Economía: Às portas da recessão, e sem esperanças

Genebra, 10/01/2008 – Desta vez não há uma notícia boa e outra ruim nos prognósticos da Organização das Nações Unidas sobre a economia mundial. As duas são adversas, embora com diferenças acentuadas, pois a mais benigna prevê uma queda moderada do crescimento, enquanto a outra antecipa a temível recessão, partindo dos Estados Unidos. Na primeira versão, a previsão inicial das agências especializadas da ONU indica um crescimento da economia mais moderado este ano, de 3,4%. Isso significa que prosseguirá a tendência à baixa dos índices de 3,9% em 2006 e de 3,7% no ano passado.

Partindo desse ponto, as posições dos países em desenvolvimento e das economias em transição parecem as menos comprometidas, pois no primeiro caso seu crescimento previsto diminuirá de 6,9% em 2007 para 6,5% neste ano. Dentro desta categoria, os países menos avançados constituem uma exceção, pois o informe da ONU lhes atribui um crescimento de 6,7% em 2007 e prevê para este ano 6,9%. Confirmada esta projeção, as 50 nações mais pobres do mundo serão o único setor florescente no período que apenas começa.

Quanto às economias em transição, que compreendem a Europa do sudeste e a Comunidade de Estados Independentes (CEI, formada pelas nações que integravam a União Soviética) se expandiram 8% no ano passado e manterão um crescimento de 7,1% em 2008. As perspectivas mudam radicalmente com a segunda versão sustentada pela própria ONU e que pinta um quadro de recessão, como um foco localizado nos Estados Unidos e um detonador atribuído à depreciação do dólar e ao agravamento da crise imobiliária norte-americana.

Nesse caso, e segundo um modelo elaborado pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais (Desa) das Nações Unidas, uma das agências co-autoras do informe, em lugar dos 3,4% previstos na estimativa original, o crescimento mundial chegaria apenas a 1,6%. O grosso das nações industrializadas cresceria apenas 0,5%, em lugar dos 2,2% previstos. Da mesma forma, as previsões para os países em desenvolvimento diminuirão de 6,5% para 4,2%, e as das economias em transição de 7,1% para 5%.

No primeiro epicentro, nos Estados Unidos, deixaria de crescer os 2% estimados originalmente para cair em cifras negativas, com menos de 0,1% para 2008. De acordo com este modelo, “nos encontramos em uma inflexão do ciclo econômico”, descreveu Heiner Flassbeck, diretor da divisão de globalização e estratégias de desenvolvimento da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), outra agência co-autora do informe, junto com as cinco comissões econômicas regionais da ONU, da África, Europa, América Latina e Caribe, Ásia e Pacifico e Ásia ocidental.

Nessas condições, que Flassbeck apresentou como “o cenário pessimista”, a queda do dólar e do setor habitacional precipitariam um ajuste abrupto dos desequilíbrios mundiais, que traria em paralelo a recessão nos Estados Unidos e também uma brusca paralisação no conjunto da economia mundial. Alfredo Calcagno, economista da Unctad, observou que os paises vizinhos dos Estados Unidos sentirão as conseqüências mais graves da recessão, como no caso das nações da América Central e do caribe, mas, em particular, o México, disse à IPS.

Os economistas da Unctad evitam conjeturar sobre os prazos em que serão sentidos os efeitos da recessão. O dólar já caiu nos mercados de divisas internacionais até quase 20%, explicou Calcagno. E a moeda norte-americana ainda pode desvalorizar em uma porcentagem semelhante, uma das condições do modelo para que ocorra a etapa recessiva. Mas, é impossível prever, por exemplo, que essa derrocada vá acontecer no mês que vem ou nos próximos três meses, acrescentou.

Um comportamento parecido pode ter a atividade imobiliária dos Estados Unidos, já contraída em 16%, segundo as estimativas iniciais. A tendência dos investimentos em propriedades residenciais antecipa uma queda acima de 30% para este ano. Esses dois fenômenos, a depreciação do dólar e o agravamento da crise imobiliária, somadas à inter-relação entre os dois elementos, criarão, segundo o modelo, as condições para a recessão, disse Calcagno.

Também no comércio mundial serão sentidos de maneira acentuada os efeitos negativos de uma recessão nos Estados Unidos. Na realidade, o crescimento dos intercâmbios internacionais já mostrou uma flexão nos últimos meses, depois de um índice de 9,9% de incremento em 2006 caiu para 7,2% no ano passado, e a estimativa inicial lhe atribui uma alta de 7,1% em 2008. A causa principal dessa reversão da tendência foi o enfraquecimento da demanda importadora das nações industrializadas, disse Flassbeck.

Uma faixa do comércio internacional, a de produtos básicos, ainda atravessa um período de auge que redundou em ingentes benefícios para as nações em desenvolvimento exportadoras desses itens. Entretanto, caso se instale o cenário pessimista desenhado pelo Desa, os preços dos produtos básicos cairão, afetando as perspectivas de crescimento de numerosos paises em desenvolvimento, ressaltou Calcagno. Por sua vez, Flassbeck destacou a necessidade de a comunidade internacional adotar ações políticas concertadas para enfrentar a crise.

A reação deve ser esperada não apenas dos Estados Unidos, a economia mais ameaçada, mas também da Europa e do Japão. Porém, o especialista da Unctad lamentou as disputas entre os integrantes da junta de administração do Banco Central Europeu na hora de discutir as modificações das taxas de juros. Os economistas das agências da ONU estimam que à luz dos últimos acontecimentos, como as turbulências financeiras internacionais e a até insolúvel crise hipotecária dos Estados Unidos, a cada dia são mais possíveis as perspectivas de que se concretizem as previsões mais pessimistas durante este ano. (IPS/Envolverde)

Gustavo Capdevila

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