Campo Grande, 28/01/2008 – Para muitos, o Fórum Social Mundial perdeu repercussão e eficácia, talvez por adiantar-se muito à opinião pública e a procedimentos políticos ainda dominantes, mas não à realidade deste tempo, que exige soluções complexas e urgentes. Manter-se como um “espaço aberto” de debates e articulação para o fortalecimento da sociedade civil, de forma horizontal e sem adotar resoluções, rejeitando tentações de se converter em um movimento para influir diretamente no poder marca diferenças com a cultura política vigente e causa tensões internas no FSM. A organização em redes, não hierárquica, com o reconhecimento e o respeito à diversidade em todas as dimensões, são parte da democracia futura que teóricos do fórum pretendem construir a partir de seus próprios processos internos, e que é pouco compreendida pelo publico e mesmo por muitos participantes do próprio FSM.
A crise do clima revitaliza o lema do Fórum, “outro mundo é possível”, acentuando o “necessário” que lhe agregam muitos ativistas. O nível de conhecimento atual do fenômeno indica que a transformação será inevitável, com um sentido positivo se assim decidir a humanidade, ou catastrófico, se predominar a inércia. Isto abre melhores possibilidades de desnudar os valores e as estruturas que conduzem o mundo a um desastre e da necessidade de mudá-los, observou um dos fundadores do FSM, o brasileiro Francisco Whitaker, em recente artigo escrito em defesa de um fórum aberto, diante de propostas de convertê-lo em instrumento de ação.
A questão climática e ambiental estará no centro da conferência mundial que o FSM retomará em 2009, após substituí-la este ano por manifestações descentralizadas do Dia de Ação Global, que aconteceram no sábado. Não por casualidade a Amazônia foi eleita sede do próximo encontro, mais especificamente a cidade de Belém, no Pará. Mas as dificuldades do Fórum derivam, em última instância, da enormidade do desafio de articular e mobilizar a sociedade civil global por “outro mundo”, mais seguro e mais justo.
O planeta se tornou mais complexo com a diversidade de interesses e culturas que já não aceitam a submissão. Mulheres, negros, indígenas, “loucos”, gente com “deficiências”, jovens, homossexuais, todos reclamam protagonismo e inclusão. Para as populações aborígines, os Estados nacionais “não servem, porque seguem um modelo não-indígena, incapaz de entender a diversidade”, afirmou Lisio Lili, membro do povo terena e do Comitê Intertribal, acrescentando uma nova complicação, ainda pouco considerada, ao mundo que os ativistas do FSM querem transformar.
Os ternas são um povo de aproximadamente 20 mil a 30 mil pessoas, concentrado no Estado de Mato Grosso do Sul, perto do Pantanal, área de terras úmidas que compartilha com a Bolívia. São considerados praticamente integrados à sociedade dominante, pois muitos de seus membros se urbanizaram ou estudam em universidades, mas ultimamente reafirmaram sua forte identidade, inclusive recuperando suas terras ancestrais ocupadas por fazendeiros.
Nas reflexões de Lili, que foi professor de ensino básico e dirigente local da Fundação Nacional do Índio, os povos originários devem buscar sua “autonomia”, que depende da posse da terra, em relação com um Estado “que não é seu”, os prejudica e cujas políticas de saúde, educação e economia não são adequadas para eles.
Do outro lado da fronteira, na Bolívia, agora presidida pelo indígena Evo Morales, representantes de povos autóctones dos países andinos, centro-americanos, Brasil, Argentina e Paraguai, reunidos em La Paz de 15 a 17 deste mês, defenderam em uma declaração a construção de “Estados plurinacionais” para terem voz ativa, territórios, direitos, costumes e economia comunitária reconhecidos.
A reafirmação indígena implica uma sublevação contra o Estado nacional que se implantou recorrendo ao extermínio em toda a América. Será interessante analisar com atenção como maneja o Estado um indígena no poder na Bolívia. No Brasil, de cinco milhos estimados em 1500, a população aborígine diminui para algumas centenas de milhares, antes de se recuperar desde a década passada. E o Estado pratica agora uma certa ambigüidade, com o reconhecimento constitucional dos direitos indígenas e de políticas assistenciais – distribuição de cestas de alimentos, por exemplo – combinados com obstáculos permanentes à recuperação de suas terras.
No Mato Grosso do Sul, os guaranis kaiowá enfrentam demoras administrativas e judiciais, além do assassinato de seus líderes, ao recuperarem terras na fronteira com o Paraguai, onde vivem muitos de seus “parentes”. Militares rejeitam o reconhecimento de terras indígenas nas fronteiras, alegando riscos para a segurança nacional. Na realidade, houve uma “globalização institucional” que obriga todos os povos a se organizarem em Estados nacionais, cuja imposição está, também, na origem da imensa tragédia africana. Isso se relaciona com uma diversidade que ainda não se discute nem no FSM, mas, provavelmente, aparecerá na edição do Fórum em Belém, já que a Amazônia conta com uma grande população indígena.
O mundo sempre foi complexo, mas as forças e o pensamento dominantes poderiam impor uma aparente homogeneidade, afastando ou isolando os diferentes, sufocando exigências, adotando leis inflexíveis para todos e um ensino único. A diversidade começou a afirmar-se como valor e princípio natural há pouco tempo, com mais força desde os anos 60, promovendo variados atores que transformam o mundo, mas, também, fragmentam as sociedades. Esta situação exige articulações e negociações que dificilmente prosperam em instituições hierárquicas. O fórum aberto é seu espaço. (IPS/Envolverde)

