Genebra, 09/01/2008 – Os diferentes fatores que ameaçam a economia mundial, incluída a crescente probabilidade de recessão nos Estados Unidos, aconselham cautela na hora de avaliar as perspectivas para este ano dos investimentos estrangeiros nos países industrializados, alertou a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Esta agência estimou que os preços elevados e voláteis dos produtos básicos podem gerar pressões inflacionarias. Por isso, tampouco se pode excluir um endurecimento das condições dos mercados financeiros, diz um estudo da Unctad.
Nesse quadro, a quase certeza de que a economia norte-americana entrará em recessão e as incertezas sobre suas repercussões em caso de se concretizar podem determinar uma atitude mais cautelosa dos investidores, previu a agência. Essas considerações destacam a necessidade de avaliar comedimento o futuro dos investimentos estrangeiros diretos (IED) nos países industrializados, ressaltou a Unctad em seu primeiro informe anual sobre o desenvolvimento dos investimentos. Entretanto, em um plano geral, considera que, apesar de algumas projeções econômicas desfavoráveis para 2008 e do potencial endurecimento das normas sobre investimentos estrangeiros em recursos naturais e em indústrias relacionadas, a elevada demanda desses recursos em todo o mundo pode impulsionar as IEDs nas indústrias extrativas.
A análise global, válida para todos os níveis de desenvolvimento, insiste que os persistentes desequilíbrios externos internacionais, as agudas flutuações das taxas de câmbio, o aumento das taxas de juros, as pressões inflacionárias e também a volatilidade dos preços dos produtos básicos podem chegar a contrair os fluxos de IED no mundo. O tom cauteloso do informe quando se ocupa das perspectivas para este ano nos países ricos contrasta com o entusiasmo de sua previsão sobre o nível recorde de US$ 1,5 bilhão alcançados pelas IEDs em 2007, superando a marca anterior, estabelecida em 2000.
Os fluxos de investimentos no ano passado cresceram nos três grupos de economias, as industrializadas, as do Sul em desenvolvimento e as dos países da Europa do leste e da Comunidade de Estados Independentes (CEI, que reúne os integrantes da antiga União Soviética). Tal expansão refletiu as tendências de alto crescimento por parte das empresas multinacionais e de comportamento econômico sustentado em muitas partes do mundo. Porém, o grosso dos fluxos de IED esteve constituído pelas fusões e aquisições transnacionais, alimentadas pelos aumentos dos lucros das companhias e pela abundância de liquidez.
Entretanto, o valor das fusões e aquisições diminuiu na segunda parte de 2007, disseram, os técnicos da Unctad. Contudo, o volume global dos fluxos de IED em todo o período não foi afetado pela crise financeira e creditícia que começou no final da segunda metade do ano passado, acrescentaram. O estudo da Unctad diz que, apesar da retração da economia dos Estados Unidos, a depreciação da moeda desse país pode ter ajudado a manter os altos fluxos de IED voltados para esse país. Esses fundos provinham especialmente de nações com divisas valorizadas, como as da Europa ou da Ásia em desenvolvimento.
Enquanto os problemas dos empréstimos hipotecários nos Estados Unidos afetavam a capacidade de empréstimo dos bancos, novas injeções de capital provenientes de fundos diversos, incluídos fundos soberanos como os originários dos Estados de Cingapura e da Arábia Saudita, contribuíram para solucionar algumas das dificuldades. Quanto à distribuição dos fluxos de IED, o aporte destinado às nações industrializadas cresceu pelo quarto ano consecutivo até atingir um bilhão de dólares. Grã-Bretanha, França e Holanda receberam porções significativas, embora os Estados Unidos tenham mantido sua posição de principal receptor de IED, com US$ 192,9 bilhões, superando os US$ 175,4 bilhões de 2006.
O fluxo para os países em desenvolvimento aumentou em 16%, enquanto os das nações da Europa do leste e da CEI melhoraram e, 41%. Nos dois casos, houve recordes dos níveis de recepção. Na África, o fluxo de IED em 2007 se manteve relativamente sólido. O nível sem precedentes obtido no período, de US$ 36 bilhões, se apoiou no auge continuado dos mercados mundiais de produtos básicos. Uma das fontes significativas de IED foram as fusões e aquisições na atividade extrativa e nas indústrias relacionadas, embora esses acordos entre companhias tivessem lugar também no setor bancário da região. Egito, Marrocos e África do Sul foram os principais beneficiários dos fluxos.
Na América Latina e no Caribe, os fluxos de IED estabeleceram um recordo ao aumentarem 50%, até chegarem a US$ 126 bilhões. No caso desta região, tiveram mais importância os autênticos investimentos no terreno, mediante novos investimentos e expansão de instalações, do que as fusões e aquisições. Os aumentos mais notórios aconteceram nas grandes economias da região, em particular no Brasil, Chile e México. Os investimentos voltados para a Ásia do sul, do leste e do sudeste, bem como para a Oceania, somaram US$ 224 bilhões, com alta de 12% em relação a 2006. A china foi a principal receptora.
A região da Europa do leste e da CEI também alcançou cifras sem precedentes no fluxo de ingresso, com aumento de 41% até chegar a US$ 98 bilhões. Desta forma, esta região manteve uma continuidade sem interrupção de sete anos de crescimento das IEDs. A Rússia duplicou o valor dos investimentos recebidos. (IPS/Envolverde)

