MUDANÇA CLIMÁTICA: Soluções concretas para um problema concreto

Toronto, 07/04/2008 – Não faz muito tempo, os fumantes podiam acender seus cigarros em qualquer parte do Canadá e Estados Unidos. Agora, estão confinados a uns poucos espaços livres. Como conseqüência, muito menos gente fuma. “Houve uma mudança importante nos valores relativos ao habito de fumar”, afirmou Anthony Leiserowitz, diretor do Projeto sobre Mudança Climática na Universidade de Yale. As leis contra o tabagismo, os impostos mais elevados e o conhecimento sobre os impactos na saúde dos fumantes ativos e passivos foram, entre outros, os fatores que levaram à mudança, afirmou Leiserowitz à IPS.

A maioria da população está preocupada com a mudança climática, mas a vêem como um problema abstrato e não conseguem estabelecer a conexão com eventos climáticos como o furacão Katrina, que devastou o Estado norte-americano de Louisiana em agosto de 2005, acrescentou. Isso também poderia estar mudando. A Austrália, que sofre secas sem precedentes, mudou o partido no governo em 2007, em parte porque a população rejeitava o até então primeiro-ministro John Howard que se negava a tomar medidas contra as emissões de dióxido de carbono. “Poderia-se dizer que John Howard foi o primeiro governante a perder o cargo por causa do clima”, disse Leiserowitz.

Howard poderá ter muita companhia nos próximos anos, na medida em que o público mundial abrir os olhos diante dos impactos da mudança climática, às vezes sutis, às vezes dramáticos. Os dramáticos serão decisivos, equivalente ao do ataque terrorista que em 11 de setembro de 2001 deixaram três mil mortos em Nova York e Washington e que representou enormes mudanças políticas e sociais. Paradoxalmente, a iminente recessão nos Estados Unidos pode estimular um desejo de ação mais forte, segundo Leiserowitz.

Quando o público percebe, em geral, que a economia vai bem, a população é muito mais reacionária às mudanças. “Se percebe que o sistema está roto, então há uma abertura maior”, explicou o especialista. Portanto, este é um bom momento para impor os três princípios da segurança climática: reduzir o consumo de combustíveis fósseis em todo o mundo, eliminar todas as atividades e produtos não essenciais que envolvem essa fonte de energia e exigir das empresas e do governo que minimizem seu uso no transporte e na produção.

As oportunidades para reduzir custos e emissões são freqüentes na vida diária. Comprar alimentos produzidos localmente diminui substancialmente o combustível que se queima ao embarcar mercadorias que percorrem grandes distâncias. E se os alimentos de certa localidade são mais caros do que os que viajam milhares de quilômetros, os consumidores podem cobrar das autoridades e dos produtores o motivo para que isso ocorra. Por outro lado, a população não pode escolher os meios públicos de transporte se não existem ou são de má qualidade. Daí a necessidade de exigir um transporte público cômodo, barato, eficiente e fácil de usar. “Tornar fácil” é um ingrediente crucial para criar uma mudança maciça, enfatizou Leiserowitz.

Atualmente, algumas empresas de aviação incluem na compra de uma passagem a opção de compensar o dióxido de carbono emitido pelo vôo. Desse modo, o passageiro paga uma pequena tarifa destinada a plantar árvores que absorvam sua parte das emissões. A maioria dos clientes não o faz, mas não pelo custo ou por falta de preocupação com a mudança climática, mas porque têm de tomar uma decisão, afirmou o especialista. Se esta cota de “compensação de carbono” fosse parte do processo normal de venda de passagens aéreas – e os viajantes pudessem optar por não pagar sem serem punidos – quase todos compensariam suas emissões, disse Leiserowitz. Poucos tomariam a decisão de não pagar essa pequena quantia. “Os políticos e líderes empresariais precisam reconhecer como as pessoas funcionam. A mudança social pode ocorrer de uma maneira extremamente rápida”, acrescentou.

Por exemplo, há 10 anos poucos pensariam em uma proibição de fumar em lugares de trabalho, restaurante, bares e outros espaços públicos internos. Agora, essas regulamentações são parte normal da vida em dezenas de países. A transição para a nova norma de um “estilo de vida climaticamente segura”, como a chama o escritor Dan Bloom, não será suave. Mesmo depois de iniciada a mudança – o que já pode ter ocorrido – passarão muitos anos de eventos climáticos extremos que deixarão pelo caminho os melhores esforços para reduzir as emissões. Essa perspectiva resulta desanimadora.

A atenção dos cidadãos deverá se voltar para uma mudança social positiva, destacou Susanne Moser, cientista pesquisadora do Instituto para o Estudo da Sociedade e do Meio Ambiente no Centro Nacional para a Pesquisa Atmosférica em Boulder, no Estado norte-americano do Colorado.

“Precisamos dar às pessoas uma visão positiva de que vale a pena lutar, e isso será olhando para uma comunidade sustentável onde há muita interação social, onde nos encanta estar com o outro, apesar de um clima difícil, apesar de um mundo difícil”, disse Moser em um “podcast” (informe em áudio ao qual se tem acesso através da internet) publicado pela Universidade do Estado do Oregon. A mudança climática piora a cada dia. As ações individuais são importantes. A comunidade mundial pode agir a tempo de evitar o pior? (IPS/Envolverde)

* Este artigo integra uma série de quatro sobre as mudanças psicológicas e de comportamento necessárias para reduzir a temperatura do planeta.

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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