México, 10/01/2008 – A guerrilha zapatista e seus simpatizantes assentados no Estado mexicano de Chiapas suportam a maior investida do Estado dos últimos 10 anos, ignorada por quase todos neste país, denunciou o não-governamental Centro de Análise Política e Pesquisas Sociais e Econômicas (Capise), de Chiapas. “Acabamos de resgatar, ontem mesmo, na região zapatista um indígena base de apoio da guerrilha ferido a bala por paramilitares. A situação é grave”, disse à IPS Ernesto Ledesma, diretor do Centro.
Segundo o Capise, que há cinco anos mantém brigadas que registram os movimentos militares em territórios de influência do insurgente Exército Zapatista de Libertação Nacional, nas ultimas semanas foi detectada uma crescente presença de soldados e ação concertada com grupos paramilitares. Além disso – segundo o Centro – instituições agrárias realizaram uma “irregular” divisão das terras que foram ocupadas por indígenas quando o EZLN pegou em armas, em janeiro de 1994.
Estão entregando títulos de propriedade referentes a cerca de 250 mil hectares, discriminando todos os simpatizantes zapatistas, afirmou Ledesma. “Como não ocorria desde 1998, cerca de 30 comunidades zapatistas estão submetidas a fortes pressões militares, paramilitares e de autoridades com a intenção, supomos, de reduzir a força do EZLN”, disse o diretor do Capise. O Centro de Direitos Humanos Fray Bartolomé de lãs Casas também denunciou há alguns meses que a situação nas áreas zapatistas é grave devido à crescente presença militar e de grupos indígenas contrários à guerrilha.
Uma fonte do governo do conservador Felipe Calderón, que não quis se identificar, disse à IPS da sua surpresa com a informação procedente de Chiapas e garantiu que o Poder Executivo não tem uma estratégia de pressão ao zapatistas, que não dispararam um único tiro desde a segunda semana de 1994. As autoridades de Chiapas, lideradas pelo governador Juan Sabines, do esquerdista Partido da Revolução Democrática, tampouco informaram sobre mudanças de situação na área, enquanto legisladores e ativistas sociais mostram desinteresse pela outrora famosa guerrilha.
Ledesma afirmou que na segunda-feira percorreu zonas de Chiapas nas quais, junto com alguns colaboradores, conseguiu resgatar um indígena ferido a bala e perseguido por grupos que identificou como sendo de paramilitares, por um conflito de terras. “Aqui há uma articulação direta de paramilitares (que também são indígenas) com policiais, militares e autoridades, que tem o propósito de atacar os zapatistas”, afirmou o diretor do Capise. Uma das primeiras ações do ex-presidente Vicente Fox (2000-2006) foi ordenar a retirada do exército das imediações de zonas guerrilheiras, mas, organizações de direitos humanos afirmam que se tratou apenas de uma recolocação estratégica.
A partir de 2001, quando os delegados do EZLN chegaram à capital entre aplausos de centenas de milhares de pessoas para pedir a aprovação de uma lei sobre direitos e cultura indígenas, a guerrilha foi perdendo presença no cenário político, e seu líder, o subcomandante Marcos, se distanciou da esquerda e dos intelectuais que o apoiavam. Em 2006 e 2007, Marcos percorreu desarmado o país, com autorização do governo, realizando “A outra campanha”, uma tentativa de aglutinar forças políticas não eleitorais e pressionar pela redação de uma nova constituição. Mas, seu esforço passou quase despercebido para a maioria dos mexicanos.
Antes de finalizar o ano, Marcos anunciou que regressava aos seus redutos em Chiapas e que não voltaria a sair nem a falar até uma data não determinadal. Também alertou que o EZLN responderia a qualquer ataque. Há 14 anos, milhares de mexicanos se mobilizaram contra os ataques do exército à guerrilha, o que derivou na formulação de uma lei de pacificação. Mas, agora, ninguém parece reagir diante da informação de que ocorre uma investida do Estado contra a insurgência. “A situação em Chiapas é grave e a violência aumenta. Isto deve ser conhecido”, disse Ledesma.
Informes do governo Fox, apoiados por vários pesquisadores, indicam que o EZLN controla administrativa e politicamente 15% de Chiapas, de 76.634 quilômetros quadrados de extensão. Nessa zona, onde não chegam os programas sociais do governo, vivem cerca de cem mil pessoas, a grande maioria de indígenas pobres e marginalizados, como ocorre com as populações originarias do resto do país. Ali haveria cerca de cinco mil homens, em geral mal armados, que constituem as bases militares do EZLN. Porém, o zapatismo abandonou toda ação ofensiva.
O Capise afirma que a autonomia indígena na região zapatista é um fato e assegura que ali funcionam programas de saúde, educação e desenvolvimento próprios, mas, está cada vez mais ameaçada pelas presenças militar e paramilitar e também pela pressão de camponeses contrários à insurgência. (IPS/Envolverde)

