Melbourne, 25/03/2008 – A repressão na China contra tibetanos, muçulmanos da comunidade uyghur e membros da comunidade religiosa Falun Gong dá origem ao chamado boicote dos Jogos Olímpicos de Pequim desde a Austrália, a grande potência esportiva da Oceania. “O regime comunista chinês é um dos piores violadores dos direitos humanos do mundo. Participando das Olimpíadas poderíamos nos converter em cúmplices”, disse o senador Andrew Bartlett, do partido Democratas Australianos, à emissora de rádio ABC.
Bartlett lançou seu chamado ao boicote num momento em que circulam versões sobre as medidas de segurança lançadas pela polícia e pelas forças armadas chinesas no Tibet, que incluem invasões domiciliares e prisões em abundância. Por sua vez, o governo do primeiro-ministro, Kevin Rudd, do Partido Trabalhista, de centro-esquerda, anunciou que não considera a opção do boicote, mas pediu formalmente às autoridades chinesas permissão para que seus representantes diplomáticos visitem o Tibet. Entre os que rechaçam a idéia de boicote figuram os atletas que participarão dos Jogos, o Comitê Olímpico Australiano e o ex-primeiro-ministro Malcolm Fraser, do direitista e conservador Partido Liberal, que em 1980 apoiou como chefe de governo os Jogos Olímpicos de Moscou.
Dezenas de pessoas morreram na repressão às manifestações e nos choques com as forças de segurança que se registraram na Região Autônoma do Tibet desde o último dia 10 data do 49º aniversário da falida rebelião contra o domínio chinês. Enquanto os meios de comunicação de todo o mundo se concentram no Tibet, também surgem apelos de organizações que lutam pelos direitos humanos em outras regiões da China ou controladas por essa potência asiática. Damian Rachmat, ex-presidente da Associação Australiana pró-Turquistão Oriental (Etaa), disse à IPS que este país deveria boicotar os Jogos Olímpicos. “A situação dos direitos humanos é muito problemática na China, no Tibet e no Turquistão”, afirmou.
A Etaa luta pela independência do Turquistão, para a instauração de um regime democrático e de respeito aos direitos humanos. A China se refere a essa área de maioria muçulmana, localizada no extremo ocidental do país, na Ásia central, como Região Autônoma de Xianjiang. Segundo a Etaa, a população no Turquistão Oriental da etnia han, majoritária na China, cresceu de 6% do total em 1949 para 40% atuais, no que Rachmat descreve como uma política de “assimilação étnica”.
A participação australiana nos Jogos Olímpicos constituiria um apoio a esta política, acrescentou. A Austrália obteve 49 medalhas nas Olimpíadas de Atenas, de 2004, e abrigou os Jogos de Sidney em 2000. Pequim quer eliminar a comunidade étnica uyghures, majoritária no Turquistão Oriental, disse a presidente do Congresso Mundial Uyghur, Rebiya Kadeer, à rede australiana de televisão SBS. “Destroem nossas crenças e nos arrastam para a imoralidade. Hostilizam, prendem e executam escritores e intelectuais uyghures que se manifestam contra o governo chinês. Os chamam de separatistas ou terroristas e os eliminam pouco a pouco”, afirmou Kadeer em uma recente visita à Austrália.
Informes oficiais de um suposto “ataque terrorista” uyghur – o seqüestro abortado este mês de um avião em Urumqi, capital de Xinjiang – foram falsidades criadas para justificar uma nova onda repressiva, segundo a dirigente. A situação no Turquistão Oriental piora, assegurou Rachmat. “No ano passado, disseram ter encontrado alguns terroristas. Em janeiro de 2007, informaram que haviam matado 18 e neste mês indicaram que mataram dois”, disse à IPS. A repressão não se refere apenas às regiões do Tibet e Turquistão: os fiéis da religião Falun Gong – também conhecida como Falun Dafa – são alvo de uma intensa perseguição. “Soubemos na semana passada umas 200 prisões” de seguidores dessa religião, disse Michael Pearson-Smith, da Associação Falun Dafa da província australiana de Vitória (FDAV).
O relator especial das Nações Unidas contra a Tortura, Manfred Nowak, condenou no ano passado a China por sua prática de extrair órgãos para transplantes de fiéis vivos da Falun Gong. “Grande quantidade” de crentes sofreu essa prática, disse Nowak em um relatório. De todo modo, a FDAV não tomou uma posição sobre o boicote. “Sempre dissemos que não somos uma organização política e que não nos envolvemos em tais atividades. Alguns vêem nossa atividade como política, e outros como uma questão de direitos humanos”.
O primeiro-ministro Kevin Rudd prevê viajar no final deste mês à China. Enquanto isso, o chanceler, Stephen Smith, pediu “calma a todas as partes” no conflito no Tibet. “Não é função do Comitê Olímpico Internacional cuidar de assuntos como os direitos humanos ou questões políticas, que são consideradas de maneira mais adequada por governos ou organizações especializadas”, disse John Coates, presidente do Comitê Olímpico Australiano. O senador Bartlett afirmou em uma sessão parlamentar que “se os Jogos Olímpicos fossem em algum lugar como o Zimbábue, todos decidiríamos boicotá-lo rapidamente. Mas, se trata da politicamente poderosa China”. (IPS/Envolverde)

