JORNALISMO-AMERICA: Venezuela abriga visões antagônicas

Caracas, 01/04/2008 – A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que reúne editores, deplorou no último sábado, em sua assembléia de meio de ano, a morte de cinco jornalistas na América Latina nos últimos seis meses, em um contesto que apresentou como carente de progressos para a liberdade de imprensa no hemisfério. Três jornalistas foram assassinados no México, um na Argentina e outro em Honduras; outros dois desapareceram em solo mexicano e tiveram de partir para o exílio cinco da Colômbia, dois de Honduras e um do Haiti, disse o presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa da SIP, Gonzalo Marroquín. Também assegurou que 25 jornalistas foram presos em Cuba, 30 colombianos receberam ameaças de morte e outros tantos no Peru sofreram agressões.

Em paralelo à assembléia da SIP, jornalistas da Venezuela e de outros países da região, simpatizantes do projeto político do presidente venezuelano, Hugo Chávez, organizaram o “Encontro latino-americano contra o terrorismo da mídia”. A realização na Venezuela da SIP, que confronta com Chavez quase desde que este chegou ao governo em 1999, levou um novo choque de visões sobre o jornalismo praticado e o desejado no hemisfério.

A SIP acolheu o relatório do patronal Bloco de Imprensa Venezuelano, junto com as que considerou principais restrições à liberdade de informação durante o período, entre elas, segundo disse seu presidente, David Natera, ameaças a jornalistas e meios de comunicação por parte de funcionários governamentais e partidários do governo. Entre outras advertências, destacou o assédio que dizem ter sofrido com manifestações de rua, pichações nas paredes de suas casas e declarações de seus funcionários, entre eles o próprio Chávez, contra o canal opositor de 24 horas de noticias Globovisión, “objetivo revolucionário”, segundo a dirigente mais popular do oficialismo na capital, Lina Ron.

Natera expôs o caso de seu jornal, Correio de Croní, no sudeste do país, que precisou ser fechado durante três dias por falta de papel, o que atribuiu, no contexto do controle de câmbio vigente, à demora na entrega de divisas ao seu fornecedor. Também denunciou a discriminação de todas as instituições estatais na distribuição de verbas publicitária, contrariando a Declaração de Chapultepec (México, 1994), segundo a qual “a concessão ou supressão de publicidade estatal não deve ser aplicada para premiar ou castigar meios de imprensa ou jornalistas”.

Precisamente por isso, a assembléia da SIP entregou seu “Grande Prêmio Chapultepec 2008” à Suprema Corte de Justiça da Argentina (recebido por seu presidente, Ricardo Luis Lorenzetti) pela decisão do dia 5 de setembro proibindo o governo de discriminar contra órgãos de imprensa por meio da retirada ou concessão arbitraria de publicidade oficial. A 200 metros da assembléia da SIP, no fórum contra o “terrorismo na midia”, jornalistas argentinos como José Steinsleger, de La Jornada de México, e Carlos Aznárez, do audiovisual Resumo Latino-americano, defenderam a “construção de um discurso próprio e matrizes de opinião diferentes das da SIP e do império (Estados Unidos)”.

O terrorismo mediático “nada mais é do que manipular, desinformar, gerar matrizes de opinião que não têm a ver com nossas sociedades, mudarmos até os gostos, a forma de pensar, é influir sobre tudo que diz respeito ao pensamento independente, rebelde, como o que se exerce na Venezuela, Bolivia e no Equador”, disse Aznárez. Por sua vez, Marroquín assegurou que “os presidentes e mais altos funcionários do Paraguai, Uruguai, Honduras, Equador, Nicarágua, Bolívia e Venezuela atacaram fortemente a imprensa no último semestre”. O presidente paraguaio, Nicanor Duarte Frutos, “foi, talvez, neste semestre o que reporta mais ataques contra a mídia com duras declarações”, afirmou.

Em conversa com correspondentes estrangeiros, a IPS perguntou ao presidente Chavez sobre seu conceito de terrorismo mediático, e ele respondeu que “é o uso do espectro radioelétrico para gerar tergiversações e terror; os órgãos de comunicação se dedicam a fazer política, por isso lutamos com eles há uma década”, disse. Um caso de saúde há dois dias permitiu ao mandatário exemplificar, pois em uma noite morreram na maternidade de Caracas seis bebes, alguns ainda no ventre da mãe e outros pouco após o parte, e a imprensa exagerou na informação.

“O fato foi tergiversado pela mídia privada, aumentando um acontecimento e dizendo que morreram seis crianças por contaminação, algo totalmente falso. Não se dão ao trabalho de chegar as causas e lançam imediatamente suas campanhas. Isso é terrorismo mediático, porque isso causa terror, tende a causar pânico”, disse Chávez. Trata-se “da quinta coluna do império que está aqui, a quinta coluna imperialista, os pitiyanquis, os lacaios do imperialismo que pretendem derrubar este governo e deter esta revolução”, afirmou o mandatário venezuelano.

Segundo Marroquín, Chávez e vários de seus ministros “mostraram uma postura agressiva contra a imprensa, o que reflete a intolerância daqueles que desejam concentrar o poder em lugar de fortalecer a democracia promovendo e respeitando seus princípios”. Marcos Hernández, do grupo Jornalistas pela Verdade, inclinado ao movimento chavista, disse que nos últimos cinco anos surgiram dezenas de emissoras de rádio, televisão e novos jornais de propriedade privada na Venezuela, o que a seu ver desmente que este país tenha deixado de ser fértil para o investimento e o exercício livre do jornalismo.

Outros participantes debateram sobre o favoritismo nas concessões e a orientação política das novas emissoras, como mostra da acentuada polarização que marcou a última década na Venezuela, para torná-la mais vívida, o canal governamental Venezolana de Televisión transmitiu horas de exposições no fórum sobre “terrorismo mediático” e a Globovisión fez o mesmo com sessões da SIP. Uns e outros foram interrompidos duas vezes em menos de 20 horas com longas redes de rádio e televisão nas quais Chávez falou aos estudantes de medicina comunitária e trabalhadores de uma fábrica Láctea recentemente adquirida pelo Estado.

“Vocês puderam ver o que sofrem os venezuelanos todos os dias com estas redes nas quais o presidente fala longamente”, disse na assembléia da SIP Alberto Ravell, diretor da Globovisión. O especialista em comunicação Alberto Pasquali recordou à IPS que Chávez fez em nove anos cerca de 1.700 redes nacionais de rádio e televisão, além de manter um maratônico programa dominical transmitidos pelos órgãos estatais, chamado “Alô, Presidente”.

Os dois encontros deverão produzir recomendações, seguramente tão diferentes quanto suas respectivas orientações ideológicas. No fórum contra o “terrorismo mediatico”, o brasileiuro Beto Almeida, diretor da rede multiestatal TElesur, disse que, “se fazemos integração energética, podemos fazer integração na comunicação”. Deve “haver coordenação das televisões públicas e comunitárias com a Telesur”, disse Almeida, além de “iniciativas para a formação de jornalistas libertários, para criar uma nova visão de profissionais de comunicação, bem como criar um circuito latino-americano de cinema e outro de audiovisual para crianças”.

O venezuelano Eleazar Díaz Rangel, diretor do jornal Últimas Notícias, propôs solicitar à Organização de Estados Americanos que sua Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão realize “um estudo em profundidade sobre a cobertura mediática tanto dos processos eleitorais quando da gestão de alguns presidentes”. Estes deveriam ser, em sua opinião, Luiz Inácio Lula da Silva; Nestor Kirchner, da Argentina; Evo Morales, da Bolivia; Rafael Correa, do Equador; Daniel Ortega, da Nicarágua, e Ghavez, reeleito apesar de ter contra si “a formação de uma diabólica aliança para apoiar candidaturas de direita enquanto eram negados espaços para informações e opiniões favoráveis aos candidatos do povo”. (IPS/Envolverde)

Humberto Márquez

Humberto Márquez fue corresponsal de IPS en Venezuela entre 1994 y 1996, y retomó esa labor en 2002. Fue corresponsal de Agence France Presse para Venezuela y el Caribe entre 1977 y 1992, y redactor de la sección internacional del diario El Nacional de Caracas entre 1997 y 2002. Periodista venezolano, graduado en Comunicación Social (1982) por la Universidad Central de Venezuela, durante más de 30 años ha cubierto y descrito el acontecer político y económico de Venezuela, su sociedad y su condición de encrucijada en procesos de integración y cambio en América Latina y el Caribe.

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