Nova York, 13/03/2008 – A atribulada força conjunta de paz da Organização das Nações Unidas e da União Africana para a região sudanesa de Darfur, que conta com poucos efetivos e helicópteros, é muito criticada por seu custo, extremamente elevado. É “escandaloso” gastar US$ 2 bilhões por ano para manter a Unamid quando as necessidades urgentes do continente estão em outro lado, disse o presidente da comissão (ramo executivo) do bloco africano, Alpha Oumar Konaré.
Ex-presidente de Mali (1992-2002), Konaré disse em um debate na ONU que “lamenta realmente o gasto de enormes quantidades de dinheiro na prevenção de conflitos quando esses fundos poderiam ser destinados para cumprir objetivos de desenvolvimento” não alcançados no continente africano. O gigantesco orçamento da Unamid, um dos maiores da historia das missões de paz da ONU, é “escandaloso”, disse. De todo modo, a chave para resolver o problema de Darfur está em “nós”, acrescentou. Konaré admitiu que os problemas de paz e de segurança do continente são uma “responsabilidade africana. Criamos instituições e devemos dar-lhes o poder e os meios para adotar medidas apropriadas e a tempo”, disse aos jornalistas no último dia 10.
O embaixador da China, aliado-chave do Sudão, Wang Guangya, disse no mês passado no Conselho de Segurança das Nações Unidas que “pobreza e atraso são as causas que estão na raiz dos problemas de Darfur”. Por sua própria natureza – disse – “trata-se de uma questão de desenvolvimento”. Além disso, Guangya citou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para quem “as disputas pela água são a principal causa do conflito de Darfur. Para o representante chinês, “apenas a melhora da vida da população dessa região eliminará a causa dos enfrentamentos e melhorará a segurança”.
Mas os Estados Unidos qualificaram de “genocídio” as matanças que ocorrem em Darfur. A ONU estima que o conflito nessa região, que já dura quatro anos, fez mais de 200 mil mortes entre civis e deixou mais de 2,2 milhões de refugiados. A nova força híbrida da Unamid, que começou suas operações em 31 de dezembro de 2007, e que talvez seja a maior missão de paz do mundo, terá um mandato inicial de 12 meses e incorpora a anterior Missão da União Africana no Sudão, ali presente desde 2004.
O orçamento de US$ 2 bilhões da Unamid supera o da missão de paz para a República Democrática do Congo, de US$ 1,1 bilhão por ano. Das 20 missões de paz hoje implementadas pela ONU, oito estão na África: Burundi, Costa do Marfim, Chade e República Centro-africana, Etiópia e Eritréia, Libéria, República Democrática do Congo, Saara Ocidental e Sudão. No momento, a Unamid conta apenas com nove mil soldados, tem poucos helicópteros e carece de suficiente equipamento de apoio em terra. A União Africana, de 53 membros, alega que deve ser a principal responsável na solução de conflitos no continente. O governo sudanês insiste em que os efetivos da Unamid devem ser todos africanos.
Cartum já rejeitou efetivos da Noruega e Suécia e expressou reservas à participação de batalhões do Nepal e da Tailândia. Quando o Conselho de Segurança aprovou a criação da Unamid, com 26 mil soldados, no final de julho de 2007, previu que a força deveria ter “um caráter predominantemente africano”, recordou o subsecretário-geral da ONU para operações de paz, Jean-Marie Guehenno. “Ter uma força com caráter exclusivamente africano é outro assunto. Há muitas razoes de peso que tornam necessária a maior combinação de soldados” de diversas regiões, afirmou.
A secretaria da ONU expressou sua vontade de “priorizar o envio” de soldados de duas nações africanas, Egito e Etiópia, “entendendo que as unidades básicas asiáticas chegariam de forma oportuna’’ A falta de apoio-chave à Unamid, inclusive em matéria de transporte em terra e aéreo, participação diplomática e política com as partes envolvidas e cooperação do país beneficiário, “exacerbou” as dificuldades operacionais e logísticas com as quais a missão deve lidar por se tratar de um território afastado e inóspito, disse Guehenno à comissão Especial de Missões de Paz da ONU.
Há um apoio maior às missões de paz, acrescentou, mas “o interesse oscilante e a falta de apoio da comunidade internacional dificultam a manutenção dos objetivos alcançados em áreas-chave do conflito”. O orçamento total das missões de paz, inferior aos US$ 2 bilhões em 2003,pode superar os US$ 7 bilhões no período 2007-2008, que triplica o da ONU para todo um ano, disse à mesma comissão a secretária-geral-adjunta de apoio no terreno, Jane Holl Lute. A maior parte dos US$ 7 bilhões será destinada à Unamid. (IPS/Envolverde)

