Brazzaville, Congo, 11/01/2008 – O medo está estampado no rosto de Sylvie Bakani*, que espera, junto com outras mulheres grávidas, sua vez para realizar exames clínicos no Centro de Saúde de Bissita, em Brazzavile. Sylvie é portadora do vírus HIV, causador da Aids. “O médico pediu o exame na primeira vez que a viu, com três meses de gravidez. Quando soube do resultado, o marido a colocou para fora de casa e a tratou como prostituta. Com o tempo recobrou sua coragem. Agora vem diariamente”, disse à IPS Eugénie Mbondji, mãe de Sylvie.
Esta situação resume os problemas que enfrentam os que incentivam as grávidas do Congo a realizarem o exame que detecta o vírus da deficiência imunológica humana (HIV), para impedir que o transmitam aos seus bebês. “Apesar das campanhas públicas, menos de 60% concordam em fazer o exame durante as consultas pré-natais”, disse Jean Angouono Moke, que dirige os esforços para prevenir a transmissão do HIV de mãe para filho neste país da áfrica ocidental. Nos casos em que são feitos os exames e o resultado dá positivo, as mulheres são ameaçadas pelos seus maridos. Têm medo”, acrescentou. Algumas também temem ser estigmatizadas por suas comunidades.
“Estou grávida de cinco meses, mas não quero fazer o exame. Prefiro que o HIV se revele no parto. Não poderia suportar a gravidez sabendo que sou portadora, por causa da reação do meu marido e de sua família”, contou Mélanie Mbioka, uma jovem professora de Brazzaville. Erradicar toda transmissão de mãe para filho representa enormes desafios, disse Moke. “Mas, queremos reduzí-la. Aqui ainda chega a 6,2%”, afirmou. Aproximadamente 400 mulheres grávidas portadoras foram recebidas em 2006 nos centros de saúde do país, em sua maioria em Brazzaville e Pointe-Noire, cidade portuária que também é a capital econômica do país, explicou.
Quase cem médicos e mais de duzentas enfermeiras foram treinados para atender as mulheres grávidas portadoras de HIV. O Centro para o Tratamento Móvel em Brazzaville iniciou no ano passado um serviço que cuida da transmissão de mãe para filho, já que esses casos são em grande quantidade. Além disso, começou a trabalhar para construir um edifício que abrigue serviços de maternidade para mulheres com HIV, financiado pela Cruz Vermelha francesa. Jedannine Obosso, mãe portadora que consulta os técnicos de saúde do hospital de Talangaï, em Brazzaville, recomenda que se faça o exame durante a gravidez. “Se são portadoras, os médicos as tratarão”, explicou. Mas, prevenir a transmissão pode ser caro.
O tratamento anti-retroviral que impede o desenvolvimento da Aids aos portadores de HIV é gratuito no Congo desde janeiro de 2007. Mas, o exame as grávidas ainda precisam pagar. Alguns custam até US$ 60. Este valor esta muito além do alcance de muitos habitantes do Congo. Neste país, 51% da população vivem com menos de um dólar por dia, segundo estudo do governo divulgado em julho passado. O Banco Mundial situou essa porcentagem em 70% há três anos. O site do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Onusida) calcula que no Congo existe uma prevalência do HIV entre adultos da ordem de 5,3%.
* Alguns nomes foram mudados para proteger as envolvidas.

