Johannesburgo, África do Sul/ Plumtree, Zimbábue, 10/01/2008 – Há sete anos, Sikhumbuzo* tinha 18 anos de idade. Foi quando emigrou para a África do Sul. Agora, envia para sua casa no Zimbábue cerca de US$ 150 por mês, embora não saiba exatamente quantos familiares mantém. Sentado em uma lanchonete de Johannesburgo, Sikhumbuzo recorda sua mãe e uma irmã radicadas na cidade de Bulawayuo em seu país. Mas, também tias, tios e primos sobrevivem graças ao dinheiro que envia. Outras centenas de milhares se encontram na mesma situação que Sikhumbuzo. O fluxo de zimbabuenses para a África do Sul não dá sinais de diminuir: as dificuldades econômicas em seu país de origem se aprofundam e a crise política continua.
A má administração de um Estado que já foi um celeiro regional causou hiperinflação, pobreza e desemprego generalizado, obrigando os cidadãos ganharem a vida fora das fronteiras nacionais. A África do Sul se converteu no principal destino. Quatro milhões de zimbabuenses, cerca de um terço da população, necessitam de assistência alimentar, segundo o Programa Mundial de Alimentos (PMA) da Organização das Nações Unidas. O governo de Robert Mugabe negocia com o opositor Movimento pela Mudança Democrática com vistas às eleições de março. Os dirigentes deste partido são vitimas de violações de direitos humanos há anos.
Aproximadamente 40% dos zimbabuenses residentes no África do Sul mantêm três ou quatro pessoas em seu país de origem, e 30% sustentam mais de cinco. O cálculo corresponde a uma pesquisa feita pela Universidade da África do Sul, patrocinada pelo Fórum da Diáspora de Zimbábue, pelo não-governamental Instituto de Opinião Pública de Massa, em Harare, e pelo sul-africano Instituto para a Democracia. Para a pesquisa foram entrevistados 4.654 zimbabuenses nos subúrbios de Berea, Hillbrow e Yeoville, em Johannesburgo.
Daniel Makina, que dirigiu a equipe universitária, estima que na África do Sul vivem centre 800 mil e um milhão de imigrantes do Zimbábue, muito menos que estimativas bastante cidadãs segundo as quais há entre dois e três milhões. Makina conluiu que a maioria abandonou o Zimbábue depois de 2001, motivados, inicialmente, pela intimidação e pela tortura por parte do governo. Porém, a economia assumiu o topo da lista de motivos há algum tempo. Os que se preparam entrar na África do Sul enfrentam novas dificuldades. O desemprego de aproximadamente 40% gera competição pelos postos de trabalho e também agressões contra os imigrantes. Além disso, quando há trabalho, frequentemente se paga mal: 60% dos imigrantes zimbabuenses ganham menos de US$ 300 por mês, segundo a pesquisa de Makina.
A vasta maioria desses imigrantes envia aos seus países de origem dinheiro ou mercadorias no valor, médio, de US$ 40 mensais. Isso pode não parecer muito, mas quando se considera a quantidade de zimbabuenses que vivem na África do Sul o panorama ganha outra perspectiva. Se esses imigrantes forem cerca de 800 mil, e apenas a metade tiver trabalho, as remessas poderiam chegar a até US$ 190 milhões ao ano. A isso se soma o dinheiro enviado por zimbabuenses desde outros paises da região, ou mesmo distantes, particularmente da Grã-Bretanha.
Florence de 48 anos, mantém sua família de nove membros. Chegou à África do Sul há 11 anos, quando era fácil obter autorização de trabalho. Na África do Sul Florence cuida do filho de um casal de expatriados. No Zimbábue, nenhum de seus familiares tem emprego. Possuem um área na localidade de Plumtree onde cultivam verduras, mas nos últimos meses a falta de chuva os prejudicou. Todos os meses, Florence lhes envia dinheiro, milho, parafina, sabão, açúcar e roupas, além de material de construção, pois está erguendo uma casa para ela mesma na propriedade familiar.
Nessa terra, a cerca de 800 quilômetros de Johannesburgo, as cabras perambulam em meio ao mato, com seus sinos presos ao pescoço tocando. Pode-se vislumbrar as colinas de pedra no horizonte. O filho de Florence vive em uma casa de um quarto, com uma cama, uma velha bicicleta e algum armário. Diz que sua mãe se preocupa muito com a família. Os demais familiares pretendiam colocar o teto da casa de Florence no ano passado, mas precisavam de placas de zinco adicionais. E avisá-la que deveria enviar mais duas significava caminhar 15 quilômetros até uma aldeia para usar o telefone de um amigo para falar com ela.
A pesquisa de Makina indica que dois terços dos zimbabuenses que vivem na África do Sul regressariam ao seu país se a situação política e econômica melhorasse. Florence é um desses casos. “Minha mãe é idosa e precisa de meu amor. Estou aqui apenas porque tenho de estar”, afirmou. Sikhumbuzo também quer voltar, mas, não tem muitas esperanças de retornar logo. “Somente voltarei quando o presidente Mugabe estiver fora do poder”, afirmou. (IPS/Envolverde)
* Alguns nomes foram mudados para garantir a segurança das pessoas envolvidas.

