CUBA: Travestis e transformistas contra a Aids

Pinar del Rio, Cuba, 14/03/2008 – O ativismo na prevenção da Aids uniu um grupo de travestis e transformistas do ocidente cubano, em uma iniciativa que transcendeu a educação de pares para incursionar no mundo da cultura. “Chegou o momento de sermos ouvidos. Estamos em condições de pedir um lugar na sociedade, de contribuir na prevenção com nossa arte e sermos respeitados pelo que podemos e sabemos fazer”, disse à IPS um travesti cubano que para suas atuações adotou o nome da cantora mexicana Ninel Conde.

“Nunca estive tão segura como agora. Quando me vestia de homem andava sempre de cabeça baixa. Depois que coloquei salto alto me sinto orgulhosa de ser o que sou, comecei a ser feliz comigo mesma e a caminhar pelas ruas de cabeça erguida”, contou. Vinculada como voluntária ao governamental Centro Provincial de Prevenção das Doenças Sexualmente Transmissíveis e do HIV/Aids de Pinar del Rio, a 162 quilômetros de Havana, Ninel Conde recebeu um dos prêmios da Transarte, jornada que culminou com um espetáculo no principal teatro da capital cubana.

Catorze transformistas e travestis se apresentaram na segunda-feira em concurso, como parte da cerimônia que contou com alguns dos mais importantes cantores locais e com um júri de personalidades da cultura. Na ocasião também foram homenageados três dos primeiros homens que ousaram sair à rua vestidos de mulher nesta localidade cubana. A mensagem de prevenção da Aids (síndrome de deficiência imunológica adquirida), com forte ênfase em seu impacto na comunidade de homens que mantêm relações sexuais com homens (HSH), chegou às quase 500 pessoas que lotaram o Teatro Milanês, um símbolo da cultura nacional construído em 1837.

“Compartilhamos toda a diversidade que pode haver no mundo dos homens que fazem sexo com outros homens. Este tipo de espetáculo que procura educar as pessoas é uma consciência responsável e, também, elevar seu nível estético pode ser muito importante e oportuno”, afirmou o poeta da terra Nelson Simon. Considerado um dos máximos expoentes da poesia homoerótica nacional, Simón pensa que “o mundo gay continua sendo um mundo sem espaços para socializar-se”, apesar de Cuba ser um país com “a maturidade necessária para aprender a conviver com todas estas opções”.

A questão ganha especial importância nas campanhas nacionais contra a Aids. Até finais de 2007, foram diagnosticados no país 9.039 portadores do vírus da deficiência imunológica humana (HIV, causador da Aids), 81% do sexo masculino. Do total de homens, 86,1% disseram praticar sexo com outros homens, segundo fontes do Ministério de Saúde Pública. A situação é um pouco especial em Pinar del Rio, onde apenas 68,7% dos homens soropositivos se qualificam de HSH. Enquanto a presença entre os portadores de homens que se definem como heterossexuais é de 14,3% nas estatísticas nacionais, essa porcentagem cresce para 31,3% nesta província.

Com esta realidade “teremos que começar a falar cada vez mais de masculinidade e empreender ações não só dirigidas aos homens que fazem sexo com outros homens mas também ao universo heterossexual”, disse à IPS Geidy Díaz, especialista do centro provincial de prevenção. Desde a primeira edição da Transarte, no ano passado, 18 transformistas e travestis da província se formaram nos cursos de formação de promotores de saúde. Este ano a jornada incluiu cursos de cabeleireiro, modelagem, expressão corporal, desenvolvimento de habilidades sociais e educação cívica.

Segundo Díaz, o gancho motivacional da comunidade HSH em Pinar del Rio está muito associado ao universo travesti. “São ideais para a educação de pares. Se somam à maioria das atividades comunitárias que realizamos e têm um representante no conselho técnico assessor”, assegurou. Como parte do projeto, o centro provincial contribui na busca de novos cursos e emprego para estas pessoas, que, em muitos casos, se afastam dos sistemas de ensino e profissional devido à rejeição social. A escassa educação e a impossibilidade de trabalhar vestidos de mulher os leva à prostituição e, não em poucos casos, à Aids.

A iniciativa local se integra em uma estratégia para a atenção integral de travestis, transexuais e transgêneros, promovida em todo o país desde o final de 2005 pelo governamental Centro Nacional de Educação Sexual (Cenesex), que envolve uma ampla variedade de órgãos estatais. Outro grupo de transexuais e travestis, ligados ao trabalho do Cenesex e à tarefa de prevenção em várias províncias cubanas, protagonizaram em janeiro um fato sem precedentes no país quando seus membros participaram como secretárias, relator e testemunhas no IV Congresso Cubano de Educação, Orientação e Terapia Sexual.

“Para mim, foi o máximo. Todo o tempo senti como se o palco estivesse menor do que quando dancei durante a filmagem de “La Bella de la Alhambra” (Enrique Pineda Barnet, 1989). E quem estava grande era eu”, disse à IPS um transformista de Pinar del Rio que atua com o nome de Siarah Morel. Homenageado na primeira edição do Transarte, bailarino formado em direção artística, Morel é toda uma lenda local desde que, com apenas 18 anos, apareceu vestido de mulher no alto de uma carruagem do setor da pesca durante os carnavais de 1976. “Nunca pensei ver-me nesse cenário como sou”, acrescentou.

Para Nelson Simon, a realização do Transarte em uma instituição cultural como o Teatro Milanês “traz ao centro (da cidade) algo que durante muito tempo foi relegado à perferia”. Está se abrindo, assim, um espaço de participação em “um país que tem de ser, e tende a ser cada vez mais, uma sociedade inclusiva e não exclusiva”, disse à IPS. (IPS/Envolverde)

Dalia Acosta

Dalia Acosta ha sido corresponsal de IPS en Cuba por muchos años. Se graduó en 1987 de la licenciatura en periodismo internacional en el Instituto Estatal de Relaciones Internacionales de Moscú. Trabajó un año en el diario cubano Granma y otros seis en Juventud Rebelde, donde incursionó en el periodismo de investigación sobre mujer, minorías, sida y derechos sexuales. En 1990 recibió el Premio de Periodismo Tina Modotti, y en 1992 el Premio Nacional de Periodismo por un reportaje sobre la comunidad rockera de su país. Empezó a colaborar con IPS en 1990 como parte de un proyecto de comunicación con el Fondo de Población de las Naciones Unidas (UNFPA). Desde 1995 se desempeña como corresponsal en La Habana, y entre 1991 y 2010 trabajó también para el Servicio de Noticias de la Mujer de Latinoamérica y el Caribe (SEMLac).

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