MIGRAÇÃO: Brasileiros trocam Portugal por Espanha

Lisboa, 31/03/2008 – A crise econômica de Portugal, a extrema rigidez de seus policiais de fronteira e vôos mais baratos entre a América do Sul e Madri são os principais motivos que explicam o crescente número de brasileiros que optam por emigrar para a Espanha em lugar de seu vizinho. Esta é a apreciação apontada à IPS por Eduardo Tavares de Lima, membro do órgão executivo da Casa do Brasil em Lisboa, cidade que este escritor e jornalista brasileiro de 63 escolheu para morar desde 1975, destacando-se desde então como dirigente da vasta comunidade de brasileiros residindo em Portugal.

Mas esse aumento já provocou um incidente diplomático entre Brasil e Espanha, depois que as também rigorosas autoridades migratórias do aeroporto de Barajas, na capital, expulsaram vários brasileiros que tentavam entrar no país. Brasília decidiu, com resposta, impedir a entrada de turistas espanhóis sem reservas confirmadas em hotéis. Entre 6 e 12 de março, 24 turistas espanhóis foram devolvidos ao seu país pelos controles de migração dos aeroportos de Fortaleza, Rio de Janeiro e Salvador.

O jornal madrilenho El País disse no último dia 24 que a chancelaria brasileira “não esconde que tais medidas representam uma reciprocidade na relação com a Espanha, que impediu a entrada de aproximadamente mil brasileiros no primeiro trimestre deste ano”. As demonstrações mais notórias do zelo excessivo das autoridades espanholas aconteceram no começo de março, ao impedir que acadêmicos brasileiros seguissem para um congresso em Lisboa e deter a estudante Ynaina Agostinho. Embora a jovem atendesse os requisitos de ter US$ 750, passagem de volta e reservas de hotel, foi deportada após permanecer uma semana encerrada no aeroporto de Madri.

Na última quinta-feira, o ministro do Interior da Espanha, Alfredo Pérez Rubalcaba, afirmou que seu país não permitira a entrada ilegal de imigrantes, mas reconheceu que pode ter havido problemas” pela atuação de algum policial que não esteja devidamente correta”. Suas declarações fizeram baixar um pouco a temperatura da “guerra das deportações” entre os dois países. A chancelaria brasileira, segundo a imprensa portuguesa, reclama da falta de sensibilidade dos policiais espanhóis, como no caso de estudantes impedidos de entrarem quando estavam de passagem rumo à Lisboa, onde estudam em universidades, apesar de o cônsul brasileiro ter confirmado essa condição.

A tradicional opção por Lisboa por parte dos imigrantes, turistas ou estudantes do Brasil que viajam para a União Européia mudou gradualmente nos últimos dois anos. Segundo um documento do Palácio do Itamaraty, citado pelo jornal Público, “o número de brasileiros impedidos de entrar em Portugal foi diminuindo na mesma velocidade com que aumenta no país vizinho”. O documento indica que, segundo os espanhóis, essa preferência também se alterou porque “como em Portugal se fala a mesma língua que no Brasil, era mais difícil para os imigrantes enganar as autoridades nos longos interrogatórios”, pois não era possível alegar falta de entendimento das perguntas.

Segundo a organização não-governamental SOS Racismo, o número de brasileiros na Espanha subiu de 20 mil, em 2005, para 80 mil, no ano passado. Mas, este número continua sendo menor do que o registrado em Portugal, onde vivem 120 mil brasileiros, segundo a Casa do Brasil. “Essa proporção se torna consideravelmente maior se for considerado que em população e em território a Espanha é cinco vezes maior do que Portugal. Como aqui os brasileiros têm uma forte presença nos setores de comercio, turismo e restaurantes, são muito notórios na sociedade”, disse à IPS Tavares de Lima.

“O fenômeno migratório de brasileiros para o estrangeiro é recente. Antes ocorria exatamente o oposto. O Brasil recebia gente de outros países. Mas os tempos mudaram com a série de crises econômicas que se sucederam a partir da década de 70, quando o “milagre brasileiro” virou fumaça”. A partir de então, o êxodo começou, “com a partida de um grande número de pessoas para o Paraguai, com melhores perspectivas do que as oferecidas pelo Brasil, e depois seguiram os descendentes de japoneses, seduzidos pelo vertiginoso crescimento econômico que se verificava no país de seus antepassados”, acrescentou.

Tavares de Lima assegurou que o fecho de ouro “foi o fracasso do plano econômico do Presidente José Sarney (1985-1990) em 1986, que coincidiu com a entrada de Portugal e Espanha na então Comunidade Econômica Européia, hoje União Européia, que se converteu no sonho dos que buscavam as novas oportunidades que o Brasil hes negava”. Duas décadas atrás, “a economia européia vivia uma fase de forte expansão e todos eram bem-vindos. Hoje, a Europa tem uma batata quente nas mãos e não sabe o que fazer com ela”, concluiu o escritor.

O diretor do Departamento das Comunidades Brasileiras no Exterior Eduardo Gradinole, disse ao jornal Público que “muitos brasileiros retidos em Madri contaram que foram vítimas de maus-tratos, prisão injustificada e falta de respeito aos direitos humanos”. Segundo um documento do DCBE, a lista de países “inflexíveis” na aplicação das regras para entrar em território da eu começa com o trio formado por Espanha, Irlanda e Portugal. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou a questão ao seu colega português, Aníbal Cavaco Silva, quando o recebeu em uma visita oficial no mês passado. Lula se referiu aos 1,37 milhões de portugueses que vivem neste País e expressou sua esperança de que “os brasileiros sejam tão bem recebidos em Portugal como os portugueses sempre o foram no Brasil”. (IPS/Envolverde)

Mario de Queiroz

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