Europa: Fantasmas da Guerra Fria ainda inquietam

Bruxelas, 08/02/2008 – A Guerra Fria é historia antiga”, dizia um titulo do jornal International Herald Tribune. A notícia dizia que os adolescentes de hoje na zona oriental de Berlim sabem muito pouco sobre o comunismo. Mas nessa mesma edição, do último dia 4, outro artigo anunciava, na primeira página, que os fantasmas da Guerra Fria ainda rondam a Europa. O jornal disse que os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte serão a partir de agora mais cautelosos na hora de compartilhar informação, pois um húngaro, treinado pela KGB, o serviço secreto da extinta União Soviética, presidirá a comissão de inteligência da Otan.

A polêmica designação ocorreu em meio ao debate sobre o papel que deveria desempenhar hoje a Otan, criada em 1949 para defender a Europa de um hipotético ataque soviético. O quadro da situação mudou com os anos. No momento de comemorar seu 50º aniversário, em 1990, a aliança travava uma guerra contra o presidente da Sérvia, Slobodan Milosevic (1989-1997), embora nunca tenha atacado diretamente uma nação pertencente à Otan. Mais recentemente, aceitou como membros países que foram parte do bloco soviético.

A Otan também deu assistência logística às tropas da União Africana que tentavam pacificar a província sudanesa de Darfur. E 43 mil solados da aliança combatem hoje no Afeganistão. Mas a Otan corre o risco de “perder sua credibilidade” se não se adaptar às novas circunstancias, alertou em janeiro um grupo de generais da reserva, entre os quais o norte-americano John Shalikashvili, que foi comandante supremo das forças aliadas na Europa.

Embora seu informe “Para uma grande estratégia em um mundo incerto” recomendasse que a Otan desenvolvesse capacidades não militares, também destacou que devia se manter aberta à opção do uso de armas nucleares. “A possibilidade de lançar um primeiro ataque atômico dever permanecer como um instrumento de prevenção do uso de armas de destruição em massa, para evitar perigos realmente existenciais”, disseram esses militares.

Essa declaração difere claramente da posição dos ex-secretários de Estado norte-americanos, Henry Kissinger e George Shultz, que em uma coluna publicada há um ano pelo The Wall Street Journal recomendaram uma redução substancial dos arsenais atômicos. A idéia de que os mísseis com ogivas nucleares podem deter um ataque “está se tornando crescentemente perigosa e decrescentemente efetiva”, escreveram.

Os governos europeus se comprometeram a contribuir com a renovação da Otan, o que foi interpretado como uma tentativa de reforçar sua capacidade militar. O orçamento da Otan, em torno de US$ 850 bilhões por ano, representa cerca de 75% do gasto mundial em armas. A maior parte corresponde aos Estados Unidos, que dedicam à área da defesa mais dinheiro do que todo o resto do mundo.

Para 2008, Washington prevê gastar US$ 515 bilhões. Se o Congresso aprovar essa quantia, será a mais elevada desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Os países europeus se equivocarão se decidirem imitar os Estados Unidos, disse Paul Ingram, do Conselho Anglo-Norte-americano de Informação de Segurança. Em sua opinião, seria mais produtivo se os esforços para levar estabilidade a regiões voláteis do mundo fossem canalizadas através de ferramentas civis como a diplomacia e a ajuda para o desenvolvimento.

“O problema é que a pressão para aumentar o gasto de defesa europeu provém das nações ‘guerreiras’: Estados Unidos, França e Grã-Bretanha. Estão mais preocupados com a capacidade militar do que com a segurança”, disse Ingram à IPS. O debate sobre a prioridade que se deve dar às ações militares é especialmente intenso em relação à operação da Otan no Afeganistão. A Alemanha rejeitou um pedido de Washington para que enviasse mais tropas.

No ano passado foram registradas mais de 6.500 mortes, as quais o converteram no mais sangrento desde a invasão a esse país em 2001. O general norte-americano James Jones, comandante supremo das forças aliadas na Europa entre 2003 e 2006, disse que o Afeganistão poderia se converter em um Estado falido devido a um decrescente apoio internacional. Mas o porta-voz da Otan, James Appathurai, disse que foram alcançados “êxitos enormes” nesse país.

O Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, com sede em Londres, previu que as divergências entre membros da Otan serão uma questão-chave nos próximos 12 meses. “A cúpula da Otan em abril, em Bucareste, não se limitará a discutir o eterno problema do papel da aliança, mas se está em condições de reunir a força militar e os compromissos políticos necessários por sua expandida visão estratégica”, afirmou o diretor-geral do instituto, John Chipman.

Segundo Martin Butcher, do Instituto Acronym para a Diplomacia do Desarmamento, com sede em Londres, a Otan deveria escolher entre uma doutrina influenciada pela experiência da Guerra Fria ou um enfoque mais “ilustrado”. A “verdade é que a Otan não enfrenta nenhuma ameaça imediata ou vital, seja nuclear ou de outro tipo. Pode ser uma fonte de segurança em nível global, promovendo os direitos humanos e dando assistência humanitária”, concluiu Butcher, ou “pode ser uma aliança defensiva nuclear que ameaça atacar seus potenciais inimigos. Mas é impossível que sejam as duas coisas ao mesmo tempo”. (IPS/Envolverde)

David Cronin

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