ENERGIA-BRASIL: Gasolina limpa movimenta soja brasileira

Rio de Janeiro, 31/03/2008 – O governo brasileiro decidiu acelerar os prazos para a incorporação obrigatória de biocombustiveis à gasolina e ao óleo combustível, medida que vai favorecer a produção de soja, a oleaginosa que menos rende e a mais prejudicial para o meio ambiente. Em janeiro ficou decidida a adição aos combustíveis derivados do petróleo de 2% de biodiesel, proporção que deverá aumentar para 3% a partir de 1º de julho. Por outro lado, apesar de o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel prever chegar a uma mistura de 5% em 2013, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse que a data seria antecipada para 2010.

“A tendência é que no começo de 2009 já se chegue aos 5%”, disse à IPS Sergio Beltrão, diretor-executivo da União Brasileira de Biodiesel (Ubrabio), que reúne produtores de combustíveis, de matérias-primas e equipamentos e pesquisadores. O setor já tem “capacidade instalada nominal” para produzir os 2,8 bilhões de litros anuais de biocombustível necessário para cumprir a exigência de 5% de mistura, assegurou. A soja se beneficiará por um longo período, porque é o único cultivo que conta com “volume disponível, além da estrutura industrial e logística, para atender a demanda com segurança”, disse Beltrão.

Esta tendência preocupa Orlando Cristiano da Silva, pesquisador do Centro Nacional de Referência em Biomassa da Universidade de São Paulo. A soja não serve para a “inclusão social, que é um dos objetivos do governo, e sua expansão pode” agravar o desmatamento da Amazônia. Seria “mais interessante fomentar outras oleaginosas, especialmente as palmáceas, na cadeia produtiva” do biodiesel, mas a antecipação das metas, “lamentavelmente, aponta apenas para a soja, por sua rápida resposta ao aumento da demanda”, acrescentou.

A palma africana, objeto de seus estudos há vários anos, já comprovou sua alta produtividade, muito superior à da soja, no Pará e na Amazônia oriental, além de sua capacidade para recuperar áreas desmatadas e degradadas, mas suas potencialidades continuam ignoradas, lamentou. Há obstáculos para que esse tipo de palma, procedente da África e com grande produção na Malásia e Indonésia, seja usada no reflorestamento da Amazônia, onde as propriedades têm que cumprir a disposição legal de preservar 80% de suas florestas originais.

O Brasil possui centenas de palmáceas nativas, algumas com grande produtividade de óleo, mas ainda não há uma “produção em escala comercial e permanente” que exige muito tempo, explicou Silva. O mesmo ocorre com o pinhão, com bons resultados na Índia mas pouco conhecido no Brasil. Outras alternativas, como as sementes de algodão, girassol e amendoim, terão sempre uma produção limitada para um mercado energético de grandes proporções. Restam poucas alternativas à soja nos próximos anos. O rícino, eleito para sua inclusão no programa de pequenos agricultores no semi-árido nordestino do País, gera um óleo com excessiva viscosidade e boa demanda em outras indústrias, como a farmacêutica e de cosméticos.

A palma africana, mais conhecida no Brasil como dendê, já tem o potencial e as condições de cultivo para que “em cinco anos sua produção possa atingir uma grande escala”, de um milhão de hectares, afirmou Silva. Tudo depende de uma decisão governamental e empresarial, acrescentou. Essa palmeira pode produzir óleo três anos após ser plantada. “É desejável uma variedade mais ampla de matérias-primas, mas o programa não pode esperar”, admitiu Beltrão. Por isso, a soja vai predominar por muitos anos, embora não seja o mais recomendável, já que se reconhece de forma “unânime” que não é a mais produtiva nem eficiente em termos energéticos, acrescentou.

Porém, acelerar as metas, gerando mais demanda, serve de estímulo a todos e a novas alternativas, argumentou Beltrão. Por essa razão a Ubrabio apóia o uso de misturas superiores, de 10% e 20%, em alguns tipos de veículos como ônibus e caminhões, especialmente nas grandes cidades. O programa de biodiesel criou um estímulo à produção a partir de matérias-primas da agricultura familiar nas áreas mais pobres, a partir de isenções de impostos que reduzem os custos em até 10%. No entanto, Beltrão considera que “não é suficiente” e que se deveria ampliar este incentivo e criar outros. É necessário considerar que nesse programa não importa apenas o custo do produto, mas também seus benefícios sociais e ambientais, o que exige fomentar as espécies mais eficientes energeticamente e que geram mais emprego e renda para os pequenos agricultores. (IPS/Envolverde)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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