COLÔMBIA-VENEZUELA: As razões de Chávez

Caracas, 07/03/2008 – Tão logo o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ordenou o envio de tropas para a fronteira com a Colômbia, os telefones das redações foram inundados com chamados dos que viram ressuscitar a “síndrome das Malvinas”, mas as razões dessa mobilização podem ser muito diferentes e mais políticas do que militares. Chávez determinou a mobilização no último dia 2 – e o fez em seu programa dominical na televisão – um dia depois que forças colombianas atacaram no norte do Equador um acampamento da guerrilha e mataram pelo menos 20 rebeldes, entre eles Raúl Reyes, um dos chefes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Essa maneira de aumentar a aposta ou de “agregar incandescência” à situação, segundo disse o presidente peruano, Alan García, também foi uma maneira de Chávez se mostrar com força que, como está envolvido na deriva regional do longo conflito colombiano, deve contar-se obrigatoriamente com ele para qualquer solução. O mandatário se destacaria por sua exitosa intervenção junto às Farc para que libertassem políticos colombianos há anos feitos reféns.

Mas, sobretudo, os reforços militares na fronteira – apesar do desdém de Bogotá, que pelo menos publicamente se absteve de responder com medida semelhante – provêm de uma percepção de conflito em gestação, que impulsiona os chamados de Chávez para formar um grupo de países “tipo Contadora’, que busque soluções para o conflito colombiano. Contadora foi criado por democracias na região para buscar a paz na América Central há duas décadas, e a idéia interessou a governos como os do Brasil e da frança. Mas, devido ao duro confronto político e diplomático que mantém com Chávez, o presidente colombiano, Álvaro Uribe, rechaça totalmente que a Venezuela participe.

O analista e escritor colombiano Plínio Apuleyo Mendoza disse que “a síndrome Galtieri” explicaria “o último desvario de Hugo Chávez, ao ameaçar a Colômbia por um problema que não lhe diz respeito”, pois “busca ocultar os graves problemas que tem dentro de casa, criados por sua incompetência e suas extravagâncias histriônicas”. Em abril de 1982, a Argentina, então sob uma ditadura militar presidida pelo general Leopoldo Galtieri, ocupou as ilhas Malvinas, colônia britânica no Atlântico sul que Buenos Aires reivindicava secularmente. Desde políticos até historiadores concordam que se tratou de uma jogada, falida, pois a Grã-Bretanha recuperou o arquipélago a sangue e foto, para tentar superar a crise interna do regime militar, com um extenso prontuário em matéria de direitos humanos. A derrota na Guerra das Malvinas pulverizou o poder dos militares argentinos, acelerou o regresso da democracia e irradiou-se a outros países do Cone Sul.

Em dezembro Chávez sofreu sua primeira derrota em 12 consultas eleitorais desde 1998: um referendo lhe negou a possibilidade de candidatar-se até depois de 2012, e a oposição que tentou tira-lo do poder em 2002 e 2003 registra sinais de que se recupera e pode ganhar importantes lugares nas eleições regionais de novembro. O país, apesar da renda recorde obtida com a venda de petróleo, acusa escassez de alimentos essenciais, a inflação supera os 20% ao ano, são freqüentes os protestos de rua por questões como auge da criminalidade ou falta de moradias, e Chávez perde popularidade porque cada vez mais a população o responsabiliza pela falta de soluções, disseram à IPS pesquisadores como Aflredo Keller e Oscar Schémel.

Políticos de oposição, como Julio Borges, líder do partido de centro-direita Primeiro Justiça, e Ismael García, do partido Podemos, de centro-esquerda, que até 2007 apoiou Chávez, coincidiram em dizer à IPS que a mobilização militar contra a Colômbia busca tapar “o fracasso e a ineficiência do governo” para atender as demandas sociais. Outro fator que pesa na atitude de Chávez é a acentuada personalização de suas políticas. “Senhor ministro da Defesa, envie 10 batalhões para a fronteira”, foi a frase com que deu a ordem ao general Gustavo Rangel.

Ao desprezar o anúncio do colombiano Uribe, de que o acusará no Tribunal Penal Internacional por dar apoio financeiro e logístico a grupos terroristas (por seus supostos vínculos com as Farc), Chávez o desafiou, pessoalmente, “a irmos os dois ao Tribunal para ver quem sai condenado por apoiar o terrorismo e o genocídio”. São conhecidos os insultos que profere contra seus adversários, como chamar de “diabo” ou “alcoólatra” o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e Uribe de “mentiroso, mafioso, criminoso, narcotraficante e peão do império (os EUA).

As relações entre Chávez e Uribe tiveram altos e baixos desde 2002, até que em novembro o mandatário colombiano retirou abruptamente o venezuelano de sua condição de mediador de uma troca humanitária de guerrilheiros por reféns na guerra colombiana. Apesar disso, desde 10 de janeiro Chávez conseguiu que a guerrilha libertasse seis reféns. Chávez “ficou muito descontente com a morte de Raúl Reyes ao vê-la como uma estocada nas estratégias da guerrilha, mas também porque ocorreu justamente quando coroava uma vitória política e de publicidade sobre Uribe ao receber reféns libertados pelas Farc”, disse à IPS Carlos Romero, diretor de pós-graduação em Estudos Internacionais da Universidade Central da Venezuela.

Outro aspecto, trabalhado mais do que qualquer outro pelo recentemente falecido especialista político Alberto Garrido, é que a Colômbia é chave para o projeto latino-americano de Chávez, de estender por toda a região a “revolução bolivariana” que lidera e construir um “pólo de poder” sul-americano em contraposição ao da América do Norte. As Farc seriam “uma peça importante no confronto ou guerra assimétrica que Chávez vê como inevitável entre as forças do império e as da revolução continental bolivariana”, disse Garrido em uma de suas conversas com IPS.

Chávez insiste que não apóia as Farc e assina a tese de que se deve negociar uma solução política para o conflito armado na Colômbia, “já que não é possível derrotar militarmente a guerrilha e esta tampouco pode vencer o governo”. O grupo de comunicação RCN da Colômbia divulgou a versão, que atribuiu a fontes militares não identificadas, de que Chávez despachou reforços para a fronteira a fim de proteger o líder máximo das Farc, Pedro Antonio Marin, aliás, “Manuel Marulanda” ou “Tirofixo”, que, muito doente, estaria escondido no ocidente da Venezuela.

O governo colombiano apenas fez saber que outro chefe das Farc,”Ivan Márquez”, teria um acampamento no noroeste da Venezuela. A possibilidade de responder rapidamente a um ataque de Bogotá sobre essas áreas também teria levado Chávez a enviar os reforços. Sejam quais forem as razões para o reforço bélico da fronteira, o caráter político da ordem não seria, como dizem alguns, um erro elementar de um líder militar (Chávez foi tenente-coronel) mas parte de uma jogada, para reforçar a sensação de escalada do conflito.

O general Raúl Baduel, ex-colaborador de Chávez e ex-ministro da Defesa, criticou o “show para a mídia”, com anúncio público da mobilização, e outros militares da reserva afirmaram que as unidades não estão preparadas para entrar imediatamente em combate. Seja como for, Chávez acrescentou uma carta ao seu baralho, pois agora pode incluir a retirada ou desmobilização dessas unidades como parte de algum acordo de distensão na região andina. Possivelmente também por isso, em contrapartida, Bogotá decidiu manter a decisão de acusar Chávez no Tribunal Penal, apesar dos conselhos do Comitê Assessor de Relações Exteriores integrado por ex-presidentes e ex-chanceleres colombianos.

A Organização dos Estados Americanos, que tratou da questão esta semana, não se referiu à Venezuela em sua busca de fórmulas para superar o que tratou como um conflito entre Equador e Colômbia. Mas o presidente equatoriano, Rafael Correa, acredita, como Chávez, que este não é um problema bilateral, mas regional. Em entrevista à IPS no México, o ideólogo alemão Heinz Dieterich, no passado inspirador de Chávez com sua teoria do “socialismo do século XXI”, reconheceu que o mandatário venezuelano tira proveito da crise, mas previu que, dessa forma, pode contribuir para encontrar vias que acabem com o prolongado conflito colombiano. (IPS/Envolverde)

Humberto Márquez

Humberto Márquez fue corresponsal de IPS en Venezuela entre 1994 y 1996, y retomó esa labor en 2002. Fue corresponsal de Agence France Presse para Venezuela y el Caribe entre 1977 y 1992, y redactor de la sección internacional del diario El Nacional de Caracas entre 1997 y 2002. Periodista venezolano, graduado en Comunicación Social (1982) por la Universidad Central de Venezuela, durante más de 30 años ha cubierto y descrito el acontecer político y económico de Venezuela, su sociedad y su condición de encrucijada en procesos de integración y cambio en América Latina y el Caribe.

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