de métodos distantes da manipulação genética direta, que é própria dos transgênicos.
O vizinho dos Estados Unidos, onde se cultiva milho transgênico e também o tradicional, as plantações desse grão ocupam 32 milhões de hectares e sua produção supera os 30 milhões de toneladas. O México compra desse país quantidades enormes para suprir seu déficit. Nessas compras, grupos ambientalistas denunciam que também chega o milho transgênico e que as autoridades nada fazem para evitá-lo. Em 2001 se descobriu em vários Estados mexicanos plantações com rastros de milho transgênico, apesar de o cultivo dessa espécie estar expressamente proibido por lei. A tese dos cientistas e de que os camponeses o cultivaram por acidente.
A descoberta gerou um agitado debate entre ativistas e cientistas, pois não há evidência nem estudos concludentes indicando qual seria o efeito dos transgênicos em um ambiente rico em biodiversidade como o mexicano. Além disso, os ativistas denunciam que as multinacionais submetem os agricultores a um tipo de escravidão, pois os obriga por contrato a apenas cultivarem suas sementes originais e os proibi de retirar novas sementes das colheitas que fazem. Para os agricultores mexicanos mais pobres esse tipo de acordo é estranho, pois estão acostumados a obter sementes de suas colheitas e inclusive trocá-las com seus vizinhos.
A transnacional Monsanto, que domina amplamente o mercado mundial de sementes transgênicas, luta há vários anos para poder pelo menos experimentar no México seu milho sintético, o que estaria prestes a acontece pelas declarações do coordenador de Assuntos Internacionais do Ministério da Agricultura. Na medida em que se gera informação científica há possibilidade de demonstrar que o milho transgênico é mais produtivo que o tradicional e que não representa nenhum perigo para o meio ambiente, afirma a Monsanto, que há vários anos vende no México fertilizantes e sementes tradicionais. Silvia Ribeiro denunciou que o experimento que se pretende realizar no México com milhos transgênico não terá resultados úteis. “Se cultivará em ambientes fechados, por isso não oferecerá dados que indiquem seu impacto no meio ambiente real”, explicou. “Multinacionais como a Monsanto apenas querem justificar suas demandas e impor o milho transgênico ao México a qualquer preço”, acrescentou.
Ativistas sociais e camponeses alegam que os transgênicos são perigosos para a saúde e um instrumento de dominação das transnacionais, porém, estas respondem que suas sementes já são plantadas em milhões de hectares no mundo seu causar problemas e que seu interesse não é escravizar ninguém. O cientista mexicano Luis Herrera, considerado um dos país da biogenética, afirma que, apesar de todo o debate em curso, a introdução dos transgênicos é irreversível no mundo e no México.
Organizações de agricultores do norte do México, que reúnem os camponeses de maiores recursos econômicos do país, cobram do governo de Felipe Calderón a aprovação do uso de transgênicos rapidamente, pois entendem que isso permitirá produzir mais e adaptá-lo a diversas condições de cultivo. Segundo as tradições pré-hispânicas, o milho foi usado pelos deuses para fazer o primeiro homem na Terra. Agora, seu parente saído dos laboratórios, o transgênico, chegará com autorização oficial ao México, a terra que domesticou este grão. (IPS/Envolverde)

