Clima: A maior seca em um século em Portugal

Lisboa, 01/03/2005 – incêndios incomuns de florestas, orações no santuário de Fátima, procissões e missas católicas pedindo chuva e aviões da Força Aérea lançando produtos químicos nas poucas nuvens que se desenham no céu marcam este inverno em Portugal. Segundo estudos de especialistas da Universidade Lusófona de Lisboa, esta é a pior seca de inverno no país nos últimos cem anos, destacando-se em especial os meses de dezembro e janeiro. Enquanto o resto da Europa sofre as conseqüências de um inverno rigoroso, com chuvas, neve e inundações que causam estragos, em vastas regiões frondosas de Portugal são registrados incêndios de florestas típicos da época de verão.

Quatro bombeiros morreram em um violento incêndio em um vale perto de Coimbra, capital da Região Centro, 190 quilômetros ao norte de Lisboa. Carlos da Encarnação, prefeito da cidade, explicou que o fogo pouco comum para a temporada é alimentado por fortes ventos que se fazem sentir em todo o país. A última grande chuva caiu no dia 29 de outubro. Passados quatro meses, se desfazem as esperanças de salvar a agricultura e parte da pecuária do sul. Nas imensas planícies da região meridional de Alentejo, que nesta época do ano deveriam estar cobertas por um manto verde, o gado faminto e sedento perambula em grandes espaços onde o amarelo é a cor dominante.

Durante os primeiros meses de sol persistente e temperaturas de até 17 graus, os portugueses não escondiam sua felicidade quanto assistiam sorridentes os noticiários na televisão mostrando uma Europa fria e chuvosa. Mas, desde meados de janeiro, quando os preços dos produtos agrícolas começaram a subir, em alguns casos até 300%, começou a preocupação com o bolso e os sorrisos foram desfeitos. Ao terminar fevereiro a situação ganhou tal dimensão que na quarta-feira passada a Força Aérea enviou um Hercules C-130 com a missão de lançar no ar cloreto de potássio e iodeto de prata com o propósito de provocar chuva.

No ano passado, os C-130 conseguiram fazer chover na região central de Castelo Branco, mas, desta vez a operação deu resultados práticos muito limitados. O bispo de Fátima-Liria, Serafim Ferreira e Silva, determinou a realização de missas no Santuário de Nossa Senhora de Fátima para tentar fazer com que a fé mude os caprichos da natureza e consiga o que a ciência não conseguiu. Nos últimos três dias, houve alguma chuva no sul do país, mas o registro de temperaturas excepcionalmente baixas em comparação com as médias da época agravou consideravelmente a situação.

Os ventos de até 130 quilômetros por hora e temperaturas abaixo de zero transformam a umidade da chuva em uma armadilha fatal para as incipientes folhas verdes que começavam a florescer. A paisagem de Alentejo é um dantesco espetáculo de cadáveres de vacas, cabras e ovelhas, mortas de fome, sede e frio, enquanto milhões de lagartas que abandonaram seu habitat natural, invadindo as aldeias da região em busca de alimentos. Os prognósticos para a próxima primavera e verão são catastróficos. Haverá falta de água e vastas áreas florestais serão presa fácil das chamas devido à seca e ao intenso calor, que em alguns pontos do centro e sul do país chegou aos 47 graus nos últimos dois verões, estimam especialistas.

Especialistas em clima não vinculam estas condições adversas ao aquecimento global. "Se pensarmos nos curtos prazos, veremos que no período de 1989 a 1999, em que ocorreram secas prolongadas, naturalmente a gravidade foi maior do que entre 1969 e 1979, em que não ocorreram", disse no domingo na revista Publica o diretor do Centro de Estudos de Engenharia Rural do Instituto Superior de Agronomia, Luis Santos Pereira. "Mas, isto não significa que esta variação que corresponde às secas já seja um efeito da mudança climática. Que a alteração do clima tenha influência sobre a distribuição das chuvas, especialmente as inundações ou secas, a longo e médio prazos, creio firmemente. Mas, não estou em condições de prever nada, porque os modelos nos dão resultados bastante diversos", acrescentou.

A seca também afetará o turismo e os moradores de muitas aldeias históricas, cujos prefeitos já começaram a ordenar a construção de grandes tanques de reserva. Em tempos de vagas magras, os agricultores e pecuaristas se organizaram sem esperar maior empenho do governo, enviando nesta segunda-feira uma delegação de representantes a Bruxelas, sede da União Européia, para pedir uma ajuda financeira extraordinária. A delegação encabeçada por Sebastião Rodrigues, presidente da Federação de Associações de Agricultores de Alentejo, viajará à cidade francesa de Estrasburgo, sede do Parlamento Europeu, para manter reuniões com eurodeputados sobre a situação de "extrema seca" que afeta essa região.

Rodrigues alertou que "a situação mais grave ocorrerá em 2006", quando se sentir a falta de chuva afetando a produção agrícola e pecuária e deixando as represas com preocupante déficit de armazenamento de água. "Com os danos causados aos cereais e em 80% das pastagens já perdias, no ano que vem nem mesmo teremos feno seco para alimentar o gado", destacou. O Ministério da Agricultura não quis indicar à IPS a magnitude econômica das perdas devido á seca, explicando que esse balanço deve ser rigoroso e, portanto, lento. A única estimativa, feita pelos próprios pecuaristas, indica que a falta de água e alimentos está matando, em média, 40 cabeças de gado bovino e ovino por dia. Tudo dependerá, agora, do tipo de chuva. As longas e copiosas serão uma tábua de salvação de última hora para muitos cultivos. Se forem torrenciais e curtas, apenas servirão para armazenamento de água porque, segundo os especialistas da Universidade Lusófona, este tipo de chuva ajudará a matar as poucas plantas sobreviventes. (IPS/Envolverde)

Mario de Queiroz

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