Toronto, 10/01/2008 – A biotecnologia médica chinesa, em plena expansão, produz controvertidos medicamentos e terapias genéticas, tanto para a população nacional quanto para estrangeiros que buscam a cura para suas doenças. O laboratório Beike utiliza células-mãe que extrai do cordão umbilical ou da membrana amniótica para tratar mais de mil pacientes, 60 deles do exterior, que sofram do mal de Alzheimer, de autismo, trauma ou paralisia cerebral e lesões na medula espinhal, segundo um estudo publicado pela revista Nature Biotechnology.
“Entrevistamos estrangeiros felizes com os tratamentos de Beike”, disse um dos autores do trabalho, Peter Singer, do Centro McLaughlin-Rotman para a Saúde Global, da Universidade de Toronto. Mas, a governamental Administração de Alimentos e Medicamentos da china não exige a realização de testes clínicos, por isso fica difícil avaliar a eficácia destas terapias, acrescentou. Trata-se de um enfoque extraordinariamente controvertido, disse Singer. Tanto Beike quanto outros laboratórios poderiam ser considerados “companhias renegadas” nos Estados Unidos e na Europa.
Apesar de ter surgido há menos de 10 anos, a indústria da biotecnologia médica tornou-se inovadora e muitos dos maiores laboratórios internacionais a utilizam para realizar suas caríssimas pesquisas e testes clínicos. Uma das empresas mais importantes, a WuXi PharmaTech, tem ações cotadas na Bolsa de Nova York e recentemente adquriu uma companhia norte-americana. “A indústria biotecnológica chinesa é como um dragão bebê, que crescerá rapidamente e logo será difícil ignora-la”, afirmou Singer, cujo informe foi publicado segunda-feira.
No ano passado, a china vendeu US$ 3 bilhões em produtos biofarmacêuticos, enquanto as companhias norte-americanas faturaram US$ 59 bilhões em 2006, segundo a consultoria Ernst & Young LLP. Singer e seus colegas realizaram entrevistas em 22 companhias chinesas para obter a primeira análise detalhada da evolução do setor biotecnológico, que se encontra em rápida expansão, mas sobre o qual pouco se conhece. Com o impulso de investimentos estatais, a china comercializou o primeiro medicamento para terapias genéticas, chamado Gendicine, utilizado no tratamento de câncer de pescoço e de cabeça. Até o momento, recebeu mais de cinco mil pacientes, 400 deles estrangeiros.
Estão sendo realizados testes clínicos do medicamento, para determinar se também é possível utilizá-lo em casos de câncer abdominal, do fígado e do pâncreas. Além disso, uma companhia chinesa também está desenvolvendo uma vacina oral contra o cólera. No mundo só existe um tratamento contra essa doença, que é comercializado em forma de tabletes. Outros laboratórios trabalham na busca de uma vacina oral contra a Aids, a pneumonia atípica e a gripe aviária. Porém, o objetivo primário das autoridades chinesas é atender as necessidades de saúde dos 1,3 bilhão de habitantes do país.
“A China não é apenas um produtor de baixo custo, também investe em pesquisa e desenvolvimento”, disse Sarah Frew, do Centro McLaughlin-Rotman, co-autora do estudo. “Já estão no mercado muitos produtos inovadores e outros que estão prestes a serem comercializados”, disse à IPS. A companhia Sunway biotech, com sede em Xangai, desenvolveu um tratamento genético para o câncer, chamado H101, com licença da norte-americana Onyx Pharmaceuticals. Completou o processo, incluídos os testes clínicos e a colocação no mercado, muito mais rápido e com menor custo, disse Frew.
Os especialista afirmam que a China é líder mundial no campo das terapias genéticas porque as companhias norte-americanas e européias têm exigências muito mais severas em matéria de segurança e eficácia dos tratamentos. Nestes casos são usados vírus geneticamente modificados que se insere no núcleo das células que apresentam disfunções. O procedimento não foi aprovado nos Estados Unidos porque não é considerado seguro e efetivo. Testes em seres humanos foram suspenso temporariamente em várias ocasiões, e também na Europa, devido à morte de alguns pacientes.
“As regulamentações que protegem os pacientes são muito mais permissivas na China do que nos Estados Unidos”, disse à IPS Peter Laurie, subdiretor do grupo de pesquisa sobre a saúde da não-governamental Public Citizen, organização com sede em Washington. Há alguns anos, pesquisadores norte-americanos que trabalhavam na China infectaram deliberadamente com malária portadores do vírus da deficiência imunológica humana (HIV), causador da Aids, com a esperança de que a febre os destruísse. Estas experiências são ilegais nos Estados Unidos, por serem consideradas perigosas e não éticas, disse Laurie.
“Qualquer laboratório que realiza pesquisa e testes clínicos na China é eticamente suspeito, a menos que o faça para melhorar a saúde das pessoas desse país”, acrescentou Laurie. As normas internacionais sobre testes de medicamentos em seres humanos são rigorosas, caras e exigem muito tempo, mas, são fundamentais para proteger os pacientes, ressaltou. Frew, por sua vez, disse que as regulamentações chinesas se baseiam nas que vigoram nos Estados Unidos, mas sua aplicação é entorpecida pela corrupção.
Em julho de 2007, o diretor da Administração de Alimentos e Medicamentos, Zheng Xiaoyu, foi executado por aceitar subornos das companhias para aprovar seus produtos, entre os quais estava o antibiótico que causou a morte de várias pessoas. A partir desse escândalo, o órgão de controle ficou mais rígido para recompor sua credibilidade, disse Frew. Entretanto, os pesquisadores chineses nem sempre respeitam os padrões internacionais e é pouco provável que possam exportar seus medicamentos ou terapias para os paises ricos num futuro próximo. Esta é uma das razões pelas quais o setor da biotecnologia cresceu de maneira muito rápida.
O estudo afirma que os investidores estrangeiros vêem um enorme potencial no setor, que poderia se converter na farmácia do mundo para medicamentos genéricos. Porém, são feitos poucos investimentos devido à falta de aplicação das regulamentações, pelas dúvidas sobre o sistema financeiro, devido às rígidas restrições à exportação de divisas e à escassa proteção pelo governo chinês dos direitos de propriedade intelectual. “A China ainda tem um pé na sociedade fechada do passado. Esperamos que faça as reformas financeiras e reguladoras necessárias para atrair o capital de risco necessário para um processo de inovação sustentada no setor da biotecnologia”, disse Singer. (IPS/Envolverde)

